No último dia 12, Ronan Farrow, filho de Woody Allen com a atriz Mia Farrow, e irmão de Dylan Farrow, escreveu um artigo para o Hollywood Reporter cobrando da imprensa uma maior cobertura sobre as acusações contra Allen. Intitulado “Meu Pai. Woody Allen, e o Perigo de Perguntas não-Perguntadas”, Ronan relembra não só o caso de sua irmã, mas também a maneira como ele próprio falhou em entrevistas sobre Bill Cosby, que hoje possui mais de 60 acusações de estupro.

Ele também fala sobre como, apesar de nunca ter duvidado de sua irmã, não queria que ela fosse à público novamente:

“Eu evitei comentar sobre as acusações da minha irmã por anos, e quando encurralado, me distanciava limitando minha resposta à uma linha de twitter. A decisão da minha irmã de falar sobre o assunto veio logo antes de eu começar a trabalhar em um livro e em uma série de televisão. Era a última coisa com que eu queria estar associado. Inicialmente eu implorei para a minha irmã para não ir à público de novo, para evitar falar com repórteres sobre isso. Eu tenho vergonha disso, também. Com abuso sexual, qualquer coisa é mais fácil do que encarar de peito aberto, falar sobre tudo isso, encarando todas as consequências.”

Ronan relembra também o modo como foi difícil encontrar um veículo que estivesse disposto a publicar a carta de Dylan e, quando encontraram, a publicação acabou evidenciando um viés negativo das publicações:

“Quando o The New York Times finalmente publicou a história de minha irmã, em 2014, deu a ela 936 palavras online, com limites bem estabelecidos. Nicholas Kristof, o repórter ganhador do Pulitzer e defensor de vítimas de abuso sexual, colocou em seu blog.

Logo depois o Times deu ao suposto abusador da minha irmã o dobro do espaço – e uma posição de destaque na edição impressa, sem limites ou qualquer contexto. Foi uma forte lembrança de quão diferente a nossa imprensa trata os acusadores vulneráveis e os homens poderosos que são acusados.”

Sobre o tipo de resposta que os representantes de Allen fizeram depois da divulgação da carta de Dylan, Ronan diz:

“Esses e-mails possuíam pontos prontos para serem convertidos em histórias, completos inclusive com pessoas que os validariam – terapeutas, advogados, amigos, qualquer pessoa disposta a taxar uma jovem mulher confrontando um homem poderoso como louca, treinada e vingativa. Num primeiro momento eles linkram blogs, depois os veículos de grande alcance repetindo os mesmos pontos – uma máquina que se auto-alimenta.”

O artigo inteiro é uma leitura interessante sobre como a mídia é ameaçada, tem medo e, mesmo quando dá espaço para a vítima, acaba sempre suavizando para o acusado homem e poderoso.

woody allen cannes

Woody Allen e o elenco de seu novo filme durante lançamento em Cannes.

Ronan decidiu soltar esse texto nesta semana muito provavelmente porque, novamente, a mídia internacional está pronta para escrever longos textos sobre a qualidade artística da obra de um acusado de abuso sexual de menor sem dar nem mesmo um pequeno parágrafo para as acusações. E, ao meu ver, se foi isso que o motivou a escrever o texto, ele está correto. Porque pouco se fala sobre os homens poderosos e abusadores. Na verdade, eles são constantemente aplaudidos.

“Amazon pagou milhões para trabalhar com Woody Allen, bancando uma nova série e filme. Atores, incluindo alguns que eu admiro muito, continuam fazendo fila para estar em seus filmes. “Não é pessoa”, me disse um deles um dia. Mas machuca a minha irmã toda vez que um de seus heróis como Louis C.K., ou uma estrela da sua idade, como Miley Cyrus, trabalham com Woody Allen. Pessoal é exatamente o que isso é – para minha irmã e para mulheres em todos os lugares com acusações de abuso sexual que nunca foram vingadas por uma condenação.”

Durante uma entrevista sobre representação da mulher no cinema, Susan Sarandon foi indagada sobre o que ela achava de Woody Allen ter dito que não escreve filmes sobre mulheres mais velhas que se apaixonam por homens mais novos por falta de experiência. A atriz, que estava ao lado de sua companheira de Telma e Louise, Gina Davis, disse:

“Eu não tenho nada de bom para falar sobre Woody Allen, então acho que não deveríamos tocar no assunto.”

Quando a repórter a pediu para elaborar sobre o que havia acabado de dizer, Susan respondeu

“Eu acho que ele abusou sexualmente de uma criança, e eu não acho que isso seja certo… Ficou um silêncio grande aqui, mas é a verdade.”

O silêncio da sala provavelmente foi comparável à satisfação que me deu ao ver uma atriz poderosa como Susan Sarandon falando sobre as acusações, em Cannes, festival que deu espaço em sua abertura ao filme de um acusado de abusar uma criança. Se o silêncio lá naquela sala francesa foi talvez por nervoso e pela um tanto inesperada natureza da afirmação de Sarandon (ninguém espera que uma atriz acuse um diretor dessa maneira em um festival desse porte), a minha satisfação veio por causa do peso que Sarandon deu ao tópico.

Abuso sexual é algo que anda é tratado como tabu. Principalmente quando ele é perpetuado por um homem branco, famoso e poderoso. O silêncio da mídia sobre o caso, o seu viés claramente pendendo para o lado do acusado, as celebrações do gênio masculino abusador e a romantização dessa merda toda só serve para a mídia se for polêmico. Se for para abordar o tema de maneira séria, se for para parar de dar batidinhas nas costas do tal “gênio”, então não. Allen não é o único caso em que um homem desse tipo estupra e o mundo procura vê-lo como um gênio incompreendido, que está sendo perseguido por algo que ele não fez e, se fez, foi há muitos anos – porque fazê-lo pagar por isso agora?

Porque nunca vai haver um julgamento justo para Dylan. Porque as mulheres que acusaram Bill Cosby talvez nunca consigam justiça. Porque Polansky mesmo julgado e condenado continua foragido, e produzindo e assim vai continuar. Porque é mais fácil perdoar e fechar os olhos para os tais “erros”, que na verdade são atos de violência, dos homens poderosos do que tentar escutar e entender a vitima. Porque o medo do desconforto que levantar essas questões vai sempre pesar mais do que os benefícios de se falar abertamente sobre abuso sexual, abuso de poder, impunidade e conivência.

A lei do “inocente até que se prove o contrário” só existe se você é homem, porque as vítimas desses homens poderosos são sempre culpadas. Culpadas por não parecerem menores de idade, por terem sido crianças assustadas em frente à uma polêmica mundial. Por terem apagado e não se lembrado de muitas coisas, por terem se deixado silenciar frente à tragédia maior ainda que um desse poderosos poderia causar. Porque se ela perdoou e resolveu seguir em frente com a sua vida, então não há crime. Mas há. E aconteceu, Porque as vítimas sempre serão culpadas por terem, ou pelo menos terem tentando, estragar a vida, a carreira e o legado desses pobres homens poderosos e abusadores.

Esse tipo de silêncio não é só errado. É perigoso. Manda para as vítimas a mensagem de que não vale a pena se posicionar. Manda a mensagem sobre quem nós somos como sociedade, o que vamos deixar de ver, quem vamos ignorar. Quem importa, e quem não importa. – Ronan Farrow

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