Primeiro, aviso desde já que se você ainda não viu o filme, esse texto possui spoilers. Mas faz 24 anos, galerinha. Acho que esse spoiler já prescreveu. 😉

sexo-mentiras-e-videotape

Caso você não esteja familiarizada Sexo, Mentiras e Videotape é o filme de estreia de Steven Soderbergh (Traffic, Onze/Doze/Treze Homens e um/outro Segredo, Magic Mike, etc), e o responsável por revitalizar a cena independente do cinema norte-americano no final dos anos oitenta. O filme conta a história de Ann, uma jovem e reprimida dona de casa que vive completamente alheia ao caso tórrido que seu marido, John, mantêm com sua irmã, Cynthia. Quando Graham, um excêntrico amigo de faculdade de John, aparece na casa dos dois, Ann começa a questionar seu relacionamento com o marido, com a irmã e com ela mesma.

Para começarmos, deixe-me dizer que Sexo, Mentiras e Videotape é, dentre todos os roteiros que li até hoje, um favorito. Leitura rápida, história instigante e – oh my! – personagens muito bem construídos!

Outra coisa importante de falar antes de prosseguirmos com os personagens é explicar como os tais videotapes funcionam. Graham grava fitas de mulheres desconhecidas falando sobre sexo e sobre suas experiências e desejos – é apenas assim que ele consegue ter prazer sexual. Ele só grava a mesma mulher uma única vez, e nunca mostra essas fitas para mais ninguém. Vou falar sobre ele e as fitas ao longo do texto.

andie-mcdowell-sex-lies-videotape-sundance-movie-photo-gc

Uma das razões para eu gostar tanto deste filme é a complexidade das personagens femininas. Desde o começo, você está completamente do lado de Ann (ou pelo menos foi assim comigo) e totalmente contrária à irmã má, Cynthia, que dorme com John, o marido da irmã. Ann, a pobre coitada e Cynthia, a vadia. À medida que a história progride, no entanto, você consegue ver os dois lados do relacionamento das irmãs; como Cynthia está constantemente sendo julgada por Ann, que está ao mesmo tempo tentando projetar-se ao extremo oposto da irmã. Para Ann tudo em Cynthia é sujo.

Esposa objeto de decoração.

A verdade é que Ann vê em Cynthia o ardor que ela própria tem, mas que luta para reprimir. John – que é borderline sociopata – vê a esposa unicamente como um objeto que ele sequer tenta entender: ela existe com o propósito único de atendê-lo na cama e no fogão, algo que ele diz já em seu primeiro diálogo no filme. Quando John não consegue sexo em Ann, ele se vira para Cynthia.

Do cabelo à camisa de botão. Tudo em Ann é preso, tudo é uma mentira perfeita.

Ann é vítima do machismo de John, mas é também vítima do machismo que ela reproduz ao reprimir-se não só sexualmente, como socialmente também. Ela está acostumada a ter o marido por perto, a aceitar tudo que ele diz e ordena, e quando Graham aparece, ela trava uma batalha para negar o sentimento de que esse estranho, de alguma maneira, tirou-lhe o chão. Mesmo em suas conversas com seu terapeuta, Ann tenta esconder o peso de Graham, dizendo que ele é um bom sujeito, sempre negando o que sente pelo invasor. Ann racionaliza toda palavra e movimento que faz – incluindo sua atração física por Graham. Ann precisa que Cynthia ameace essa conexão para que ela comece a lutar por quem ela realmente é.

cynthiaDo outro lado temos Cynthia, que se move pelas vidas dos outros personagens esfregando sua sexualidade bem resolvida na cara deles, sempre pontuando o quão chata e reprimida a vida da irmã é. Mas a verdade é que Cynthia inveja a vida de Ann – ela inveja não só a beleza da irmã, mas também o modo como as pessoas olham para Ann. Cynthia se aproxima de Graham por despeito à irmã, que tenta afastá-la dele não só por causa das fitas, mas porque Graham é a única pessoa com quem Ann realmente conecta em todos os níveis. Todas as vezes que Ann liga para Cynthia, mesmo que numa tentativa de se aproximar, Cynthia a afasta. Este é o mecanismo de defesa da personagem: Você não pode odiar alguém com quem você realmente se conecte.

O fato sobre Ann, Cynthia e mesmo Graham é que o arco desses personagens só está completo quando eles precisam lidar com as mentiras que contam a si próprios, quando essas mentiras e as mentiras que contam aos outros se quebram.

Cynthia a momentos de enxergar a sua mentira, a sua própria repressão.

A fita intoxica Cynthia. Ela só consegue se achar de verdade quando se dá conta de que ela não precisa de John. Assim que ela o expulsa, ela vê que não está vivendo a sua própria vida, mas tentando viver a de sua irmã. Quando ela fecha a porta na cara de John (depois que ele bate nela) e chora, é o momento em que a personagem realmente encara as decisões que tomou até então, tornando o seu último momento no filme, quando ela rejeita um homem no bar, tão mais forte. Não é sobre o que o homem quer ou sobre os problemas dele, é sobre ela não precisar nem querer ele. A vida dela é sobre ela.

Esse relacionamento conturbado entre as duas irmãs é também reflexo do machismo que as duas enfrentaram durante toda a vida, essa comparação de quem é mais bonita, mais adequada, qual das duas é a melhor irmã. É aquela boa e velha mania da sociedade de colocar mulher contra mulher, uma competição que parece inata a muitos, mas que na verdade é construída desde muito cedo. A medida em que as duas conseguem se libertar do machismo que não só congela Ann, mas força Cynthia à combustão, as duas parecem conseguir entender uma a outra melhor, com o final do filme deixando uma possibilidade de aproximação aberta.

graham

Por todo o roteiro, Graham é o único personagem em quem você confia. E é um sentimento complicado, ele é completamente estranho e um pouco assustador, mas mesmo assim você acredita na honestidade nele. Só que Graham é, talvez, a maior mentira de todo o filme. “Mentiras são ruins” é quase o lema do personagem, e ainda assim ele tem vivido sua vida como uma grande farsa pelos últimos nove anos. Ele se esconde em uma bolha de auto-compreensão artística que só se quebra quando Ann vira a câmera para ele. O homem que falava sem problema nenhum sobre sua impotência fica sob o foco da câmera e têm a verdade que ele tanto venera forçada para fora dele. É um momento tão catártico, que ele não tenta segurar a vontade de beijar Ann num primeiro momento, mas acaba assustado por esse desejo. Graham fica realmente livre de todas as suas mentiras quando Ann entra em seu apartamento na última cena.

ann-camera

Ann vive uma mentira que é uma verdade para tantas mulheres: ela não ama o homem com quem está casada, não o deseja, e finge ter uma vida completa e feliz, aceitando que aquele é seu destino. Ainda assim, Ann têm urgências e perguntas que ela esconde ao tentar resolver a fome na África, ao se preocupar com o destino das toneladas de lixo e sua mania bastante metódica de limpeza. São mais do que tentativas de minimizar os seus problemas, são projeções de sua personalidade e sexualidade reprimidas.

Ela odeia Cynthia porque nunca vai conseguir se permitir ser como a irmã, classificando a sexualidade de Cynthia como sem sentido e estúpida. Mas quando Ann conhece Graham, a seus olhos um homem estranho mas sincero, algo dentro dela entra em colapso – ela não fica só curiosa pelo estilo de vida que ele leva, Ann fica intrigada pelo modo como ele se comporta e com o efeito que ele causa nela mesma. Aos poucos, as coisas que Graham diz e faz – como as fitas – abrem a mente de Ann, que passa a ver além do que acredita ser certo e errado, permitindo que comece a vislumbrar quem ela é e o que ela quer. Ann sente essa pequena liberdade que conseguiu com Graham ameaçada pelo interesse repentino de Cynthia em Graham e, assim que descobre o caso entre John e a irmã, Ann está pronta para ser gravada por Graham, para dizer-lhe a verdade. Ela o faz não só porque deseja Graham ou porque quer que ele a deseje de volta, mas também porque precisa e quer enfrentar ela mesma a sua própria mentira, livrar-se da máscara que a vinha sufocando. Ao virar a câmera na direção de Graham, Ann não está apenas livre: agora ela não vive mais entre as mentiras que a dominaram por toda sua vida. É um ato de independência dela mesma.

sexliesnadvideo Muito no filme pode parecer homexplicação, quando um homem aparece e explica para as mulheres sobre como elas estão erradas/certas/loucas, mas a complexidade de todos os seus personagens, femininos e masculinos, e principalmente a construção de Ann e sua trajetória pelo filme cortam essa sensação. As histórias de Anne Graham estão sim entrelaçadas, eles são de algum modo o casal romântico do filme, mas não há um peso de quem é maior/melhor do que o outro. São dois fodidos caminhando juntos e conturbadamente para o momento em que realmente conseguiram superar suas amarras.

O que une a transformação de todos esses personagens é a relação deles mesmos com a câmera. Cynthia se liberta de John ao ser filmada por Graham. Graham confronta seus medos quando Ann passa a filmá-lo e Ann, que primeiro desprezava as fitas, ao se permitir ser filmada dá um passo importante para se libertar de seu próprio julgamento. É a honestidade e a falta de julgamento da câmera que permitem aos personagens se livrarem de suas máscaras, enfrentarem as mentiras que eles mesmo fabricaram, mostrando a verdade de suas vidas com a mesma honestidade com que o roteiro nos mostra a geração que ele representa.

%d blogueiros gostam disto: