Uma das melhores coisas do Colant é encontrar sempre um projeto legal feito por mulheres – e trazê-los aqui para vocês!

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O “Quadrada” é exatamente isso! O projeto da quadrinista bahiana Lila Cruz é uma compilação de três quadrinhos diferentes o Ansiedade, o Nostalgica e o Desnuda, todos desenhados e escritos pela Lila e que juntos formam o Quadrada. Com uma visão feminina sobre assuntos que variam desde lembranças da infância, passando pelo desejo de ser uma power ranger até ansiedade e relacionamento abusivo, o projeto é uma publicação que parece conseguir compilar um pouco desse monte de emoções e experiências que é ser mulher – e crescer.

Pra falar um pouco mais sobre um projeto tão pessoal, eu fiz umas perguntinhas pra Lila.

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O que te levou aos quadrinhos? Em que momento você pensou “eu quero fazer isso?” É uma coisa que vem contigo desde pequena ou que se manifestou depois de adulta?

Eu costumava desenhar, mas quando era criança a única certeza que tinha na vida era que queria ser cantora, hehe. Só comecei a levar mais sério desenhar no final do colégio, e aí fui levando pra faculdade. Hoje, quase 12 anos depois, às vezes eu já penso as coisas em forma de tirinha, quadrinho, ilustração! É uma coisa que não consigo mais evitar. Acredite, eu tentei. rs

Os três quadrinhos do Quadrada são bastante pessoais, né? Como você lida com essa transição entre a tua realidade e as páginas em branco? Há um receio de se expor demais?

Há sim, em especial com Ansiedade, porque revela duas coisas bem pessoais, que foram o Transtorno de Ansiedade e o relacionamento abusivo. Eles estão diretamente relacionados um com o outro, porque o relacionamento abusivo desencadeou o quadro do transtorno. Já fiz música sobre isso, mas nunca mostrei a ninguém – então fazer um quadrinho bastante real e pessoal pra mim é muito louco, porque enquanto desenho eu lembro do que passei. Por outro lado, é bom pra que, se outras pessoas se reconhecerem naquilo, elas possam entender o que está acontecendo e tentar tratar o transtorno, ou, no caso do relacionamento abusivo, sair do relacionamento.

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Desnuda parece ser um quadrinho com bastante situações divertidas. O humor é algo presente no teu trabalho? Como você usa ele para contar as histórias?

Ah, acho o humor muito útil, especialmente nas situações difíceis. Eu tento rir da maior parte das coisas difíceis que acontecem da minha vida, e já rio das outras coisas também, hehe. A Desnuda é uma maneira de desbloquear a minha pessoa na hora de fazer um quadrinho sobre mim mesma. Sempre tentei falar abertamente sobre mim mesma, mas na real sou muito travada, sob um disfarce de pessoa mega sociável e tagarela. Então a brincadeira com a Desnuda é me deixar levar, destravar mesmo, e parar de achar que sou uma fraude e que por isso não faz diferença se revelo ou não, se interajo ou não. (Amanda Palmer chama de Patrulha da Fraude essa vozinha interna, e eu tenho uma Patrulha da Fraude muito feroz. rs)

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O Nostálgica conta experiências e histórias da sua infância, ou elas são só inspirações? Essa sensação de nostalgia é positiva?

São sim, super reais! Nostálgica é um quadrinho muito divertido de fazer porque me lembra um bocado de coisa boa. Tive uma infância muito legal num bairro distante do centro de Salvador, e acredito que a revista é uma maneira de deixar registrado, pra que eu também não esqueça das histórias legais que vivi. A sensação é bem positiva mesmo, como uma saudação ao meu antigo bairro, à minha infância e a todas as memórias do perí. Fiz até uma capa que brinca com isso, com o modo como Truman, do Show de Truman, saúda todo mundo na porta da saída daquele lugar que ele chamou de casa à vida toda. É um misto de saudar e dizer tchau.

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Ansiedade me parece ser o quadrinho mais íntimo. Acho que ansiedade e relacionamento abusivo são temas que, infelizmente, muitas mulheres conseguem se relacionar. Transformar essas experiências em quadrinhos te ajudou a lidar com elas? Foi um processo tranquilo ou conturbado?

Está sendo um processo complicado. hehe. Porque fazer esses quadrinhos também te coloca na posição de ser julgada por eles. Posto páginas e algumas vezes recebo a resposta de “onde está o abuso?”, mas também recebo o contrário, as pessoas que se identificam. Eu também estou exorcizando umas memórias bizarras, como uma resposta ao cara, a resposta que nunca dei, por falta de coragem. E isso me ajuda muito a superar, porque por incrível que pareça, já se passaram alguns anos, mas a revolta é atemporal. Então o único jeito de lidar com isso é desenhando mesmo. E o transtorno de ansiedade é algo que fico muito feliz de ter superado, mas não esqueço – porque doenças mentais são muito subestimadas na nossa sociedade. Tem muita gente sofrendo de depressão ou do próprio transtorno de ansiedade, com pessoas ao redor dizendo “levanta dessa cama” “deixa de frescura”. Não é uma coisa fácil e precisa de médico mesmo, mas como não é tão visível quanto uma doença de pele, por exemplo, essas doenças não são levadas a sério.

Você já tem próximos projetos? Qual o plano depois do Quadrada? Onde a gente pode acompanhar o teu trabalho?

A Quadrada vai virar uma editora de pequenas publicações e pequenas tiragens. Tô suando muito pra isso. E vai estar no FIQ também, se tudo der certo. Tenho a intenção de levar as publicações pra outras feiras durante todo o ano que vem. E esse ano criei a Banca Relâmpago, com publicações minhas e de outras pessoas, que vai rodar Salvador nos próximos meses. É um trabalho de formiguinha, que dá desespero às vezes, mas que eu não consigo largar. Ah! E ainda tenho o 38 dias (um livro sobre um mochilão pra Europa) e um livro infantil, baseado em uma exposição solo que fiz em Salvador. Dá pra acompanhar pela página do facebook e pelo site da Editora, que ainda tá começando, hehe. 

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O Quadrada ainda fica mais 16 dias no ar lá no Catarse, então corram para garantir a sua edição e ajudar mais essa quadrinista brasileira incrível a fazer o seu trabalhar alcançar mais gente! 😀

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