Desde que foi anunciado que a Hulu faria uma série baseada no livro O Conto da Aia, muita coisa passou pela minha cabeça. Já fiz um vídeo com a resenha e, apesar de achar um livro muito bom, ele tem certos momentos que são difíceis de engolir, não só pela temática pesada, mas também porque a escrita não ajuda sempre.

O livro é em primeira pessoa e muito acontece na cabeça de Offred, portanto, em vários momentos, a narrativa é lenta. Nesses casos, é sempre um desafio achar um equilíbrio entre manter a obra original, ao mesmo tempo em que as mudanças são feitas para que a história se adapte melhor para a televisão.

Porém, The Handmaid’s Tale acha o ponto perfeito. Para quem não conhece a história do livro: Em um futuro distópico, a República de Gilead é formada onde costumava ser os Estados Unidos. Nesse novo lugar, as mulheres são colocadas em posições muito específicas enquanto os homens controlam tudo. Uma das opções para as mulheres é se tornarem aias, que estão ali para ficarem grávidas e terem os filhos dos homens poderosos, sem interferir no corpo das esposas. Nesse contexto, acompanhamos Offred (Elisabeth Moss), uma aia que deseja sair dali e anseia por sua vida antiga, com seu marido e sua filha.

Podem ficar tranquilos que não vai ter spoilers.

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A série é uma ótima adaptação, inclusive, correndo o risco de causar polêmica, em certos momentos acredito que a história ficou melhor representada na série do que no livro. O essencial da trama está todo ali, o arco de Offred é bem escrito e a tensão que temos lendo o livro é a mesma que temos assistindo aos episódios. Vários personagens que não tinham espaço para crescer aparecem bem representados na série, o que aumenta e enriquece aquele universo. É uma série que pode ser assistida independente da pessoa ter lido o livro ou não.

Agora vamos focar só na série, que é o que importa nesse texto. Visualmente, a produção acerta bastante. A fotografia e a arte sempre auxiliam a contar a história que os personagens estão vivendo. Existe um contraste bem forte com as cores que as aias usam e o resto das pessoas em Gilead, assim como a mudança é sempre brusca quando vemos a nova república e o passado, onde os Estados Unidos ainda era o país que conhecíamos.

Há três “tempos” em que a história se passa: O presente, onde Offred é uma aia tentando se manter sã, o passado próximo, em que Offred está aprendendo como ser uma aia depois de ser capturada, e o passado mais longe, em que Offred vive nos Estados Unidos com Moira e sua família. Em momento nenhum esses três tempos ficam confusos para o telespectador. Pode até demorar algum tempo para a pessoa se acostumar, mas depois do primeiro episódio, já entendemos a dinâmica.

Nós sabemos qual é o final para as duas Offred do passado. Por mais que ela tente escapar, fugir de seu destino cruel, já vimos que ela vai ser capturada. Mesmo assim, a tensão é construída de tal forma que torcemos para que Offred consiga dar um jeito, mesmo sabendo que não há como escapar. Torcemos para que ao menos as pessoas ao redor de Offred, como Moira, tenham um final melhor do que o que ela teve.

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Tudo é um pesadelo nesse futuro distópico. Todas as mulheres possuem um papel muito rígido, se forem vistas fazendo algo que não devem, as punições são extremamente cruéis e que demonstram o machismo enraizado naquela sociedade. Não há espaço para grandes manifestações, como vemos em uma das linhas do tempo do passado. Qualquer ato de rebeldia precisa ser muito calculado, porque as consequências são gigantescas e a esperança quase não existe. Mesmo assim, nesse clima pesado em que tudo dá errado, o roteiro é muito equilibrado, dando momentos de respiro para o telespectador. Qualquer história precisa variar entre pólos positivos e negativos, mesmo narrativas como The Handmaid’s Tale, onde nada é bom, aumentando ainda mais a importância dos flashback.

As atuações também estão no ponto certo. Nós conseguimos ver mais dos atores a medida em que Offred vai ousando mais, tentando mais. Isso reforça o acerto da série de ter expandido a história em pontos em que o livro não foi. Conhecemos muito mais personagens como Nick, Serena Joy, Luke, Janine… E todos eles conseguem dar exatamente o que os personagens precisam em suas atuações.

Nenhum episódio é entediante e praticamente tudo que acontece tem sua relevância na história. Ao mesmo tempo em que o roteiro não perde tempo, ele também se permite contar essa história de terror com o tempo necessário, sem apressar ou estender. Talvez em um momento ou outro a série diminua o ritmo um pouco demais, mas com toda a tensão e todas as outras coisas em que a produção acerta, são defeitos pequenos que em nada atrapalham a grande série que The Handmaid’s Tale é.

Sem contar que é uma história extremamente importante de ser contada agora. Como já comentei quando resenhei o livro, os temas tratados são extremamente atuais. Eu sinto como se esse futuro estivesse logo ali, virando a esquina. Não é como se o governo já não tentasse controlar nossos corpos, como se a sociedade já não se sentisse no direito de ditar os lugares das mulheres. Essas violências são mais acentuadas na série, mas de uma forma ou de outra, elas acontecem hoje em dia também.

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Outro ponto que acho muito importante falar aqui é sobre o uso da violência. Nós criticamos muito quando uma série é gratuita quanto a isso, especialmente agressões com caráter machistas, como o estupro. Nessa série há muito disso, não se engane, mas é tratado completamente diferente do que acontece em outras produções. Um dos argumentos mais usados para a banalização do estupro é “mas essa época é violenta”. O universo de The Handmaid’s Tale é extremamente cruel, pode não parecer para os homens, mas mulheres conhecem muito daqueles medos. E sim, tem estupro, inclusive cenas que os mostram sem pudor nenhum. Então qual é a diferença?

The Handmaid’s Tale nunca tenta sexualizar o estupro. Ele não faz essa agressão para desenvolver algum personagem masculino, nem para ser o “pontapé inicial” que vai transformar alguma personagem feminina em uma “mulher forte”. Obviamente essas agressões fazem parte da história das personagens, mas a violência está ali para ser criticada, para ser mostrada como a coisa horrível que é. O jeito que a série constrói essas cenas de fato tenta levar alguma reflexão sobre o tema. As mulheres não são usadas como objeto de fundo, elas não se resumem apenas a isso para se tornarem fortes. Há muito mais ali do que o fator choque, do que a crueldade em si.

Além disso, a série está atualizada. É como se tudo tivesse de fato acontecido nos tempos atuais. Poderia ter sido de outra forma, o livro é antigo, portanto a adaptação teria liberdade para deixar a série se passar em outra época, mas é um grande acerto a história ser atualizada. A força em The Handmaid’s Tale é fazer o telespectador perceber o quão próximo essa época está de nós, que as violências que acontecem estão por aí, só que de outras formas. Sem contar que é uma crítica extremamente necessária considerando a onda conservadora atual no mundo, então foi uma mudança muito esperta que fez a série ser ainda melhor.

Assim como fiz com o livro, eu não recomendo a série para todo mundo. É uma das melhores produções de televisão que vi, talvez a melhor desse ano, mas ela trata de muitos assuntos pesados e difíceis de digerir. A série, inclusive, inclui violências que nem são tratadas no livro, mas que são bem encaixadas. Caso qualquer um desses assuntos mencionados acima te interesse, aí sim eu recomendo muito que você dê uma chance para a série. Estou ansiosa para ver o que será feito na segunda temporada, já que muita coisa vai vir do zero mesmo e não do livro em si. Porém, acho que será um bom trabalho, porque essa primeira temporada foi muito bem feita.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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