É uma afirmação e tanto, eu sei. E o que eu mais vou escutar em retorno é que Rogue One – Uma História de Star Wars não é melhor que O Império Contra-Ataca (1980), e eu estou preparada pra concordar no que diz respeito ao impacto que o episódio V causou aos fãs, as reviravoltas que ele deu dentro da trilogia original. Mas Rogue One é o primeiro filme de Star Wars a entregar aquilo que a franquia quer há tantos anos: um filme sobre esperança, mas que não deixa para trás o peso que a existência dela cobra.

Jyn Erso (Felicity Jones) é talvez a personagem pela qual eu mais esperei em 2017, quem sabe a personagem que eu esperei a minha vida inteira. Os receios dela em relação à Aliança são claros: como confiar, como lutar por algo que já tomou tudo que era importante para ela? A relação de Jyn com seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen), e o papel dele dentro da construção da Estrela da Morte é fundamental para a motivação que a faz se transformar de alguém que renegava a rebelião, em alguém que se torna a força motriz dos rebeldes. A construção da personagem é tão minuciosamente trabalhada que pode-se ver traços tanto de Galen quanto de sua segunda figura paterna, Saw Gerrera (Forest Whitaker). Uma personagem a quem se permite crescer, mudar e duvidar, que o roteiro dá espaço para tudo isso e para uma personalidade que não é a de nenhuma outra heroína feminina da franquia até agora. Ela não é a jovem forte e impiedosa Rey, ela não é tronco de confiança e esperança que Leia é – Jyn é o combustível para que as histórias das duas possam acontecer.

Quando fala sobre o combustível da rebelião  Rogue One acerta em cheio, porque é através desses rebeldes, personagens que não são parte da família Skywalker, que não tem nenhuma direção direta com o núcleo central da franquia, que Star Wars nos mostra o que realmente é uma guerra. E eu não digo uma guerra como a Segunda Guerra, eu digo os conflitos que nós aqui no ocidente que nós escutamos falar mas tão pouco compreendemos em nossa história mais recente. Não são exércitos que estão indo para cima do Império, não são nem frotas estelares, são pessoas armadas com o mínimo enfrentando o Império. São rebeldes, cujas vidas estão na linha de frente, nas linhas laterais e nos cantos mais perigosos, enviando mensagens de esperança, dando a vida por uma causa que não pode ser perdida.

Rogue One sente como os livros do universo expandido de Star Wars, uma visão além daquela que conhecemos sempre. Há pequenas participações de personagens clássicos, todos eles ou necessários, ou uma ode ao que está para acontecer. Todos eles peças fundamentais na construção da narrativa dramática do filme. Mas essas participações não ofuscam o leque de personagens incríveis que o filme nos apresenta.

A dupla Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Base Malbus (Wen Jiang) são os meus personagens secundários favoritos. Eles são a representação da Força dentro de Rogue One, seja Chirrut como o seu maior discípulo, seja Base como aquele que perdeu a fé. A química entre Jyn e os dois é parte do que acende nela a chama da rebelião, é a fé tanto dela quanto de Chirrut que aproxima os três e os torna quase instantaneamente uma equipe. Mas nada disso é gratuito, e também não é feito de maneira rasa ou exageradamente baseada na Força.

Cassian Andor (Diego Luna) é provavelmente o personagem com maior desenvolvimento depois de Jyn. Um rebelde que vai até onde for necessário pela Aliança, um homem que luta desde criança e que como Jyn perdeu tudo para a guerra, um homem cego pelas ordens e pelo senso de dever que ele segue desesperadamente. A transformação dele ao longo do filme também está diretamente conectada com a sua interação com Jyn, deixando ainda mais evidente que é ela a força motriz dos rebeldes de Rogue One.

Para aqueles que tinham medo de K-2SO (Alan Tudyk), o droid do filme, eu posso dizer que só sobre ele é possível escrever todo um ensaio sobre A.I.s e sobre como se é construído o conceito de personalidade dentro de uma inteligência artificial. Alan Tudyk faz um trabalho muito bom de dublagem, entregando um K-2SO que é crucial para o tom do filme. Além dele, Bohdi Rook (Riz Ahmed) é também um personagem importante para o filme e para a união do grupo final de rebeldes de Rogue One. Não vou revelar muito sobre ele a fim de não deixar passar nenhum spoiler.

Infelizmente Rogue One sofre de uma síndrome muito comum: a síndrome de Smurfete. Além de Jyn não há nenhuma personagem feminina que seja crucial para o plot central, o que vai implicar na nota do filme no nosso sistema de review de representação feminina. Mas mais do que isso, o sentimento que fica é que mulheres não são parte nem da Aliança Rebelde e nem do Império, já que elas pouco são vistas. No Conselho da Aliança estão Mon Mothma (Genevieve O’Reilly) e a Senadora Pamlo (Sharon Dunca-Brewster), mas fora as duas nós escutamos a voz e vemos de relance o rosto de talvez três mulheres pilotos rebeldes. ( Lyra Erso, a mãe de Jyn, ganha pouco tempo e dá-se pouca importância, talvez esteja aqui o meu maior problema com o desenvolvimento de Jyn, uma vez morta Lyra perde qualquer importância, mas é a morte dela que a protagonista assiste quando criança. Ainda me incomoda como as histórias maternas em Star Wars são pouco ou quase nada importantes.) Selecione o texto para um spoiler leve sobre a origem de Jyn. 

Apesar da falta de personagens femininas, Rogue One entrega um elenco etnicamente diverso, sendo Jyn a única personagem central branca – todos os outros membros do grupo principal de rebelde são de outras etnias. E essa diversidade não está apenas neles, os personagens periféricos e os figurantes também mostram a preocupação da equipe de produção em deixar aparecer na tela essa diversidade. Esse é, muito provavelmente, o filme menos branco de toda a franquia Star Wars.

Com personagens bem desenvolvidos, não é difícil sentir que o roteiro também é bem construído. A história em Rogue One é tão redonda que conserta inclusive problemas de roteiro de outros filmes, não de uma maneira barata, mas com a preocupação de que essa amarra estivesse também ligada à temática do filme e à motivação da protagonista. Talvez o grande acerto em Rogue One seja ligar pontos temáticos tão bem alinhados com o que motiva e quem Jyn Erso é, dando um sentimento de unidade à uma história que podia simplesmente ser mais uma dentro de um universo gigante, mas não é. A direção de Gareth Edwards, que também dirigiu o blockbuster Godzilla (2014) e o sci-fi independente Monsters (2010), acerta na mão na hora de lidar com as histórias de cada personagem, tirando o melhor de cada ator, escolhendo enquadramentos que mostrem a grandeza dos cenários, mas que não deixam o deslumbramento estético entrar no caminho da narrativa – um dos principais problemas dos blockbusters mais recentes.

Em tempos como os nossos, em que discursos conservadores e o fascistas ganham força, Rogue One vem trazendo uma mensagem de esperança, mas uma que não é vazia ou excepcionalmente higienizada, ele vem com uma mensagem que é brutalmente verdadeira: até a esperança tem um preço. A Aliança Rebelde em Rogue One não é o extremo oposto do Império, o filme permite mostrar diferentes visões do movimento que comanda a lado rebelde da guerra, abordando extremismos e politicagens dentro dele. Essa capacidade de discutir as diferenças dentro da Aliança talvez seja uma das maiores lições que se possa tirar do filme.

Rogue One é o principal coração de todo universo Star Wars, exatamente porque conta a história daqueles não tem sabres de luz, que não estão diretamente ligados à força ou à família cuja história está no centro de uma guerra centenária. Rogue One conta a história daqueles que lutam apenas por acreditar que a mudança é possível, aqueles que enfrentam AT-AT Walkers com blasters, que lutam porque acreditam que a esperança é capaz de mudar a história de uma galáxia inteira.

*Olhando o nosso Sistema de Review de Representação Feminina fica ainda mais aparente o modo como a representação feminina ainda precisa caminhar muito dentro do universo Star Wars. Não basta ter protagonista feminina, precisa ir além.*

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Rogue One - O Melhor Star Wars até Aqui.
A produção incluiu cenas de mulheres em X-Wings que foram excluídas de Uma Nova Esperança.Há duas mulheres como personagens periféricos, as duas posição de poder, uma delas negra.
Quase não há mulheres entre os rebeldes, quando elas aparecem são cenas rápidas e de luta.
42%Pontuação geral
Há pelo menos duas personagens femininas centrais?0%
Elas conversam entre si sobre algo que não um homem?0%
Ela(s) é(são) importante(s) para a trama central?100%
Ela(s) é(são) desnecessariamente hiper-sexualizada(s)?100%
Ela(s) é(são) está(ão) presa(s) aos tropos/clichês de personagens femininas?100%
Número de personagens femininas em relação ao número de personagens masculinos.12%
Há diversidade entre as personagens femininas?0%
Participação feminina na equipe criativa central do filme.25%
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