Quando eu fiquei sabendo que uma cosplayer tinha sido lambida por um membro da imprensa e, logo depois, descobrir que tinha um cara com câmera fotográfica dentro do vestiário das cosplayers eu nem consegui dormir de raiva. Um dia antes do evento eu fiz um banner, coloquei no facebook e no twitter, tentando prevenir algo que, pensando na edição anterior, eu não achei que fosse acontecer: o assédio às cosplayers. Muito menos me passou pela cabeça que esse assédio viria da imprensa. Porque quando qualquer pessoa, jornalista ou não, lambe uma mulher sem o seu consentimento, isso é assédio.

Durante todo o evento eu vi jornalista bater foto e tocar nos braços e nos adereços dos cosplayers sem pedir autorização. E por mais que isso por si só já seja, no mínimo, falta de educação, tirar a maquiagem e lamber alguém sem a sua autorização são outros quinhentos.

respeite as minas

A “equipe de jornalismo” cujo membro lambeu a cosplayer era do Pânico na TV! O que esse tipo de imprensa, que não tem qualquer respeito por qualquer tipo de entrevistado, fazia num evento como a CCXP está além da minha compreensão. A atitude da equipe, no entanto não me deixa surpresa – inclusive a decisão de vincular o vídeo em que o imbecil do “jornalista” lambe a cosplayer, mesmo eles não tendo o direito de imagem da moça, e mesmo depois deles terem sido banidos desse e dos próximos eventos. A cosplayer que foi vítima desse assédio está obviamente constrangida.

A atitude da organização da CCXP, aliás, foi muito assertiva ao banir a equipe desse e dos próximos eventos. [Atualização: o Omelete emitiu uma excelente carta de repúdio, você pode lê-la aqui]Como eu já disse, esse tipo de imprensa não tem nada a ver com eventos e convenções nerds, ainda mais quando estamos passando por um momento tão inclusivo no mercado. Impedir que esse tipo de imprensa, que vive de coagir e fazer piada às custas dos outros, compareça a esses eventos custa apenas não fornecer a eles o passe de imprensa. Espero que outros eventos que envolvam o público nerd aprendam com essa merda que aconteceu na CCXP e passem a evitar que eles tenham acesso ao seu público.

Além do absurdo com o programa Pânico, outros veículos de imprensa não só não entendem o que é a cultura do cosplay, fazem do seu objetivo diminuir a prática e sexualizar suas participantes e ainda tiram um tempo especial do conteúdo produzido para zombar deles com vídeos na internet, em entrevistas com entrevistados claramente desconfortáveis. Perguntar se o cosplay de alguém é cospobre não mostra só uma visão desinformada do que é cosplay, mas é também uma visão elitista. Escutei falar que um grupo de cosplayers ia boicotar esses veículos grandes, como o UOL, e eles estão mais do que certos.

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Foto da querida Carolina Carvalho Alexandroni!

Toda vez que alguém usa o termo “musa nerd” um gatinho segurando uma bazuca morre do outro lado do universo. Esse tipo de linguagem, além de ser desalinhada com o atual momento do mercado (eu posso repetir isso para A ETERNIDADE), transformar as mulheres que habitam esse meio em unicórnio – algo mágico, intocável e raro – e isso não podia estar mais longe da realidade. Nós somos parte do público, nós estamos nas feiras, nós fazemos cosplays, jogamos vídeo games, lemos quadrinhos, damos palestras, escrevemos para e sobre o mercado.

Aí vêm o jornalismo não-especializado e nos chama de musas, nos coloca num pedestal sexualizado e desumanizado. Nos transforma em objeto de adoração, em algo quase irreal – num unicórnio. Chega. 2015 foi um ano muito importante para a representação feminina nos quadrinhos brasileiros – a FiQ teve uma participação feminina imensa, as mesas sobre diversidade e representação na CCXP lotaram, o público vibrou no painel da DC/Warner quando escutou a empresa reafirmar o compromisso com representatividade. Chega de achar que quem consome e quem produz é só homem, chega de sexualizar e diminuir as mulheres desse meio à consumo masculino.

Espero de verdade que com o ocorrido na CCXP deste ano os eventos nerds comecem a dar mais espaço para jornalistas especializados em detrimento de pessoas completamente desinformadas. Espero também que esses jornalistas especializados, porque eles também não são perfeitos, entendam de uma vez por todas que mulheres são seres humanos, que nós fazemos parte do público e que não tem nada de exótico no nosso envolvimento no meio nerd.

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