Vamos com calma aqui. É sempre difícil falar sobre as coisas que você ama e Noites de Cabíria (Federico Fellini, 1957) foi O Melhor Filme Que Eu Já Vi Na Vida durante um bom tempo. Do tipo que eu não preciso nem ir ali no Imdb procurar informações sobre ano de estréia, elenco e etc., porque eu sei tudo de cabeça. Pois é, esse tipo de obsessão que beira o não-saudável.

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te amo, cara, te amo

Não vou tentar fazer uma resenha normal — ou uma análise, como fiz antes com Céline and Julie Go Boating —, mas simplesmente explicar o motivo da história da Cabíria ter me impressionado tanto, num determinada época e, quem sabe, aumentar um pouco o número de fãs do filme (que já não é pequeno). Dito isto, me reservo o direito de ser extremamente pessoal na minha interpretação.

Em termos de narrativa, Noites de Cabíria é bastante linear, quase “quadrado”. A história é simples: Cabíria (Giulietta Masina) é uma jovem prostituta que busca um grande amor, de maneira quase obsessiva — um amor que salva, que redime — nos lugares errados. O spoiler (get over it, o filme é mais velho que a sua mãe): ela não o encontra, porque ele não existe. Ainda assim, seria extremamente simplista e errado dizer que se trata de um filme pessimista. Vamos lá.

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bora?

Fellini abre a saga de sua heroína com uma cena que dá o tom para o resto do filme: Cabíria e seu namorado, Giorgio, se abraçam e se beijam, em êxtase, em um campo na periferia de Roma, até que ele a empurra para dentro de um rio e foge com sua bolsa. Essa sequência de expectativa e frustração se repetirá mais de uma vez ao decorrer da narrativa, tornando-se progressivamente mais pesada, mais custosa para a personagem.

Nesta primeira sequência, sua reação é a da negação. Após ser salva por um grupo de garotos que brincava próximo ao rio, ela se enfurece e volta para casa, uma sandália no pé e a outra na mão. Quando Wanda, sua vizinha (e, muitas vezes, confidente/voz da consciência, ainda que esta consciência seja pouco mais sábia do que Cabíria) lhe pergunta o que aconteceu, Cabíria diz que caiu no rio e que Giorgio, assustado, fugiu para buscar ajuda. Quando ele não volta, como esperado, ela queima suas roupas e volta à sua “antiga” vida, mais presente do que nunca: a calçada. Ao chegar lá e encontrar suas velhas “amigas”, ela é recebida com gargalhadas e zombaria: “onde está seu Giorgio, Cabíria? Fugiu?”, denotando que aquela não é a sua primeira grande decepção amorosa.

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segurando essa barra que é gostar de você

A segunda decepção vem encarnada em Alberto Lazzari, celebre ator que Cabíria encontra na Via Veneto. Após presenciar uma discussão entre ele e sua esposa, Cabíria é convidada a acompanhá-lo. De início receosa, ela aceita entrar no carro luxuoso e se deixar levar. Ambos chegam à mansão, conversam, bebem champagne e ela até mesmo ganha dele uma foto autografada. Porém, esta é a Cabíria, e seu destino já foi traçado. A namorada de Alberto Lazzari volta a aparecer, e apesar da recusa deve em vê-la, Lazzari termina por trancar Cabíria no banheiro e fazer as pazes com a namorada.

Na manhã seguinte, ele abre a porta delicadamente, encontrando Cabíria sonolenta, ao lado do vaso. Ele lhe oferece algumas notas e pede que ela se vá em silêncio, mas antes de sair do quarto, Cabíria vê a namorada, deitada na cama, pura e amada. A cama de um homem como Lazzari não é para as prostitutas de classe baixa como ela, mas para as mulheres belas e refinadas. Cabíria, não tem a legitimidade suficiente para ocupar aquele lugar de namorada, de esposa. Cabíria dorme no banheiro, com os cães, e se vai discretamente, escondida, envergonhada. Impotente diante da legitimidade brutal da outra mulher.

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Mais uma vez, Cabíria volta à calçada. Sua trajetória não vai além desse ciclo, como a de qualquer prostituta — pode-se ir muito longe, pode-se tentar escapar, mas o ponto de partida continua sendo o ponto de chegada. Isto fica claro na cena seguinte onde uma procissão passa pela avenida onde Cabíria e suas colegas esperam clientes. Ela tenta se juntar à procissão, acreditando-se pecadora às portas da redenção, enquanto suas amigas zombam. Cabíria, como qualquer um, crê que a culpa é dela. Mais de uma vez no filme ela repete que quer “deixar esta vida”, como se a mudança de profissão significasse uma automática mudança de vida que resolvesse tudo. Ao aproximar-se, porém, da procissão, um carro pára, e ela entra.

A cena seguinte é uma pequena ruptura na história de Cabíria. Voltando para casa, no meio da madrugada, sozinha, ela encontra um homem que leva comida e roupas a pessoas vivendo em grotas no campo. Cabíria o acompanha e observa seu trabalho, maravilhada.

Por que você faz isso?, ela pergunta.

Ele não tem uma resposta precisa, diz apenas que é preciso que alguém o faça.

Ele lhe oferece uma carona de volta à Roma e, ao descer, Cabíria agradece. Mais do que pela carona, mas pela nova esperança adquirida.

Tal esperança faz com que Cabíria acompanhe seus colegas a uma igreja, onde uma multidão imensa de desesperados pede milagres a Nossa Senhora. É uma grande comoção que acontece. Todos ali desejam algo, todos ali precisam de ajuda, de consolo, de respostas, e em uníssono, eles pedem. Um dos acompanhantes de Cabíria (deduz-se que seja um cafetão), de muletas, pede para que seja curado, mas a graça não é alcançada. A resposta: falta-lhe fé. Uma vez mais o indivíduo é esmagado pelo peso de sua própria culpa. Não há redenção possível para aquele que se sabe culpado, e Cabíria sabe disso. Ao sair da igreja, durante um piquenique, ela vê outra procissão. Ao invés de demonstrar a fé e emoção da cena na igreja, ela se põe a gritar, insultando aqueles que crêem, aqueles que receberão o que pedem. “Nós não mudamos nada”, ela chora, “nada mudou”.

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O terceiro ato começa com Cabíria entrando, por acaso (mas um acaso extremamente calculado), em um teatro de variedades. Lá, um mágico apresenta suas capacidades de hipnose, e após hipnotizar um bando de homens, chama Cabíria ao palco. Ela se recusa, mas vai, ainda que adotando uma postura defensiva. Não quer participar, não quer se envolver. Mais do que tudo, não quer mostrar nenhuma vulnerabilidade, pois ela conhece bem o preço dessa revelação: todas as vezes em que ousou tirar sua armadura, algo foi-lhe arrancado — algo, que fique claro, que ela doaria gratuitamente. Assim, é com muita resistência que ela se deixa hipnotizar.

O mágico descreve uma cena onde Cabíria, aos 18 anos, caminha por um campo, colhendo flores, usando inclusive uma coroa de flores na cabeça. Em sua fantasia ela é a imagem própria da pureza, uma pureza tão mais preciosa porque prestes a ser perdida. Até mesmo seu nome muda: ela volta a ser Maria Ceccarelli, ainda intacta antes da vida de Cabíria. Nesta fantasia, um homem chamado Oscar aparece, oferecendo a ela o amor verdadeiro que tanto procura. Cabíria aceita.

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Você me ama de verdade? Não está mentindo?, ela pergunta, segurando a mão invisível do Oscar imaginário, no meio do palco.

O mágico percebe ter ido longe demais, sente pena dela, e a chama de volta à realidade. Ao acordar, Cabíria se vê nua diante do público, que ri e zomba dela. Apenas desta vez, a revelação de um segredo se paga: na saída do teatro, um homem chamado Oscar a espera.

Embora receosa, Cabíria inicia com ele um relacionamento e se vê finalmente feliz. Ele não recua nem mesmo quando ela lhe conta sobre a vergonha de sua profissão, sobre as dificuldades que passou e todo o seu sofrimento. Oscar, assim como o Oscar imaginário, é concreto: ele fica, e a pede em casamento. Junto com sua antiga vida, Cabíria se desfaz de todas as suas posses: a pequena casa é vendida, junto com os móveis e roupas. Cabíria é um inseto que se desfaz de seu pesado exoesqueleto (sua armadura, aliás), para entrar renovada e pura em um mundo todo novo que até agora lhe era proibido.

Sua felicidade dura pouco. Oscar a convida para um passeio em um bosque que ela aceita alegremente, andando encantada por entre as árvores, segurando-lhe a mão. À beira de um pequeno precipício, Cabíria admira o pôr do sol.

“A vida é bela, no fim das contas”, ela diz. Aquilo, ela sente, é a própria justiça, a redenção após o martírio.

Mas Oscar se mantém calado. E, de fato, ele não precisa dizer nada — já vimos o bastante para saber o que acontece e, apesar de uma breve janela de esperança, reconhecemos imediatamente a derrota de Cabíria, e ela também. Desta vez, ele não precisa empurrá-la para dentro de um rio ou precipício para arrancar dela o dinheiro que deseja. Ela sabe, e entrega a ele tudo o que tem. Ele pega a bolsa e foge, acovardado, e Cabíria é deixada uma vez mais sozinha, cansada de querer tanto e não receber nunca, cansada de viver uma vida que é sempre a mesma vida, indiferente a suas tentativas de mudança.

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nem vou mencionar que eu choro nessa parte toda. vez.

A contragosto, Cabíria sobrevive. Quando a noite cai ela se levanta e caminha pelo bosque escuro até encontrar uma estrada onde um grupo de artistas canta, dança e ri. Progressivamente, ela se deixa envolver pela música e pelos sorrisos, e encontra o que Fellini chamou de “uma graça”. Este é a hora do êxtase de Noites de Cabíria, o momento preciso em que ela percebe que não há necessidade alguma de se redimir. A “graça” não é o que ela quer, mas o que ela precisa. Não é o amor de um homem que a salva, mas a realização da existência de um amor incorpóreo, onipresente, sempre à disposição. Sua sensação de ilegitimidade, seu complexo de inferioridade e sua culpa desaparecem quando Cabíria encontra Cabíria, no meio da estrada, completamente desprotegida.

O sorriso final, ornamentado por uma lágrima negra, é simbólico de um crescimento que se faz pela dor, mas que compensa. A metáfora do exoesqueleto serve agora mais do que nunca. O sofrimento passado prova não ter sido em vão, e enfim o milagre tão aguardado acontece, no último momento, como na história um santo.

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A história de Cabíria é simples, mas é a simbologia por trás da narrativa que faz com que ela seja um dos Melhores Filmes Que Eu Já Vi Na Minha Vida. Cabíria não é apenas uma mulher solitária desesperada para encontrar o amor, mas uma figura trágica que procura um sentido para o próprio sofrimento. Dessa forma, ela deixa de ser um indivíduo (e mais: mulher, pobre e prostituta — praticamente a antítese do indivíduo universalista) para representar a humanidade inteira em sua luta para encontrar respostas.

E isso é muita coisa.

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