Olha o spoiler! Spoiler fresquinho! Quem vai quereeeeer?!

Ah, a Escócia *.*

Tem escolha mais perfeita para uma série romântica com um pequeno toque de ficção fantástica? Paisagens adornadas por penhascos intimidantes, vales verdejantes, névoa misteriosa, mulheres inteligentes e homens brutos com sotaques tão sexy que seus ovários explodem. Tudibom. Quer dizer, mais ou menos. Também tem violência sexual e física contra a mulherada, um roteiro cuja lógica às vezes nos escapa e o bom e velho machismo escondidinho aqui e ali, enganando os desatentos.

Mas é para isso que estamos aqui não é mesmo? Para alegrar seu dia desconstruindo aquela história que parecia tão progressista e até é, quando conveniente.

Então, Outlander! A história começa com Claire e seu marido Frank viajando pela Escócia após os anos turbulentos da 2ª Guerra. Ambos atuaram ativamente nos conflitos, Claire mais especificamente como enfermeira. Claire é bem opinada, bem resolvida com sua sexualidade, corajosa e firme. Quando, por mera curiosidade se aproxima de um terreno supostamente sagrado ela se vê enigmaticamente transportada para 200 anos antes, no mesmo ponto, mas dessa vez de camisola.

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Essa situação por si só já é muito interessante. Temos aqui uma das poucas mulheres viajantes no tempo da ficção. Este texto em inglês do The Guardian trata bem dessa questão: Why Can’t Women Time Travel

É sobre como mulheres raramente viajam no tempo, costumando ser companheiras de viajantes no tempo, levadas junto pelo acaso e a ocasião ou simplesmente desmaiadas na varanda, (sim, Jennifer, namorada do Marty McFly em De Volta Para o Futuro 2, estou falando de você) esperando o verdadeiro viajante voltar. Raramente protagonizamos a viagem no tempo. Não curiosamente, eu só consegui lembrar de UMA mulher que tenha inventado uma máquina do tempo em TODO O ACERVO DA CULTURA POP, o que é muito surpreendente, se observamos o ambiente extremamente machista que a cerca: a Bulma, de Dragon Ball. E ainda assim, nem entrar na máquina a criatura entra, ela manda o filhão passear e tomar cuidado na hora de estacionar, porque a pintura é nova. É, parece que gostam da gente aqui, quietinhas em nossa época.

Mamãe sabe das coisas

Mamãe sabe das coisas

Até mesmo Claire não é exatamente protagonista de seu deslocamento temporal, estando mais para vítima dele. Jogada no meio da floresta, de camisola, fugindo da troca de tiros entre soldados ingleses e rebeldes escoceses ela se depara com uma dos primeiros “privilégios” de ser mulher nessa ou em qualquer outra vida: um quase-estupro por um dos capitães ingleses que a encontra. O nível de bizarrice da terrível situação aumenta exponencialmente porque o dito capitão é claramente um antecedente do marido de Claire, sendo ambos muito parecidos.

Agora, vamos falar dos milhares de quase-estupros (e o estupro curto e inacabado) que ocorrem durante a série. E o porquê de sim, eles têm conteúdo machista e sim, isso é ruim, mas pô! Esperem eu explicar até o final.

Primeiramente, sim gente, eu sei que violência sexual era extremamente comum e até aceitável naquela época, não sou retardada. Na verdade, eu valorizo muito quando uma narrativa não comete anacronismos históricos, sempre quanto mais pesquisa melhor. Mas eu não estou preocupada com a sociedade louca de 270 anos atrás, eu estou preocupada com a sociedade louca de 2015 mesmo, e da maneira como ela retrata algo que acontecia na sociedade louca de 1743. Estupro é uma mulher sofrendo uma violência indizível, só quem já vivenciou sabe como é. As outras morrem de medo TODOS OS DIAS de vivenciar. E quando aparece para nós na tela, uma mulher gritando e esperneando, se deparando com nosso maior temor, nossa empatia e medo internos só aumentam. Então, quando closes longos em PEITINHOS E BUNDINHAS compõem um momento de tormento e dor de uma mulher, todas as mulheres, tendo sofrido essa violência ou não, foram automaticamente e extremamente ofendidas. PORQUE VOCÊ TÁ SENSUALIZADO NOSSA DOR, PARÇA? É pro pau do adolescente ficar durinho e dar mais audiência? Serião? Ou você acha estupro excitante? Se for o caso, vai se tratar e sai do set, com licença né.

Mais um detalhe, quero que todos aqui tentem se lembrar de quando viram um estupro masculino retratado nas telas. Eu só consigo lembrar de dois: João de Santo Cristo em Faroeste Caboclo e Marsellus Wallace em Pulp Fiction. Sabe quantos closes sensualizados tem nos corpos desses caras enquanto eles sofrem essa violência? Acertou quem pensou 0.

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Pô, nem pra mostrar o tórax sensual do Marsellus durante a cena de estupro, sacanagi

 E voltando, quase todas as cenas de quase-estupro (e um estupro que graças ao universo não durou muito) são assim. O corpinho dela tá lá, se você quiser pausar na cara de desespero dela e bater uma olhando pros peitos abertos, fique à vontade! Tem vários momentos disponíveis pros doentes de plantão.

E se você ainda não entendeu, essa típica cena em filmes e séries é por causa de advinha o quê? Ding ding ding, machismo! Mulher objetificada é umas características TOP dessa cultura milenar. Ô trocinho parasita, viu? Até mesmo quando a mulher é uma protagonista admirável, vem algum diretor de cena babão misógino pra ferrar tudo. Ai Deusa, dai-me forças.

Enfim, ao longo dos episódios, Claire é resgatada e acolhida (ou emprisionada, depende do ponto de vista) por um grupo de rebeldes escoceses. Depois da ação inicial, os episódios se tornam mais amenos, retratando a adaptação de Claire ao novo (ou velho hehe) mundo que a engoliu. Claire é, no melhor uso da palavra, uma mulher moderna. Responde aos homens no mesmo tom, questiona os hábitos barbáricos do povo recém-saído da era medieval e assume o papel de curandeira, graças aos seus conhecimentos médicos. Esse é um detalhe essencial da série, pois realmente, uma das únicas formas das mulheres saírem da esfera doméstica naquela época era através do atendimento aos doentes e feridos. Como Claire já não cabe na esfera doméstica naturalmente, é elevada a um patamar social diferenciado de forma automática. Pra mim inclusive, Claire já é bem avançadinha, em vários aspectos, parecendo mais uma mulher dos anos 90/00 do que de 1945. Principalmente em como é bem resolvida e aberta sexualmente, podendo ser professora de autoestima e confiança para a mulherada de Sex and the City (menos Samantha Jones, SUA LINDA, TE AMO!). Sério, eu já vi a Inglaterra dos anos 50 em Call The Midwife e a liberdade ainda era pouca, nem tente me enganar!

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Passava o rodo nessa Escócia toda

No meio da série um twist extremamente confuso acontece. Claire está bem, protegida no castelo e atendendo às necessidades do Lorde, cujas pernas são retorcidas de nascença, precisando de massagens e cuidados. Ela fez amizades e está até mais conformada com a condição de né, mudar completamente de vida. Daí, levam ela embora. “Vamos recolher impostos e você vai junto, porque sim”. Eu fiquei -Q. Ela traz alívio de dores para o Lorde do castelo pela primeira vez em anos e ele simplesmente deixa ela ir? Qual o sentido nisso? E se eles se encontrarem com ingleses no caminho e ela for levada por eles…? e é exatamente isso que acontece no episódio seguinte.

Eu só aponto isso porque essa mongolice toda é a justificativa encontrada para fazer Claire se casar com o male lead da história, o belíssimo Jamie. “Oh não, precisamos te proteger dos ingleses, então você precisa virar escocesa! VAI CASAR AGORA!”. Sabe o que manteria ela protegida dos ingleses também?? A PORCARIA DO CASTELO ONDE ELA ESTAVA 5 MINUTOS ATRÁS.

Não me levem a mal, eu estava torcendo horrores para Jamie e Claire se pegarem, sou apenas humana. O episódio do casamento em si foi intenso e bem escrito, mas o motivo para esse casório é tão forçado.

Precisava mesmo de furo no plot pra casar com esse daí?

Precisava mesmo de furo no plot pra casar com esse daí?

As cenas de sexo consentido são muito legais, vou falar pra vocês. Nudez para todos e todas, não se tem do que reclamar.

Agora é importante se endereçar ao personagem Jamie. Uma pessoa boa, gente fina, bom coração. Jamie tem um quê de ideal, homem dos sonhos, isso é inegável, mas ainda assim a personalidade dele é mais bem-construída do que ditos Edwards por aí. Mas ele tem algo em muito especial comum com Edward Cullen: ambos são virgens antes de conhecerem suas eleitas.

Eu fico, ai gente, TÁ BOM. Se tem uma coisa que me incomoda nesse tipo de literatura voltada para o público feminino é essa idealização da pureza no homem. Nesse ponto sou mil vezes mais Dorian Grey, porque é bem mais realista: ele viveu uma vida antes dela. Homens e mulheres fazem sexo com diferentes pessoas antes do casamento sim e um casal não vai ser menos especial por conta do passado de ninguém. Isso se torna ainda mais forçado quando no episódio das núpcias, Claire tem um orgasmo. Cuddles para o prazer sexual feminino nas telas, que venha mais. Mas um virgem dar um orgasmo para uma mulher depois de 20 (sim, eu contei) investidas? Taí outra idealização nociva, o da simplicidade do prazer feminino, que de simples não tem nada e faz as inexperientes criarem expectativas falsas que as frustrarão depois. Quem realmente sabe, sabe que faltou ali muitos dedinhos, faltou muita língua, faltou muita coisa.

Orgasmo feminino: quando romantizado é mais simples do que segurar as mãos.

Orgasmo feminino: quando romantizado é mais simples do que segurar as mãos.

Agora gente, vamos falar do que eu sei que vocês estavam esperando eu falar. O suposto maridão Jamie, que dá uma surra de cinta em Claire depois dela desobedecê-lo.

Ó Deus, ó vida. Eu sabia de antemão que essa surra ia acontecer, graças aos spoilers de certas Rebecas, criadoras desse site. Mas isso acabou sendo muito positivo, porque me deixou bem alerta para não entrar na lombra MANIPULADORA que os showrunners criaram para no final, tudo se justificar e ninguém ficar com raiva de ninguém.

O episódio já começa diferente, pois pela primeira temos a narração em off com a voz do Jamie, não da Claire. O episódio vai ser do ponto de vista dele, não dela. Hum. Estranho, no mínimo.

Claire faz uma última tentativa de voltar para sua época, correndo em direção às pedras sagradas, indo contra as ordens de Jamie de esperá-lo na floresta, juntamente com um guarda escocês. Ela é capturada por ingleses e levada para um forte, onde precisa ser resgatada.

Donzela em perigo, homem ao resgate e pronto, voltamos são e salvos para a taberna. Jamie é chamado de lado pelos outros homens, afirmando que ela precisa ser punida. Ele concorda, ambos sobem para o andar de cima e Jamie já começa a explicar o que vai acontecer, dizendo que não se falaria mais no assunto se somente ele tivesse sido colocado em perigo, retirando o cinto. Claire se desespera e Jamie insiste naquela ladainha do “é para seu bem, vai aprender a lição e nunca mais errar de novo” e “vai doer mais em mim do que em você” (essa é a pior, AI COMO ME DÓI TE BATER).

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A verdadeira vítima

Então gente, de repente uma gaita de fole animada começa a tocar. Eu só arregalei os olhos ~a cena vai ser ENGRAÇADA~ uma mulher, apanhando do marido, vai ter um tom CÔMICO. É demais. Claire esperneia, chuta Jamie, mas mal vemos seu rosto (mas tem uns shots na bundinha, muito importante). O foco é totalmente em Jamie, dizendo que não sente prazer naquilo enquanto sorri. Que-não-sente-prazer-naquilo-enquanto-sorri, lógica mandou abraços. Os homens no andar debaixo se acabam de rir ouvindo os barulhos, todos se divertem às custas da esposa apanhar do marido depois de “se comportar mal”. Que engraçada essa posição submissa da mulher, né não? Kkkkkkkkkk #not

Mais uma vez, afirmo: eu sei que isso é historicamente acurado. O PROBLEMA NÃO É ESSE. O problema é como um programa feito no ano de 2015 opta por representar uma violência contra a mulher. Fazendo piada.

O resto do episódio é quase como uma defesa em tribunal a favor de Jamie. Ele se recusa a trair Claire com outra mulher, se mostra arrependido, pede perdão e promete nunca mais levantar uma mão pra ela. Veja Jamie, tão avançado para seu tempo, conseguindo ver Claire como igual diante da revolta dela ao ter apanhado. Isso tudo é ótimo, continue assim. A não ser pelo problema da incoerência. Em alguns episódios passados, Jamie se ofereceu para apanhar no lugar de uma das personagens, que estava sendo desobediente ao pai. Mas parece que o mesmo sacrifício não poderia ser feito pelo bem da esposa. Seria porque seu ego e orgulho masculino haviam sido afetados dessa vez? Acho que nunca saberemos.

Mr. Darcy está te julgando, Jamie.

Mr. Darcy está te julgando, Jamie.

No fim, ainda avalio que a relação dos dois personagens não é abusiva. Claire exige igualdade e Jamie deseja oferecê-la. Houve esse momento de abuso, MUITO MAL LIDADO, que ficará como uma mácula na história do programa.

Outlander acaba de retornar, depois de 6 meses de hiatos. A 1ª temporada terminará em junho e uma 2ª já foi anunciada e será baseada no 2º livro da série de livros de mesmo nome.

Por incrível que pareça, eu gosto da série e vou continuar assistindo. Só recomendo esclarecimento e precaução. Aprecie a série pelo motivos corretos e nunca tenha medo de apontar as faltas e falhas. Consciência é tudo nessa vida, gente.

Pelo menos todo mundo usa saia com orgulho.

Pelo menos todo mundo usa saia com orgulho.

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