Recentemente, nossas linhas do tempo no Facebook foram invadidas com a expressão “leitor sensível”. A expressão era até então desconhecida de grande parte da população – até mesmo para algumas pessoas envolvidas com literatura e escrita em geral. Após a publicação da reportagem “Editoras contratam ‘leitor sensível’ para evitar ofender as minorias”, surgiram muitos comentários muito equivocados sobre o assunto. Pularam na nossa frente falas que variavam entre comparações com inquisição e ditadura até acusações de que a presença do leitor sensível estava acabando com a literatura.

Basicamente, um leitor sensível é alguém que lerá uma obra a ser publicada e opinará sobre a construção de determinadas personagens e conflitos. Seu trabalho é dar uma consultoria que possibilite uma criação mais verossímil e menos pautada em estereótipos. Normalmente, um leitor sensível analisa personagens e conflitos que tenham a ver com suas vivências pessoais – ligadas a gênero, classe, etnia, situações delicadas, etc. É um serviço adicional no processo editorial. No Brasil ele ainda não é tão comum quanto em outros lugares do mundo. A ideia é que, passando pelo olhar de uma pessoa que conhece melhor o assunto, a obra tenda a ser construída com mais verdade. É possível ler mais sobre o assunto no blog de Alliah e em inglês nessa matéria do Slate.

Basicamente uma pessoa lendo sobre aquilo que ela entende melhor: ela própria.
(Arte: Richardd Curtner)

As editoras têm se interessado mais por esse tipo de serviço, mas não necessariamente por alguma consciência social, e sim por uma questão de mercado. É evidente que cada vez mais as pessoas não aceitam certos tipos de comentários ou representações midiáticas. A propaganda vem se adaptando para atender a esse consumidor e dramaturgia – tanto no cinema quanto na TV – tem colocado conflitos com maior representatividade. Quando se precisa vender, não se quer desagradar o público alvo e se o público alvo não quer mais ver os velhos clichês, vai se tentar outros caminhos para atendê-lo. Na reportagem que deu origem à discussão se falava sobre o leitor sensível ser uma estratégia para evitar boicotes.

Esse assunto tinha sumido, até que Washington Olivetto deu uma entrevista falando justamente aquelas opiniões do primeiro parágrafo: que o leitor sensível seria uma espécie de censor que tolheria a criatividade dos autores. E o assunto voltou a rodar pelas nossas linhas do tempo.

Já está autorizado reagir como a Mulan pra tudo na vida?

Para pensar um pouco mais sobre o assunto, falamos com a Carolina Gomes. Carolina é mulher, negra, roteirista, revisora e uma “leitora sensível informal”. Por conta de seu olhar sobre o mundo, suas leituras de obras literárias e cinematográficas sempre pontum questões tocantes à sua vivência e à construção e elaboração de personagens e situações que conhece bem. Carolina Gomes também é criadora do site Pretas Dramas junto com a cineasta Renata Martins e a psicóloga Viviane Angélica.

– Qual a sua experiência – profissional ou não – como leitora sensível?

Então, não é minha profissão. Pessoas próximas e amigos me mandam alguns textos e eu leio. Eu faço uma leitura ativa, é basicamente parte do meu processo de ler (e acabo fazendo isso também no meu trabalho como revisora).

– Você lembra quando foi a primeira vez que te pediram pra ler uma obra com esse propósito?

Nunca me pediram especificamente uma leitura sensível mas eu sempre levanto os pontos e abordo com a pessoa. É por isso que eu chamo de leitura ativa: Eu leio, destaco os trechos e devolvo para o escritor. Acho o processo interessante porque a troca é bastante intensa: o escritor, ao passar sua obra para uma leitura de outra pessoa, também está minimamente disposto a ouvir e refletir sobre isso. Pensando agora, eu leio desta forma quase sempre no dia a dia

– Pelo que você fala parece uma troca comum entre pessoas que trabalham com escrita pedir que outra pessoa leia para opinar.

Eu acho que sim. Tenho amigos que fazem isso com certa freqüência. Acho que isso acontece também porque ficamos tão imersos nas nossas escritas e por vezes não percebemos algumas questões, mesmo que não sejam sutis. Às vezes são gritantes e mesmo assim passam, acontece… E às vezes o escritor está falando de algo que domina pouco também. Há muito equívoco neste processo de escritura e lapidação das narrativas, mas isso só vai acontecer se o escritor estiver aberto ao diálogo e disposto a escutar a crítica

– Você acha que às vezes as pessoas têm uma superproteção com a própria obra, que deixa mais difícil ouvir críticas ou sugestões?

Exatamente, isso acontece. Eu leio obras de amigos homens e a coisa às vezes fica estranha quando falo da representação de mulheres. Sempre dá pano pra manga…

– Eu vi muita gente dizendo que submeter sua obra a um leitor sensível é uma espécie de censura.

Também vi este tipo de comentário mas acho estranho. A obra vai ser filmada ou publicada, então o que se espera? Que tenha público. E tendo um público, teremos críticas, positivas ou não. Não conheço obras isentas deste processo. E também tem uma outra coisa que acho complicado no processo é o limite entre leitor sensível e coautor. Porque às vezes o problema é tão estrutural que não é um acerto puro e simples, é uma mudança de rota, praticamente. E eu também falo: não acredito em leitura isenta. Porque eu sou uma mulher e, se leio sobre mulheres, tenho uma visão sobre isso. O mesmo sobre questões de raça, classe social; então sempre falo: não será uma leitura isenta e nem é essa a minha pegada.

– Foi até bom você falar sobre filmes, porque nessas discussões eu não ouvi falarem sobre essa análise em roteiros. Você vê isso rolando em cinema também?

Eu leio roteiros e acho que tem rolado uma preocupação com isso também e sei de amigos do meio que passam os roteiros para serem lidos com este intuito.

– Você acha que existe limite para a liberdade de expressão na literatura?

Não tenho uma resposta pronta pra esta questão de limites. O que eu acho é que estamos passando por um momento em que mais e mais pessoas consomem as obras com um viés mais crítico. Se o autor não é sensível ao momento em que vive e à sociedade em que está inserido, bem… Ele continuará fazendo o trabalho como sempre fez.

– Você acha que tende a se tornar uma prática mais comum no Brasil, assim como é no exterior?

Acho que sim, espero que cresça ainda mais. Isso mostra maturidade no mercado e até mais profissionalismo. Quem se preocupa em construir narrativas mais plurais e diversas vai fazer isso. Quem não liga vai tocar a vida e as narrativas como sempre.

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