Polêmica tem sido um ponto muito forte nos últimos tempos para a indústria da cultura Pop, e o feminismo parece estar sempre envolvido. Seja por gritarmos por um filme solo da Mulher-Maravilha (e fomos escutadas), seja por reclamarmos de uma capa sexista ou por sermos atacadas por criticarmos uma cultura misógina num meio que amamos. Mais espaço e melhor representatividade para as personagens femininas é uma luta que vem muito antes de mim e talvez de você, e é muito bom ver nossas vozes sendo escutadas.

a thor

O mesmo acontece com o aumento da diversidade racial nos quadrinhos. Capitão América agora é negro e Miss Marvel é uma adolescente americana de origem afegã, como não amar essa onda recente de empoderamento de minorias? E o primeiro ator abertamente gay a assumir um papel de super-herói? Está longe de ser o ideal, mas o começo de uma mudança pode ser vista e isso é algo muito positivo.

Alguns dizem que é uma fase e que vai passar, em pouco tempo tudo vai voltar à mesma normalidade padrão de sempre, que a indústria está fazendo isso tudo por dinheiro, pra satisfazer uma parte do público. Para essas pessoas eu digo: e você acha que Psylock usava uma maiô cavado daquele jeito porque? Praticidade não era. Não, era pra seduzir o então público, garotos/homens heterossexuais, a comprar as revistas. E nós, mulheres e minorias, somos mercado, e queremos sim ser vistos como mercado e queremos nos ver representados nos quadrinhos, filmes e séries de televisão.

Particularmente, acho que essa onda de empoderamento que anda rondando a cultura pop de maneria geral é algo que veio para ficar e que representa uma mudança positiva do cenário social de maneira geral. Não dá mais para negar a diversidade da sociedade em que nós vivemos, não dá mais para achar que tudo é branco, cis, hetero e masculino. Tudo é misturado e tudo é lindo. É quase o começo de uma filme de ficção científica em que a sociedade é uma grande loucura de diversidade de sexualidade, gênero, cor e tudo mais.

Mas o quê da questão aqui é: Porque é importante mudar a etnia e o gênero de personagens famosos? Por que não criar novos personagens?

Sam Wilson

Vamos pensar em todos os super-heróis mais famosos, aqueles que tiveram filmes, séries de televisão, quadrinhos e merchandisings de sucesso, e há quantos anos eles foram criados. Superman, Batman, Mulher-Maravilha, X-men, Homem-Aranha, Capitão América, Hulk e Thor. Todos criados em uma época de segregação racial muito forte, em que o papel da mulher era o de dona de casa ou parte da decoração, em que minorias não era um assunto tão abertamento discutido como hoje em dia.

X-men possui uma diversidade bem interessante que foi incorporada através dos anos, mas dos seus principais personagens, aqueles que são mais presentes nos filmes, merchandisings, desenhos e etc, só Tempestade é realmente parte de uma minoria – e o número de mulheres é sempre inferior a de homens, assim como na Liga da Justiça. Nota-se também que, com exceção de liberdade, todos são brancos. Todos são, serão ou foram protagonistas de pelo menos um filme solo – se não ganharam três franquias nos últimos vinte e cinco anos! Batman, eu estou olhando pra você.

São esses personagens icônicos que vão morrer, voltar a vida, morrer de novo e mais uma vez serão ressuscitados para mais uma vez morrerem. E em todas essas vezes eles serão lembrados mesmo quando estiverem “mortos de verdade” (vide, Jean Grey). Eles são os personagens que antes mesmo de sabermos falar sabemos que existem, eles nos acompanharam desde a infância, e continuam fazendo isso com as crianças de hoje.

Esses ícones do mundo pop precisam ser o parâmetro para uma mudança.

Eu não estou dizendo que um dia você vai acordar e descobrir que o Homem-Aranha é um moleque latino, e que a série dele tá fazendo o maior suces- oh! Pois é. E ela faz tanto sucesso não só porque as histórias são divertidas e atraentes, mas também porque ao ir na banca e ver que o super-herói que ele tanto ama é latino como ele, o menino vai se sentir mais próximo e mais inclinado a comprar. As experiências dele vão ser mais próximas da dele, a visão do personagem vai ser mais próxima das nossas.

morales

A internet foi a loucura quando quando Michal B. Jordan foi anunciado como o novo Tocha Humana no reboot de Quarteto Fantástico. Eu achei incrível, especialmente porque os escritores parecem não ter sentido a necessidade de explicar como pode Johnny ser negro e Susan branca. Essa é a realidade da nossa sociedade, galerinha. Ela é plural. E qual o real problema de um personagem branco no quadrinho ser negro no cinema? E se o personagem branco, depois de mais uma nova reestruturação da linha temporal da DC ou da Marvel, passasse a ser negro/latino/asiático ou de qualquer outra etnia? O personagem continua o mesmo. A verdade é que esse foi um passo bastante ousado, mais do que passar o manto, os envolvidos em Quarteto Fantástico decidiram tomar uma atitude em favor da diversidade.

Personagens como Superman nunca vão deixar de ser o cara branco de cabelos castanhos e olhos azuis – eu pelo menos acho que não. Passar esse manto a diante não é simples e ele não possui uma história que pode ser trabalhada ao redor como a do Capitão América ou do Thor. Mas Bruce Wayne já passou as orelhas pontiagudas pelo menos sete vezes – todas para personagens masculinos. Claro, nós temos a Batwoman com uma série própria que rendeu vários elogios, mas ela não é o Batman, e muita gente nem sabe que a Batwoman existe. Mas John é um dos Lanternas Verdes mais queridos, e fez um sucesso estrondoso nas séries de animação para a televisão da Liga da Justiça!

Passei alguns bons anos afastada dos quadrinhos por cansar da misoginia, da falta de representação e da redundância das histórias. Foi gradual, mas eu acabei perdendo o interesse aos poucos. Me chamem de fraca, mas é a real. Acompanhava de longe, pela internet, mas sem nunca realmente adentrar, já que era algo que me incomodava. Até recentemente, quando essa nova onda de quadrinhos me fez voltar – hoje corro atrás do prejuízo, mas não me arrependo de ter me afastado de algo que me fazia mal.

Quando discuto essas mudanças nos personagens de super-heróis dois argumentos sempre aparecem: “as histórias são universais, todo mundo pode se identificar com elas” e “não faz sentido mudar o gênero/etnia/sexo de personagens clássicos já estabelecidos, criem outros personagens”.

Histórias são universais até um certo limite. Sim, todos nós dividimos a dúvida do que acontece após a morte, temos inseguranças inúmeras, sofremos agressões, nos apaixonamos, levamos e damos pés na bunda, sofremos com a nossa condição humana. Mas nós não somos iguais, não temos o mesmo background, não temos a mesma cor, não dividimos o mesmo gênero, não sabemos o que se passa por baixo da pele da outra pessoa.

miss marvel

Eu sou branca, classe média, hetero e cis, eu sei que quem não se encaixa nesses padrões passa por opressões que vão além do machismo de todo o dia, eu sei que uma mulher negra, classe média, hetero e cis cresceu com experiências diferentes que a minha, mesmo muitas vezes dividindo os mesmos espaços. Assim como eu me canso de ver sempre as mesmas histórias sobre homens, ela deve se cansar de ver sempre as mesmas histórias sobre homens e mulheres brancas. Entende? A universalidade das histórias possui um limite, ela pode falar com todos num nível “espiritual”, mas quando todas as histórias são sobre pessoas diferentes de você, meio que fode o rolê.

Criar outros personagens não supre as vantagens que os personagens como Thor e Capitão América, assim como os outros já citados antes, dão para a representação do padrão cis, hetero e branco. São personagens que estão inseridos na nossa cultura tão a fundo que mesmo se você não lê quadrinhos você sabe que eles existem. São ícones dos quadrinhos de super-heróis e por mais que um outro personagem seja criado, por mais que um novo super-herói que não se enquadre neste padrão inventado há tantos anos, faça um sucesso estrondoso, eles nunca serão substituídos. Eles possuem um lugar cativo no imaginário cultural e, apesar disso, representam uma parcela muito pequena de uma sociedade incrivelmente plural. Por isso, quando um deles muda de gênero, orientação sexual ou etnia é tão importante e tão forte.

Cada vez mais me fica claro que a grande dificuldade do mundo é o branco perder o privilégio. Na verdade, não é perder, é dividir. É aceitar que se você pode esperar que o seu amigo de etnia/sexo/gênero/orientação sexual diferente se identifique com um personagem que é diferente dele, você também deveria ser capaz de se conectar com o mesmo personagem, apesar dele não ser mais uma cópia melhorada sua.

Particularmente eu tenho uma queda por mulheres chutando bundas, independente da etnia, se é hetero ou homo, se é cis ou trans. Eu ainda adoro o Super-Homem e suspiro pelo Gambit, mas quanto mais personagens femininas ganham espaço, mais eu me sinto novamente atraída aos quadrinhos de super-heróis. Thor agora ser mulher me fez pegar uma revista pela qual eu nunca tive interesse, apesar de ter assistido aos dois filmes e – não me julguem por isso – ter adorado os dois.

Fofura extrema via The Roarbots

Então, sei lá. Se pá é legal a gente olhar ao redor, notar quais são os nosso privilégios e ao invés de tentar achar desculpas para se prender a eles, abraçar os outros fanboys e fangirls que estão a nossa volta e curtir a vibe nerd da diversidade juntos. <3

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