Autora convidada: Jéssica Fabrícia.

Texto originalmente publicado no Medium.

Hoje em dia é difícil encontrar alguém que não tenha ouvido falar de Rupaul’s Drag Race ou visto memes de drag queens bombando aos montes nas timelines. Todavia, para os que não sabem, trata-se de um programa estadunidense para escolher a próxima drag queen dos EUA, formato televisivo bem parecido com America’s Next Top Model. Quem comanda o reality é Rupaul, uma das drag queen mais famosa do mundo.

Para quem assistiu e acompanhou todas as sete , teve a oportunidade de conhecer um pouco das dificuldades que muitos participantes passaram, como ser abandonado na rua pela mãe, ser preso, conviver com gangues, passar fome e apanhar da família que não aceitava sua sexualidade. Enfim, o programa se mostra bastante importante para aflorar a empatia por aqueles diferentes de nós.

Entretanto, nesse ano, durante uma prova da oitava temporada, muitas pessoas começaram a se questionar sobre o racismo presente na atração. A prova consistia em criar um diálogo baseado na série Empire, que por sua vez tem como enredo o cenário musical do rap americano, contando com todos os personagens principais sendo representados por negros. Formaram-se dois grupos, um com três drags negras e o outro sem nenhuma. Resultado: apesar de ter tido seus altos e baixos, a atuação beirou o superficial, com demonstrações bem caricatas dos negros americanos.

Kim Chi, Acid Betty, Derrick Barry, Thorgy Thor e Naysha Lopez: creio que a encenação foi tão ruim que não consegui encontrar uma imagem em boa qualidade…

É bom deixar claro desde já que essa observação não é uma tentativa de acusar as queens, já que elas tinham que encenar e dar seu melhor para conseguirem o tão sonhado título. Bom, então de quem é a culpa?

Rupaul.

É. Já que o próprio já disse que o programa é dele e as regras são dele e ele faz o que bem entender, logo o problema nasce com ele, a começar pela edição do reality. As drags negras são sempre retratadas de maneira superficial: sempre as mesma facetas, sempre as mesmas piadas, sempre as mesmas falas escolhidas, que muitas vezes são shades e que fazem com que o público as considerem ruins — no sentido de mal acabadas ou de pessoas más, feias e desmerecedoras do posto que conquistaram. Isso aconteceu com BeBe Zahara Benet, lá na primeira temporada, e está acontecendo agora com Naomi Smalls, Chi Chi DeVayne e Bob The Drag Queen.

Kat Blaque, youtuber americana, em seu vídeo Is Rupaul’s Drag Race Racist?explicita bem esse posicionamento:

“E infelizmente, quando você é negro e você está em um reality da TV, de qualquer gênero, você é editado a ser a vadia mais rude da casa. Você é só rude, toda brava, atrevida, sabichona, que não aceita merda de ninguém.”

Ru não peca apenas no quesito edição, mas também no posicionamento. Parece haver um medo, por parte dele, de se colocar como negro e repreender as queens durante e fora do programa:

1) Phi Phi O’hara e a não-piada com empregadas domésticas.

Na quarta temporada houve uma prova em que as participantes deveriam criar uma campanha política e defendê-la. Na ocasião, ainda participaram da competição duas das quatro queens negras daquela temporada.

Phi Phi, ao centro, rindo da cara de todos porque sabe que não vai ser expulsa por uma “piadinha”.

Phi Phi achou que seria bacana e engraçado falar que Latrice e Dida seriam suas serviçais, caso ganhasse as eleições. O mais engraçado desse episódio é que Phi Phi só foi repreendida de forma muito branda sobre como e quando fazer piadas que envolvam raça — o que, para mim, não devem ser feitas nunca — e as queens que foram para o bottom two eram as únicas negras do programa.

Uma negra foi embora do programa naquele dia e uma racista continuou e chegou até a final. Rupaul poderia ter intervido, mas preferiu permanecer no mesmo espaço “neutro” de sempre, pois sabemos que quem opta por isso, acaba, mesmo sem querer, endossando a fala do opressor.

2) Sharon Needles e o seu problema com a palavra nigger.

Sharon acredita que uma palavra é apenas uma palavra e que usá-la não machuca e não faz mal a ninguém. Needles só se esqueceu de que vivemos em sociedade e usamos a linguagem para nos comunicar. Dessa forma, as palavras recebem significados a partir do meio em que estão inseridas e, assim, podem ofender. É só pensarmos, por exemplo, em “bicha”. Se usada em um contexto de comunidade LGBT não afetará ninguém; se usada por Jair Bolsonaro terá um significado totalmente diverso do primeiro.

Partindo disso, a queen acredita que pode usar a torto e a direito nigger para se dirigir aos fãs. Só que nigger significa preto e é utilizado pelos racistas americanos para se referir de forma pejorativa aos negros.

“Me chame de preto na minha cara” e “Racistas: sashay away!”.

 

“Preto é o novo preto. Amo você preto”. Só que não.

E para piorar, Sharon já fez blackface e já se fantasiou de nazista.

Sim. É a Sharon.

Também é a Sharon.

Sharon de Ru Paul

Sharon sendo Sharon.

Rupaul sempre fala que é como uma mãe da grande família drag race e sempre ajuda suas queens. Cadê o Ru nessas horas para avisar a ganhadora da quarta temporada que o que ela está fazendo é feio, muito feio?

3) Chi Chi DeVayne e a sua suposta simplicidade.

Chi Chi é uma das participantes mais fortes da oitava temporada. Por quê? Porque ela basicamente não tem dinheiro nenhum. A queen trabalha em dois empregos e nas horas vagas faz sua arte para complementar a renda. Logo, é óbvio que as roupas dela, comparando com das outras participantes, não serão tão glamorosas ou de marcas de luxo.

A Queen foi chamada de petulante e convencida por Visage e Ru ao tentar explicar o porquê não estava tão glamorosa quanto suas concorrentes.

DeVayne é sempre lembrada por Michelle Visage que suas roupas são simples e que não há desculpa para isso, pois há brechós aos montes e é só ela comprar roupa barata. Aparentemente é difícil para uma pessoa branca e rica entender o que é ter que trabalhar em dois empregos para comprar comida, e não roupas. Prioridades, não é?

Créditos na imagem.

Se, ainda assim não parece que se trata de uma questão de raça e classe, no Meet The Queens com associação de palavras, quando foi dito a palavra DRAG, Chi Chi não hesitou em responder MONEY (dinheiro). Drag para ela não é apenas arte, é sustento.

O racismo pungente de nossa sociedade se mostra de maneira brutal quando o anfitrião do reality não se posiciona, abrindo margem para o fandom do programa começar a atacar as queens negras.

Confuso? É só trazer para o cenário nacional para essa questão ser entendida melhor: BBB16 e Ana Paula — mulher branca e barraqueira, que não aceitava nenhum desaforo, chocou todo mundo ao dizer que era machista e gostava de ser sustentada pelo pai, que no final virou queridinha da nação; BBB15 e Angélica: mulher negra e barraqueira, que não aceitava nenhum desaforo, chocou todo mundo pelo seu jeito petulante e foi eliminada no primeiro paredão por ser desaforada demais.

Voltando a Drag Race… Como não tem a possibilidade do público participar efetivamente do programa escolhendo qual queen deve permanecer, os ataques são feitos às rede sociais delas.

Print de Ibsen Neruda

“Jasmine Masters se mate você é uma preta feia”. NIGGER, a palavra que Sharon tanto adora e acha que não machuca ninguém.

Idem.

Tanto Jasmine Masters quanto Kennedy Davenport, participantes da sétima temporada, sofreram com o racismo do público. Aquela até fechou suas redes sociais, tamanho o ataque que padeceu. Para não dizer que Rupaul não se posicionou sobre isso, durante o Reunited ele fez um pequeno comentário perguntando as duas queens se elas sofreram com os haters e como elas estavam lidando com isso. É importante ressaltar a escolha vocabular de Ru: haters (invejosos) não racists (racistas).

O racismo está presente em pequenos gestos dos fãs, como depreciar sempre Tyra Sanchez, ganhadora da segunda temporada, colocando-a como inferior a segunda colocada, RAVEN; falar que Naomi Smalls é ruim porque sempre usa os mesmos trapos para mostrar as pernas, mas não ver problema em Miss Fame usando sempre a mesma maquiagem e o mesmo espartilho apertado, pois nesta, é marca autoral, e naquela, é desleixo; ou dizer que Bob The Drag Queen é insuportável por ser tão confiante.

“O racismo nos coloca fora da condição humana e isso é muito violento. E muitas vezes nós achamos que alcançar essa humanidade se dá através da idealização. Se o racismo diz que eu não sei, eu vou dizer que sei ainda mais. E pra mim é muito importante desmistificar isso. Eu quero ser eu, não quero ser idealizada e nem inferiorizada.” (Grada Kilomba)

Fica claro a partir da citação de Kilomba que, por causa da desconfiança nas capacidades criativas do indivíduo negro, este aprendeu que precisa sempre mostrar o seu melhor para provar que é capaz. Algo bem nítido na participante Bob The Drag Queen, que já no início do programa afirmou ser muito boa no que faz e ter confiança no seu trabalho.

Um negro confiante incomoda muita gente.

Por fim, é interessante notar que nem o público brasileiro e nem o público americano acham que estão cometendo racismo. É algo que não existe e que não tem como estar presente em um programa tão libertador como Drag Race. Será?

EUA caminham para modelo brasileiro de identificação racial, diz sociólogo americano (BBC Brasil).

Oreo: preto por fora, branco por dentro.

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jessicaJéssica Fabrícia

Estudante de Letras que por um acaso do destino não fez o curso pelo qual é apaixonada, moda. Entretanto não se arrepende de sua escolha. Gosta de ouvir Beyoncé, Iron Maiden e MC Carol na mesma playlist.

 

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