Recentemente Margot Robbie falou ao NY Times sobre um ponto importante para a personagem Harley Quinn no filme Esquadrão Suicida: Sua roupa.

“A personagem veste um shortinho por que ele é brilhante e divertido, não por que ela queria caras olhando pro seu bumbum. (…) Como Margot, não, eu não gosto disso. Eu como hamburger na hora do almoço e depois a gente faz uma cena em que você está atirando em pessoas usando uma camiseta branca encharcada, é meio pegajoso e você fica insegura sobre seu corpo.”

Apesar da Harley Quiin ser bastante confiante sobre seu corpo, e sensualidade ser uma característica marcante da iconografia da personagem, a declaração da Margot reacende um debate interessante sobre a as roupas das super mulheres nas histórias em quadrinhos (ou em qualquer mídia de conteúdo pop nerd que você conheça).

Como Bacharel em Design – Moda, aprendi ainda no primeiro semestre que as roupas devem servir aos indivíduos atentando para algumas características básicas como proteção, conforto e adorno, se adequando à circunstâncias e contextos sócio-temporais específicos. Deixando a linguagem acadêmica um pouco de lado, gostaria de construir com vocês, neste post, o entendimento de como uma personagem é construída e da importância que a indumentária tem (ou deveria ter) em um quadrinho.

 

A tal da liberdade artística.

 

Todas as personagens (aqui me refiro à homens e mulheres) são fruto da mente criativa de seus autores. No caso dos quadrinhos o visual de uma personagem pode ser descrito no roteiro ou criado (e recriado) pelo ilustrador para refletir aspectos como identidade de gênero, idade, personalidade, profissão, tempo histórico e condição social em conformidade com as caracteristicas do público para o qual o quadrinho se destina.

Em 2014, por exemplo, o visual da Batgirl foi recriado para se adequar ao novo momento da personagem. Assim entraram em cena a jaqueta + calça + botas + luvas + mascara em formato de capacete que, em comparação técnica, parece muito mais confortável para alguém que luta contra o crime do que uma roupa toda feita de couro.

imagem comparativa Batgilr

Apesar de gostar da personagem nestes dois momentos diferentes, claramente o segundo visual me parece mais confortável pra lutar contra o crime.

O conceito visual das personagens, também, sofre influência da poética de cada artista. Ou seja, de maneira inconsciente um ilustrador insere no desenho gostos particulares por roupas, cores, elementos visuais e até mesmo ideologias. Assim, uma mesma personagem pode ser representada de diversas maneiras respeitando o perfil psicológico descrito pelo autor.

harley quinn bruce timm - john timms

Harley Quinn da direita feita pelo Bruce Timm. À esquerda, Harley Quinn por John Timms.

arlequinatumblr

Harley Quinn ilustrada por mim.

As diferenças entre as imagens são gritantes.

Essa é a hora que você deve estar pensando “Ah, o artista pode produzir o que bem entender e ninguém tem o direito de criticar”. E eu vou te dizer que não é bem assim.

O Artigo 5º da Constituição Brasileira de 1988, prevê a liberdade de criação, produção e divulgação de qualquer material de cunho artístico desde que ela não intervenha nos direitos do outro. Por tanto é necessário compreender que a tal da liberdade artística precisa respeitar princípios éticos relacionados a autonomia dos indivíduos, a igualdade de gênero, a multiplicidade de representações de corpos e etnias a valorização de outras culturas, evitar o discurso de ódio e principalmente incentivar o pensamento crítico.

Pois é, amigos, mesmo que o intuito final de um quadrinho seja divertir o leitor, ele precisa se preocupar com o conteúdo que ele está transmitindo para o público.

Desta maneira criticar a existência de um padrão de super mulheres em roupas minúsculas, saltos altos, poses sexualizadas e destinos trágicos é tão necessário quanto reafirmar que tudo que queremos é ver múltiplas representações visuais de personagens mulheres sendo importantes para as histórias em quadrinhos. Isso não significa censurar a produção já existente, mas sim expor necessidades específicas de uma faixa de mercado que pode gerar mais lucro pros artistas.

 

Meu corpo minhas regras.

 

Espero, que a esta altura vocês já concordem comigo que quem define o visual da personagem num quadrinho são os autores.

Estes artistas são, em maioria, homens que constroem histórias para mexer com o imaginário de outros homens, e que dessa forma se utilizam dos elementos estéticos para realçar atributos físicos com adornos, que muitas vezes não atendem à praticidade necessária para uma super mulher. Assim, finalmente encontramos a lógica por trás dos uniformes que deixam partes do corpo expostos à ferimentos em situações de batalha; Dos acessórios que dificultam a execução dos movimentos (tentem correr com um salto ou lutar com um bebê nas costas como faz a Mulher Maravilha em Dark Knight III); E das roupas tão justas e curtas que em situações reais deixariam as mulheres preocupadas com sua a aparência, vide o que a Margot Robbie falou lá em cima.

Embora esse tipo de representação incomode o público feminino, no meu post passado falei que o número de mulheres que consomem ou produzem quadrinhos vem aumentando gradativamente. Acredito que isso se deva à estratégias para incentivar o consumo de HQs, através de histórias e personagens mais próximas das leitoras, permitindo que elas se reconheçam na jornada do herói e que leiam sobre autoconfiança, relações de amizades com outras mulheres, e que entendam que heroínas x pode ser segura da sua sexualidade, mas que isso é fruto de uma construção.

De 2012 pra cá, a Capitã Marvel que se tornou o maior ícone de empoderamento feminino nas histórias em quadrinhos (eu te amo Mulher Maravilha, mas é verdade); A Barbara Gordon voltou a lutar contra o crime como Batgirl; E a Harley Quinn finalmente se livrou do seu relacionamento abusivo. <3

extraido de Harley Quinn 25

Embora pareça fácil usar a desculpa de que a personagem é dona de si para justificar enquadramentos e posições que evocam o softporn, gostaria de lembrar que as decisões tomadas para os personagens são dos autores. Lumberjanes, Rat Queens e Bitch Planet, são exemplos bem sucedidos de quadrinhos com super mulheres que ilustram biotipos e individualidades diferentes em cada uma das personagens, adequando suas roupas a espaço-tempo e  da narrativa. Então, por que não fugir do já tradicional desenho de homens em posições heroicas e mulheres que transbordam sensualidade em roupas que parecem pintadas no corpo, e passar a tratar as super pessoas de maneira igual?

ce67474e8b324470381e3de2a63757df

<3 Um obrigado especial à Manu e a Rebeca, que leram pacientemente esse texto, no seu processo de criação. <3

%d blogueiros gostam disto: