Texto escrito em colaboração por:
Brendda Lima, Clarice França e Rebeca Puig

A Piada Mortal é uma graphic novel, lançada em 1988, famosa por contar como se deu origem do Coringa no conturbado universo do Batman. Mas também  é conhecida pela forma como os autores Allan Moore e Brian Bolland abusaram do tropo “Mulheres no Congelador” ao transformar a sidekick Batgirl em vítima de um tiro que a deixou paraplégica, seguido de estupro, para motivar uma virada na história dos dois protagonistas da história.

Embora seja considerado uma obra genial por boa parte do público que produz e consome quadrinhos, A Piada Mortal colabora para a normatização a inferiorização da mulher ao utilizar o estupro como “recurso narrativo”, e isso é um dos principais pontos que fizeram a gente aqui do Collant, assim como tantas outras leitoras, questionar a necessidade de se adaptar para o cinema essa obra tão controversa.

O medo era de que uma adaptação quadro a quadro, como ela vinha sendo anunciada, iria apenas vitimar a Batgirl, e novamente jogar na geladeira a personagem Barbara Gordon, que já tinha se reinventado de uma maneira super legal como Oráculo, liderado o Esquadrão Suicida, as Aves de Rapina e se tornado, atualmente, uma das maiores detetives do universo Gotham.

Apesar desse receio, nós realmente não imaginamos que podia ficar muito, muito pior.

A Piada Mortal muda a relação entre Batman e Batgirl, promovendo um envolvimento sexual entre os personagens. Os criadores tentaram colocar panos quentes no assunto, no entanto, dizendo que fariam um prólogo para tornar Bárbara o foco central da história, desenvolvendo-a como personagem excitante que ela era de maneira à não vitimá-la novamente. Mas o que vimos foi a insistência de colocar Batman e Batgirl num tipo de relacionamento complicado, em que os dois deixam seus sentimentos pessoais se misturar com o trabalho de vigilante, e a representação de uma heroína que é traída pelos seus sentimentos.

Essa não é a primeira vez que Bruce Timm fala da relação entre Batman e Batgirl em suas adaptações. Em “Batman: A série animada”, Bruce e Bárbara também tem um breve romance bizarro e em “Batman: Beyond”, nós ficamos sabendo que ela chegou a ficar grávida de Bruce, mas acabou perdendo o bebê. É incrivelmente sintomático numa industria dominada por criadores homens a utilização de envolvimentos sexuais como motivações para desenvolvimento de personagens.

Mas os problemas de representação feminina não param ai. No prólogo, Batgirl/Bárbara Gordon só fala sobre o Batman; Sobre como ele não admite que ela é a melhor aluna que ele já teve; Sobre como ele não pode dizer o que ela pode ou não fazer; Sobre os sentimentos que ela tem por ele e os sentimentos que ele talvez tenha por ela; Sobre como ele não pode impedí-la de ir atrás “desse” vilão, sobre como foi só sexo pelo amor de deus. Porque de que outra maneira o público iria se identificar com a Bárbara se ela não estivesse envolvida com o Batman?

Seria engraçado, se não fosse deprimente conhecer essa Bárbara quase escandalosa, que grita no telefone “Foi só sexo, pelo amor de deus”, e que agride com um golpe de judô um cara que está reclamando, de maneira grosseira para sua namorada que está sempre grudada nele, que ele quer espaço.

Essas atitudes não só fogem completamente da personalidade da Bárbara dos quadrinhos, como também ajudam a perpetuar a ideia de que mulheres são descontroladas emocionalmente, que não sabem separar o profissional do pessoal e como bem disse Marcy Cook no The Mary Sue, acaba caindo numa narrativa de empoderamento através da violência e da dominação:

Essa não é uma cena empoderadora, é só Babs sendo fisicamente abusiva, agindo numa maneira ainda pior do que namorado tinha agido. Mulheres não precisam ser abusivas para serem empoderadas. Isso é o empoderamento por dominância masculino, não uma mulher empoderada. Escritores (homens) muitas vezes não entendem a diferença.

Não é que personagens mulheres não possam ser violentas, mas aqui isso é colocado como estereótipo e um “empoderamento” falso, inclusive com espaço para a piada de que a Batgirl devia estar de TPM.

Além de mostrar Bárbara como “descontrolada”, o roteiro ainda hipersexualiza a personagem. Não só Batgirl é a única que aparece tirando a roupa, mas o vilão da primeira parte do filme a objetifica a todo momento e Bárbara acha “fofo”. Depois de tudo isso, ainda temos um ótimo exemplo de mansplaining (ou homenxplicação) quando Batman dá uma bronca em Batgirl por não perceber que está sendo objetificada. Bárbara é tratada por Bruce como “criança” o filme todo, como se ela não fosse uma mulher capaz de tomar as próprias decisões.

Mostrar a Batgirl como “centro” da história para reduzi-la a esses estereótipos não é empoderador, apenas reduz a personagem. Além de toda essa caracterização que enfraquece Bárbara, parece que todo esse suposto “desenvolvimento” da personagem só foi colocado no começo para servir de motivação para o Batman. O filme mostra Bárbara como “romance” e usa o abuso do Coringa como combustível para o herói derrotar o vilão. Não é empoderador, é ruim e batido mesmo.

O filme termina com um epílogo em que Bárbara parece ter assumido seu papel como Oráculo. Talvez, se eles tivesse optado por deixar apenas essa cena e não fazer o tão mal construído prólogo, ela sozinha já ajudaria a apaziguar o problema em torno de A Piada Mortal. Mas a verdade é que só a existência dessa cena já é uma injustiça, não com Bárbara, mas com os autores que realmente criaram a Oráculo. A Piada Mortal nunca quis criar a Oráculo, nunca teve a intenção de iniciar um arco com uma super-heroína deficiente e as dificuldades que ela teria com a nova realidade. Como bem lembrou o Kieran Shiach, do Comics Alliance, foram John Ostrandre e Kim Yale, na revista do Esquadrão Suicida, que re-apresentaram Barbara como uma hacker que ajudava a equipe, criando um plot para a personagem que mostrava que deficientes físicos podem ser super-heróis, que não são incapazes e que não são descartáveis.

Durante a SDCC desse ano, quando a equipe foi questionada sobre esses estereótipos, Brian Azzarello xingou um fã o chamando de “pussy”, que em inglês é um xingamento bem misógino. Ou seja, um dos escritores de uma animação que deveria “empoderar a Batgirl” é misógino com o público. Isso não só pega muito mal pra DC, como mostra que sua equipe criativa precisa melhorar muito.

Talvez se a DC decidisse incluir mais mulheres escritoras em suas obras o resultado seria diferente, mas enquanto eles não estiverem dispostos a mudar sua abordagem com as personagem mulheres, continuaremos vendo esses estereótipos que só empobrecem a narrativa. Então não, A Piada Mortal não empodera Batgirl e não fala de poder feminino, só conseguiu deixar uma história que já era machista ainda pior.

Batgirl 50. Arte de Babs Tarr.

Tá difícil, Barbs. Tá difícil.

 

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