Eu sou a leitora mais lerda do mundo, mas este é o segundo post sobre os quadrinhos que a Editora Nemo nos enviou. Esperei um momento em que eu estivesse tranquila para ler O Mundo de Aisha, eu sabia que as histórias contadas em suas páginas iam me afetar.

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Eu li O Mundo de Aisha sentada na sala de espera da emergência de um hospital – foi a pior escolha de lugar que eu podia ter feito. Não era nada grave, só um gripe e nem era eu quem estava gripada, mas hospital sempre é aquele lugar carregado por um ar pesado.

O Mundo de Aisha é narrado em histórias, são contos em quadrinhos que narram a realidade de diferentes mulheres do Iêmen, país em que a fotojornalista Agnes Montanari colheu os depoimentos e as imagens que mais tarde Ugo Bertotti transformaria em ilustrações. Ao final de cada história minha garganta dava um nó e eu engolia silenciosamente o choro.

São histórias de mulheres diferentes mas que dividem algo em comum: a sociedade patriarcal, tradicionalista e misógina. Cada uma delas possui uma história de vida marcada por situações em que são desqualificadas apenas por serem mulher, em que sofrem violência física ou verbal, em que ousam bater de frente com os costumes que as oprimem – mas nem todas tem a mesma sorte.

Um dos elementos mais interessantes na narrativa do quadrinho é perceber que, apesar de ser um olhar ocidental sobre uma cultura radicalmente diferente da nossa, os autores conseguem discutir e mostrar a realidade dessas mulheres sem apaga-las. Para nós as mulheres por trás dos véus (os niqabs) são sinônimo de apagamento, de inexistência, quase uma desumanizadas. Mas para as mulheres que passam a maior parte da sua vida dentro do manto preto elas são vivas e perseverantes. É sob esse ponto de vista que a história se desenvolve, os pré-conceitos que formamos sobre essa cultura de um ponto de vista ocidental vai aos poucos sendo contestado e se desfazendo.

Isso não quer dizer que o quadrinho não problematize a situação da mulher no Iêmen. Logo na primeira história somos apresentadas à que ao meu ver é a personagem mais sofrida do livro. Sabiha tinha 11 anos quando se casou e alguns anos à mais quando seu marido, pai de seus três filhos, a mandou para o hospital com um tiro de AK-47. Seu crime foi parar em frente à janela sem véu, deixando o vento e o sol do amanhecer bater no seu rosto descoberto.

São histórias trágicas, encorajadoras, de vitórias e de dúvidas. Aisha é uma mulher privilegiada perante suas companheiras de livro e está ciente desse privilégio dentro da sociedade. Mesmo a mulher divorciada e desonrada sabe que tem mais privilégios do que a imigrante africana que é hostilizada na fila da água. O livro permite uma autoanálise interessante para quem não consegue identificar seu próprio privilégio dentro de uma sociedade mais amena como a nossa. Se Aisha é capaz de ver sua posição de liberdade dentro de um país fundamentalista, porque tantos de nós temos dificuldade em identificar-nos como privilegiados na nossa sociedade?

Leia O Mundo de Aisha num dia em que você não esteja no hospital. A narrativa das histórias dessas mulheres, e por consequente da experiência da fotojornalista durante sua estadia no país, casa muito bem com os desenhos pesados e em preto e branco do desenhista. Um retrato ocidental de uma cultura diferente da nossa, mas feito de maneira complexa. São histórias sobre mulheres que estão aos poucos revolucionando um sistema opressor, e estão fazendo isso por debaixo do véu.
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