Eu venho pensando bastante sobre “internet shamming” nos últimos meses. O termo faz referência a quando uma pessoa faz uma merda muito grande na internet e os trolls caem em cima da pessoa tentando, de alguma forma, fazê-la pagar pelo erro. Aconteceu com a menina de quinze anos que tirou uma selfie sorridente em Auzchevits e com a moça adulta que tuitou o que deveria ser um tuite íntimo e irônico, e acabou se tornando um tuite racista de longo alcance que praticamente acabou com a sua vida. Não é algo que acontece unicamente com mulheres, qualquer pessoa pode passar por isso. Qualquer pessoa mesmo.

Internet Shamming é algo que precisa ser discutido. Enquanto eu entendo perfeitamente o sentimento de revolta e raiva que nasce da quantidade de vezes em que vemos injustiças sendo cometidas, e por mais que eu adore o justiceiro que mora dentro de mim, acho que ao invés de cair matando em cima, talvez o mais eficaz seja problematizar. Esse tipo de comportamento não só atinge pessoas que estão em posição de poder, mas literalmente destrói vidas de pessoas que cometeram um único erro. É tipo diminuir a maioridade penal num país que não provém qualidade de vida para jovens de periferia, saca? Tipo isso.

A internet e as redes sociais são uma grande máquina de publicidade, principalmente se você trabalha no meio do entretenimento e usa suas páginas nessas redes com intuito de promover o seu trabalho.

Algumas semanas atrás Jon Steward anunciou a sua já esperada saída do The Daily Show, programa late night do Comedy Central que vêm há anos fazendo uma cobertura cômica e provocativa sobre a sociedade e a política americana. É tipo um Jô Soares – só que melhor, na minha opinião. Eu adoro Late Show’s, assistia Jô quando era mais nova e acompanho o The Daily Show, The Late Late Show e o Last Week Tonight, da HBO, com certa frequência. Com a saída de Jon Stewart levantou-se a questão de quem seria o substituto e, com isso, a internet começou a gritar o nome de Jessica Williams, repórter negra e feminista que vêm apresentando um trabalho incrível.

trevor_noah_daily_show_p_2015

Nessa semana foi anunciado que Trevor Noah, repórter negro e sul-africano do programa, assumiria o posto. A notícia, apesar de ser encarada com uma certa dor no coração dos fãs de Jéssica (que seria a segunda mulher, e a primeira mulher negra, a ocupar a bancada de um Late Show), foi vista com bons olhos porque Trevor realmente vinha desenvolvendo um trabalho excelente no programa. Além disso, Noah eleva o número de apresentadores de Late Shows negros atualmente no ar para incríveis… DOIS. Sim. 2015 e a imensa maioria dos apresentadores são homens brancos, cis, heteros.

Até aí, tudo lindo. O anúncio foi recebido com o de praxe – pessoas achando incrível (o/) de um lado, pessoas que não conseguem lidar com as mudanças do mundo chamando de “golpe dos politicamente corretos” do outro. Ok, ok. Menos de 24 horas depois, a internet que antes estava amando o apresentador, escavou o passado de Noah e se deparou com os seguintes twittes.

Screenshot-2015-03-31-at-10.41.21-AM

Imagens via The Mary Sue

Screenshot-2015-03-31-at-10.41.12-AM

 Screenshot-2015-03-31-at-10.40.53-AM Screenshot-2015-03-31-at-10.41.00-AM

O Daily Show é conhecido por suas críticas ao racismo, à bancada conservadora americana, e mais recentemente por sua posição sempre muito bem colocada em relação ao machismo e à misoginia. O que esperava-se de Trevor é que seu comportamento fosse a altura do programa – e eu entendo quem ficou decepcionado ao ler os comentários machistas e xenófobos, eu também fiquei. O apresentador foi massacrado pela internet, e alguns tentaram defende-los. Eu acho que a gente precisa analisar os fatos.

Muitos dos twittes apresentados são de três, quatro anos atrás. Precisa ser levado em consideração de que se eu voltar três anos no meu facebook, provavelmente vou achar piadas que hoje eu considero homofóbicas, transfóbicas, machistas e talvez até racistas. Três anos atrás, assim como eu, Trevor era outra pessoa. O problema maior se instaura quando vemos outros twittes mais recentes.

Veja só, todo mundo eventualmente faz uma piada de mau gosto. Pode ser entre amigos, pode ser na rua, pode ser na internet, você pode ser famoso ou não. Eu rechaço completamente esse tipo de humor que usa o punchline para diminuir uma pessoa ou grupo. Como o próprio Daily Show faz, há humor inteligente e de bom gosto – que não deixa de ser engraçado e o punchline é sempre virado para o agressor/estrutura de poder opressora/próprio comediante, e não para a vítima. Há vários exemplos deles espalhados por aí, mas por alguma razão algumas pessoas ainda insistem que tirar sarro de alguém que já está caído é melhor do que rir de quem está chutando.

Nas suas aparições no The Daily Show, Trevor deixa claro que consegue sim fazer esse tipo de piada, então é decepcionante ver que talvez no íntimo, naquele momento em que ele não está junto de uma mesa de roteiristas, o pior prevaleça. Apesar de abominar o tipo de humor que ele apresentou nessas ocasiões, não acho que dizer que “esse mundo tá chato, não se pode fazer mais piada de nada” (como alguns comediantes agiram para amenizar o clima ruim) é a solução. Esse tipo de frase só faz de quem a diz um bitolado que não consegue entender o momento em que a sociedade ocidental se encontra hoje, mas também não acho que o shaming é a solução.

Trevor é um homem negro, e só por isso já carrega em si uma carga de situações em que sua etnia sobressai a sua qualificação/talento. Além disso, apesar de Craig Fergusson e John Oliver estarem aí fazendo comédia com a sociedade americana sem serem americanos há algum tempo, Trevor não é norte-americano e isso é mais um ponto que pode sim pesar na hora em que a internet resolve criticá-lo.

Tanto Noah como o Comedy Central soltaram comentários sobre o acontecimento.

O Comedy Central liberou a seguinte nota:

“Como muitos comediantes, Trevor Noah quebra limites , ele é provocativo e não alivia para ninguém, nem para ele mesmo. Julgar a ele e a sua comédia baseados em um punhado de piadas é injusto. Trevor é um comediante talentoso com um futuro brilhante no Comedy Central.”

Noah twittou (ah, a ironia) sobre o que aconteceu.

Honestamente, acho que faltou ao twitte e a nota do Comedy Central aquilo que tão comumente falta aos pedidos de desculpas  – o pedido de desculpas em si e um pouco de humildade. Mas eu não posso deixar de discordar de Trevor.

No meu ponto de vista, Trevor errou todas as vezes em que twittou essas piadas. Faltou empatia, faltou noção, faltou vontade de fazer um humor de qualidade. No entanto, não acho que essa shamming é a resposta. Eu sei muito bem que, tivesse sido Jéssica a assumir o posto e tivessem sido os twittes dela, a situação seria MUITO pior. Sei também que as maiores vítimas de shamming são mulheres. Mas acho que Trevor merece essa chance. Acredito que não se deve de maneira nenhuma diminuir o erro que ele cometeu no passado, mas observar o trabalho que ele realiza daqui pra frente e aí sim julgar se ele é bom ou não. Particularmente, estou esperançosa.

Você pode assistir um pouco do trabalho dele no programa no canal de Youtube do Daily Show.

😉

%d blogueiros gostam disto: