Dirigido por James Watkins, Shut Up and Dance (Cala a Boca e Dança) conta a história de Kenny (Alex Lawther), um rapaz de 19 anos que vive sua vida sem maiores problemas. Quando sua irmã usa seu computador e acaba baixando programas estranhos, Kenny começa a ser espionado por hackers. Ele é gravado pela própria webcam enquanto se masturba e agora esses hackers estão ameaçando Kenny, dizendo que vão espalhar seu vídeo caso ele não faça exatamente o que eles querem.

A história desse episódio poderia acontecer hoje ou amanhã. Conhecemos todas as tecnologias mostradas e ser gravado pela webcam sem querer não parece tão impossível. Normalmente esses episódios causam um grande impacto no público. Shup Up and Dance nos faz refletir sobre até onde somos capazes de ir para esconder um segredo nosso, como podemos ser manipulados com o medo de sermos expostos.

Devo assistir? O episódio fica com um tom mais pesado no final. Já vi muitas pessoas dizerem que esse é um dos episódios mais chocantes. Ele de fato choca, mas não tem um clima pesado como Playtest, mesmo que a sensação de tensão dure o episódio todo. De qualquer forma, vale avisar que há menções de prostituição, racismo e pedofilia. Nenhuma dessas coisas aparece na tela, não tem nada gráfico, mas os personagens mencionam esses assuntos em certos momentos.

O texto contém spoilers.

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Quando vi as reações dos episódios da terceira temporada, Shut Up and Dance parecia ser o mais chocante. De fato, ele provavelmente é o episódio que tem uma das maiores reviravoltas, assistindo de novo dá para perceber as pistas que indicavam a construção desse final. Apesar disso, achei que o episódio se estendeu e até enrolou em certas partes, deixando certos momentos cansativos. Isso, na verdade, é um mal que afeta todos os episódios da terceira temporada, mas no caso de Shut Up and Dance essa falha fica mais evidente.

Kenny se vê numa situação muito ruim: Precisa obedecer pessoas que ele nem sabe quem são ou será exposto. Ao longo do episódio vamos percebendo que outras pessoas estão na mesma situação, Kenny não sabe quem elas são, só quer terminar o que precisa fazer de uma vez por todas e voltar para sua vida. É nesse contexto que é forçado a trabalhar junto com Hector (Jerome Flynn) para esconderem seus segredos.

No começo o formato “complete essa missão” funciona, mas depois de algum tempo vai ficando cansativo, a tensão se torna um “me conta logo o que vai acontecer”. Os dois atores principais conseguem carregar boa parte da história nas costas, um dos grandes méritos do episódio é exatamente as atuações, que conseguem carregar até os momentos do roteiro que ficam mais entediantes.

Até a metade do episódios nós compramos a situação. Hector sabe que vai perder os filhos se descobrirem seu crime e Kenny parece ser um jovem assustado com tudo o que está acontecendo. Quando os hackers mandam os dois assaltarem um banco, tudo parece ficar um pouco perdido. Faz sentido que Hector tente convencer Kenny a continuar, mas por que alguém se colocaria numa situação dessas por causa de um vídeo de masturbação? Não deve ser nada legal ter um vídeo desses seu na internet, mas caramba, compensa assaltar um banco? Não dava para procurar a polícia?

E se o episódio ainda não tinha te convencido que os hackers pediriam absurdos, o último desafio de Kenny é levar o dinheiro para um outro cara que está sendo chantageado também. Os hackers querem que os dois lutem até a morte, quem ganhar leva o dinheiro. Por mais chocante e absurda que a situação seja, por que raios alguém faria isso? Só por diversão? O segredo de Hector era algo ilegal, assim como o do cara do final, que era um pedófilo, mas e o pobre do Kenny que só tinha se masturbado sem saber que estava sendo observado?

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Mas não tem nada de “só” nessa história. Quando Kenny sai da sua luta machucado, mas vivo, começamos a ver que os hackers não cumpriram sua palavra, espalhando para todos os segredos que eles tinham daquelas pessoas. É esse momento que fez todo mundo ficar chocado. A mãe de Kenny liga para o filho, muito nervosa, gritando e chorando. Por que a mãe dele teria uma reação dessas? Bem, porque o filho dela estava se masturbando com fotos de crianças. Kenny também era um pedófilo e só descobrimos isso no final.

Shut Up and Dance é um episódio ótimo para falar de ponto de vista. O personagem colocado como principal geralmente será visto como “aquele que precisa vencer”. O jeito que você conta uma história e fala de um personagem pode mudar como o público o enxerga. Então, por esse lado, Shut Up and Dance é muito esperto, enganando todo mundo até o último momento, nos fazendo acreditar que Kenny era só um rapaz que tinha se masturbado em um momento ruim. Por isso o choque da revelação é tão grande, até porque o segredo dele é algo muito grave e explica as reações que o personagem teve ao longo do episódio, que antes pareciam exageradas. De repente, começamos a achar que os hackers não eram exatamente os vilões.

Esse episódio me lembrou muito White Bear, que ainda é um dos meus preferidos da série. O problema é que, tirando o choque do final e as atuações, Shut Up and Dance não se sustenta muito bem sozinho. O episódio choca, mas parece que para por aí. O grande trunfo é a surpresa final, o jeito que o roteiro manipula o público, mas parece que falta alguma coisa. Black Mirror é incrível por ter mensagens e interpretações por trás de todo o episódio, não só o choque ou o desconforto gratuito. White Bear funciona porque fala sobre crueldade, entre outras coisas, mas Shut Up and Dance parece ser mais “cuidado com os hackers”, o que é muito raso para o nível da série (ou não, já que os hackers aparentemente só vão atrás de pessoas que fazem coisas graves).

É interessante pensar no poder da manipulação, de como a vergonha é uma das armas mais fortes para isso. Até onde você iria para esconder o seu maior segredo? Esses questionamentos do episódio são muito interessantes e perturbadores, mas parece pouco perto da construção que o episódio tentou fazer daquela situação toda. Além disso, alguns momentos até o final fazem com que percamos um pouco do interesse. Aqui é meio que o oposto de Playtest: Enquanto o segundo episódio construiu bem até o final e deixou a desejar na conclusão, Shut Up and Dance manca um pouco até um final bom.

O episódio não é ruim, não mesmo, é interessante e agradou muitas pessoas. A história consegue esconder sua revelação até o momento final, o que é um ponto muito positivo. O problema é que falta o aspecto Black Mirror, a profundidade na história que Shut Up and Dance pareceu deixar um pouco de lado para apostar em um final chocante. Por isso, para mim, esse é o episódio mais fraco da temporada. Não é ruim, para mim todos os episódios foram bons, mas se for para fazer uma lista de preferência, na minha esse fica por último.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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