Dirigido por Owen Harris, San Junipero é o episódio que mais se destaca nessa temporada, por inúmeros motivos. A história começa com Yorkie (Mackenzie Davis) em um lugar chamado San Junipero na década de 80, em que há festas por todos os lados e pessoas querendo se divertir. Ela conhece Kelly (Gugu Mbatha-Raw), outra viajante em San Junipero, que aparentemente está bem mais confortável naquele lugar do que Yorkie. As duas começam a se aproximar e acabam tendo um caso que vai mudar muita coisa.

San Junipero é muito diferente do que esperamos. O episódio ainda tem muitos aspectos de Black Mirror, mas é quase que um respiro depois de vários episódios com mensagens mais pesadas. Mesmo com um tom mais “leve”, San Junipero levanta inúmeros questionamentos sobre o que é estar vivo e o que é verdade ou não dentro do virtual. O episódio faz isso construindo duas personagens muito interessantes e uma relação linda entre elas.

Devo assistir? Sim! Eu diria que San Junipero, além de ser um episódio ótimo, é provavelmente o mais seguro. Ele tem sim vários momentos melancólicos característicos da série, mas talvez seja o episódio indicado para as pessoas que acham Black Mirror muito pesada. Não que esse não tenha uma boa carga emocional, mas… Só assiste!

O texto contém spoilers.

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San Junipero foi uma bela surpresa. Depois de momentos tristes, impactantes e até assustadores, o quarto episódio parece quase a esperança no fim do túnel. Não só é um episódio muito bem feito, mas também ele não acaba com aquela sensação de “a humanidade é terrível” que muitos dos outros passam. San Junipero é bem construído do começo ao fim e tem representatividade em vários sentidos. O diretor desse episódio também dirigiu Be Right Back, um dos episódios mais emocionantes da época antes do Netflix, então isso explica porque San Junipero conseguiu emocionar tantas pessoas. Sim, eu chorei muito.

Yorkie sempre parece um pouco fora de lugar em San Junipero. Mesmo sendo óbvio a atração que ela sente por Kelly, Yorkie tem muito receio de demonstrar qualquer coisa. Dá para entender, considerando que o ano é 1987. Você pode começar esse episódio estranhando o fato dele ser no passado, mas calma, Black Mirror amarra as pontas muito bem nesse episódio e logo entendemos como o tempo funciona aqui.

Na semana seguinte, Yorkie resolve que quer sim ficar com Kelly e as duas ficam juntas. Nessa noite, Kelly revela que é bissexual e, por algum tempo, eu fiquei com medo de Black Mirror fazer uma besteira. A impressão que a personagem passava até agora era de “eu pego todo mundo”, o que não tem nenhum problema, mas pode fortalecer um estereótipo de bissexual promíscuo. Para a minha felicidade, San Junipero constrói tão bem as duas principais que Kelly fica longe de ser um estereótipo.

Nesse momento começamos a perceber alguns detalhes, como “Uma semana depois” sempre repetindo e elas falando sobre como o tempo está acabando um pouco antes da meia noite. Já sabemos que tem mais nesse mundo do que podemos ver. Isso fica mais na cara quando Kelly some e Yorkie tenta procurá-la “passando por outras épocas”. Aí temos a confirmação de que não estamos realmente na década de 80, já que Yorkie vai atravessando outras décadas até encontrar Kelly nos anos 2000.

Esse é aquele momento da história de romance que as duas pessoas se encontram, falam sobre seu sentimentos e começam a se entender mais. O diálogo e a relação delas é construída de tal forma que essas cenas fluem muito bem, até para quem não é fã desse gênero. Ao mesmo tempo em que a história move os personagens, ela vai situando o público no que está acontecendo, e faz isso muito bem. Descobrimos que San Junipero é uma espécie de realidade virtual numa nuvem e as pessoas lá não necessariamente são daquele jeito na vida real. Por mais que Kelly tenha sido a pessoa que tentou fugir do relacionamento porque “não quero me apegar”, é ela que convence Yorkie a se encontrarem fora dali.

Finalmente vemos o mundo fora de San Junipero. Kelly está com câncer e tem apenas alguns meses de vida, mas mesmo assim vai encontrar Yorkie. Então descobrimos que a protagonista é tetraplégica e precisa ficar constantemente no hospital para sobreviver. Yorkie também já tinha mencionado que estava noiva de um homem chamado Greg, que agora descobrimos que é um funcionário do hospital. O roteiro é tão bem feito que até nessa cena, o momento de maior exposição do episódio, o diálogo flui muito bem. Yorkie contou para os pais que era lésbica quando tinha 21 anos, mas por não ser aceita por sua família, saiu dirigindo de casa e acabou sofrendo o acidente que a colocou no hospital. Ela quer se submeter à eutanásia, mas sua família é conservadora e não quer assinar os papéis, então Greg concordou em se casar com Yorkie para poder autorizar o procedimento.

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Agora já entendemos mais ou menos o que é San Junipero: uma realidade virtual numa nuvem para pessoas que estão perto da morte. Elas podem ficar 5h por semana em várias épocas diferentes. Há também a possibilidade de ficar lá permanentemente depois de morrer. Uma pessoa pode decidir que sua consciência seja transferida para San Junipero, onde poderá ficar para sempre, quase como uma vida eterna no paraíso. É isso que Yorkie quer.

Então, em uma das cenas mais bonitas do episódio, Kelly entra em San Junipero e pede Yorkie em casamento. Ela assina os papéis da eutanásia e Yorkie finalmente consegue o que quer. Quando Kelly volta para encontrá-la, elas acabam tendo uma discussão. Yorkie quer que Kelly vá para San Junipero e aí conhecemos o outro lado da história. Kelly foi casada por quase 50 anos com o mesmo homem, inclusive tiveram uma filha que já morreu. O marido de Kelly não queria ir para San Junipero, preferiu ter uma morte “convencional” e Kelly sente que precisa fazer o mesmo.

No final das contas, Kelly decide que quer sim ficar em San Junipero com Yorkie. O marido dela resolveu o que era melhor para ele e Kelly tinha o mesmo direito. Ela tinha se apaixonado por Yorkie, que estava “ali” de certa forma, então decide ter sua consciência transferida para San Junipero depois de sua morte. Achei muito legal mostrar que Kelly era sim bissexual desde sempre, mesmo casada com um homem e que teve uma vida feliz. É importante mostrar essas representações, já que muitas pessoas são consideradas “bissexuais falsas” por terem relações com pessoas do gênero oposto.

Depois que terminei o episódio, fiquei me perguntando se essa não era só outra maneira de fazer o casal de mulheres sofrer. Sabe quando uma série ou filme coloca personagens LGBT+ só para mostrar eles sofrendo ou sendo mortos? Kelly teve uma vida feliz, mesmo que com vários momentos muito tristes, mas Yorkie passou por muita dificuldade. Ela não era aceita, ficou anos presa numa cama e acabou não vivendo muita coisa. Ela parece ter ficado realmente feliz só depois de ir para San Junipero, ou seja, no fim da vida e depois da morte. É amargo, mas o episódio passa uma sensação de felicidade no final. Elas estão juntas, estão felizes e aparentemente vão ficar assim para sempre. Black Mirror entregou um final com ar feliz, ou pelo menos o mais feliz que a série consegue ser, não há nenhuma cena que indique que aquilo pode ruir, o momento final mostra Yorkie e Kelly felizes juntas.

É óbvio que muito da interpretação do “final feliz” vai depender da pessoa, porque isso entra numa discussão sobre o que é a vida e a morte. Será que elas realmente existem e estão vivas naquela nuvem? Será que não é apenas uma enganação? E se for uma enganação, será que tem problema se para elas é tão real? O quão feliz alguém pode realmente ser em San Junipero? Isso fica para a interpretação de cada um, mas se pegarmos todos os episódios até agora, Yorkie e Kelly estão muito mais felizes do que qualquer um dos outros personagens até agora, aliás muita gente está considerando esse o único final feliz de Black Mirror.

O episódio vende a conclusão de San Junipero como feliz, o que nos leva para outra questão. É difícil encontrar boas representações LGBT+ na televisão, quando encontramos, o casal dificilmente consegue ficar feliz ou vivo. Casais LGBT+ infelizmente, como já falei, ainda ficam com a parte trágica. Black Mirror é uma série com um tom pessimista, mas no episódio que mostrou uma mulher lésbica junto com uma mulher negra bissexual, a série mudou o tom e apresentou o episódio mais feliz até agora. Sim, elas morrem, mas aqui isso é apresentado mais como libertação do que qualquer outra coisa, sem contar que para muitos isso pode ser interpretado como uma vida eterna. É uma coisa para pensar, né? Justo Black Mirror, uma série conhecida por ser trágica e deprimente, dá o único final que pode ser considerado feliz para o casal LGBT+. Não custa nada tentar melhorar a representatividade e fugir dos estereótipos, mas tá faltando diretores, roteiristas e produtores nas grandes produções dispostos a pensar um pouco mais nesse assunto. Vocês não tem mais desculpa (se é que algum dia tiveram).

San Junipero, para mim, é o melhor episódio da temporada. O roteiro é bem construído, o mundo é apresentado de forma fluida e as personagens principais, além de serem representações legais, possuem arcos muito bem feitos. É um episódio que te faz pensar, questionar sua percepção de vida e morte, mas ao mesmo tempo também te emociona e te faz se perguntar se seria legal ou não viver em San Junipero. Ao mesmo tempo que tem toda a pegada Black Mirror da tecnologia e da reflexão, também apresenta um dos únicos finais que pode ser considerado feliz. Sério, San Junipero é ótimo e pode até agradar aqueles que não são fãs da série.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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