Este post foi originalmente publicado no Coelho Matador.

RAlgo que venho notando muito nos últimos anos, e que a indústria parece dar os primeiros sinais de preocupação também, é que os papeis femininos, mesmo quando de destaque, ou não têm o mesmo desenvolvimento e impacto que os masculinos, ou são apenas personagens de suporte. Isso quando não são diminuídos a simples objetos de cenaComo público, mulher e nerd, tenho cada vez mais sentido falta de um personagem que me represente na tela.

Acredito de verdade que nós temos a capacidade de nos identificarmos com qualquer personagem, seja ele homem, mulher, trans, gaynegrobrancolatino, asiático etc. Isso não quer dizer, no entanto, que temos que nos conformar com a falta de representação das outras etnias e gêneros em relação à representação do homem heterosexual branco.

MAS vamos voltar ao filme da semana: GODZILLA. E atenção: esse review vem com spoilers!

Godzilla-Teaser-Poster-2

Espera. Antes que eu comece a falar sobre o filme, deixe-me dizer que eu gostei muito dele. Não tanto quanto eu gosto de Pacific Rim (sim, eu sei que só há uma personagem feminina de expressão no filme, e eu acho isso um problema. No entanto, ela é uma personagem incrivelmente desenvolvida e vital para o plot.), mas eu me diverti muito. Ver o Godzilla cuspir fogo radioativo foi o ápice do meu dia. Mas mantenham em mente que, apesar de gostar de um filme/quadrinho/música/livro/seriado, eu ainda assim posso observar as falhas que ele têm.

Caso você, como eu, nunca tenha realmente acompanhado os filmes japoneses do Godzilla, e fizer uma pequena pesquisa sobre a franquia japonesa, vai descobrir que o monstrão já encarou diferentes papéis ao longos de seus sessenta anos de existência. Já foi vilão, já foi mocinho. E, no filme de Gareth Edwards (Monstrosele assume este último papel.

carcaça godzila

O filme começa com o Dr. Ishiro Serizawa (Ken Watanabe) e a sua assistente, Viviene Graham (Sally Hawkins), chegando às Filipinas para investigar um acidente geológico que revelou o que poderia ser a procura de uma vida inteira: um esqueleto gigante e dois ovos imensos. Um deles já quebrado, o outro ainda não. Mas Ishiro sabe que aquele não é o monstro pelo qual ele vem procurando.
A primeira ameaça ao planeta chega na forma de abalos sísmicos na cidade de Janjira, Japão, onde uma planta nuclear acaba sucumbindo e matando Sandra (Juliette Binoche), a esposa de Joe (Bryan Cranston) e mãe do nosso protagonista, Ford (Aaron Taylor-Johnson).

casal 20 godzilla

Quinze anos no futuro. Ford (Aaron Jhonson) volta aos EUA depois de uma temporada servindo o exército como desarmador de bombas. Ele é recebido de volta pela esposa Elle (Elizabeth Olsen) e o filho Sam (Carson Bolde). O reencontro, no entanto, dura muito pouco. Ford recebe uma ligação e descobre que seu pai, Joe, foi preso no Japão ao tentar ultrapassar a barreira de quarentena de Janjira. Joe se tornou um ativista conspiracionista, ele acredita que o acidente de quinze anos atrás foi causado por alguma coisa que não um terremoto, e pior – os padrões estão se repetindo novamente.

_KF14095.DNG

Joe e Ford conseguem quebrar a quarentena e entrar na cidade – apenas para descobrir que diferente do que foi noticiado, Janjira não está com níveis de radiação perigosos. Eles conseguem entrar na antiga casa da família e recuperar os discos que Joe acredita que provarão que o que aconteceu não foi um acidente geológico, mas acabam apreendidos pela empresa Monarch. Lá eles descobrem que a empresa para qual Dr. Ishiro e Viviene trabalham é responsável por investigar a ameaça conhecida como MUTO, a verdadeira causa da destruição da usina quinze anos atrás. A criatura, até então adormecida e se alimentando da energia nuclear da planta, acorda e sai de seu casulo, destruindo a base de operações e matando, dentre muitos outros funcionários, Joe Brody. É aí que os militares americanos entram e que conhecemos o Almirante Stenz. Pronto.

Agora nós já estamos aproximadamente uns trinta? Quarenta minutos dentro do filme? Talvez um pouco mais ou menos. Mas já conhecemos todos os personagens humanos que formam o núcleo principal da trama. Até agora são sete (se você não contar Sam Brody) personagens, dos quais três deles são mulheres. Parece um bom número – muito melhor do que a maioria dos blockbusters de monstros mais recentes. Mas número nem sempre quer dizer qualidade.

Sandra Godzilla

Sandra Brody morre nos primeiros dez minutos de filme. Ela tem a função de morrer e motivar o marido a perseguir a verdade custe o que custar, já que ele próprio se sente culpado por não ter conseguido salvar a esposa. É o bom e velho clichê da mulher na geladeira, exceto que neste caso Joe, o homem atormentado pela morte da mulher, também morre logo no começo do filme, deixando a morte de Sandra com ainda menos sentido. A personagem é usada para tornar Joe o gatilho, a pólvora que o plot precisa para que a história chegue de novo até Janjira e até o primeiro MUTO. Depois que isso acontece, Sandra é esquecida e seu clichê abandonado apenas para ser substituído por outro.

Elle Godzila

Com o passar dos anos e o retorno de Ford para o seio familiar, nós conhecemos a terceira personagem feminina do filme: Elle. A esposa e mãe que, por acaso, também é enfermeira – algo que nunca é nem remotamente utilizado pela narrativa do filme, já que a única coisa que ela faz dentro do hospital é usar o telefone e esperar pelo marido. Elle é o complemento do clichê masculino de Ford: quando Joe morre, ele diz para o filho que ele deve proteger a família a qualquer custoessa é a sua obrigação.

A intenção aqui não é retirar o valor nobre da ação de Ford, mas questionar o uso de clichês como esses. Enquanto Ford tenta a todo custo chegar a São Francisco e proteger sua família, Elle espera por ele dentro de uma cidade à beira da destruição. A única coisa sensata nisso tudo é mandar o pequeno Sam para um campo de refugiados. E essa ação revela um grande problema desse clichê para os personagens envolvidos – ele não faz sentido com quem Ford é. Ford é militar, e em momento nenhum durante o filme ele questiona as decisões militares de seus superiores; muito pelo contrário, também com o objetivo de proteger a sua família, ele se oferece para tomar parte em uma missão suicida. O que levanta a pergunta: se em momento nenhum Ford duvida da capacidade dos militares de resolver o problema, por que ele manda a mulher esperar com o filho dentro da cidade ao invés de mandá-los para um campo de refugiados, onde eles seriam cadastrados e, passado o problema, o encontro seria facilitado?

ford godzila 3

Porque nós precisamos de outro clichê: a donzela em perigo. Elle, que espera por Ford, é quase esmagada pelos escrombos de um prédio perto de uma das lutas entre o Godzilla e o MUTO. É preciso achar que a donzela está correndo risco de vida – e talvez esteja inclusive morta – para que o ato de Ford seja tão grandioso quanto puder. Mesmo sem saber se a família está segura ou não, ele ainda assim arrisca sua vida para salvá-los.
Bonito né?

Não. Acho chato e batido. Ford, junto a Godzila, é o personagem principal do filme. Ao seu redor estão seu pai, Dr. Ishiro, Elle e o Almirante Stenz. Tirando Elle, todos os outros personagens têm importância vital para que o plot do filme evolua. Joe foi o gatilho, aquilo que envolveu Ford na caçada ao MUTO, que o motivou a não parar até chegar à sua família. Dr. Ishiro é a fonte de conhecimento sobre os monstros, é dele que sai todo o backstory sobre os monstros, e que oferece uma alternativa ao ataque armado. O Almirante é tanto o homem das armas que as vezes é apresentado como opositor a Ishiro, como um homem cujo único objetivo é salvar a vida de civis. Elle é a esposa que fica esperando o marido, e cuja falta de ação própria quase lhe custa a vida.

vivienne godzila

Mas e a terceira personagem feminina? Ah, simVivenne Graham. A sidekick super inteligente. Vivienne é apresentada no começo do filme com ares de aprendiz, a parceira de Dr. Ishiro na busca por Godzila. Quinze anos depois, Vivienne continua com o mesmo papel. Apesar de ter talvez tanto conhecimento quanto Ishiro sobre o monstro, Viviene é constantemente reduzida às margens das ações e das decisões – que são tomadas todas por homens, claro. Uma cientista que podia muito bem ter uma participação maior na trama, mas sofre da síndrome de personagem secundário sem função.

Pode parecer exagerado (ah, como eu amo essa palavra ¬¬) mas por que motivo Ford Brody não pode ser Felicia Brody, do esquadrão anti-bombas? As mesmas motivações que movem Ford movem também “mães de família”. Você poderia até argumentar que uma mãe lutando para salvar sua prole talvez tivesse maior impacto com o público. No caso da idéia de um blockbuster de monstro ter uma protagonista feminina ser uma idéia um pouco liberal demais para você, por que Dr. Ishiro não poderia ser Dra. Ishiro? Por que manter as personagens femininas em papéis marginais e clichês?

Saindo do aspecto feminista da discussão, mas mantendo o foco na representação, outra coisa que me chamou atenção foi a falta de diversidade étnica no casting. Se você entrar no IMDB do filme vai ver que, com a excessão de Ken Watanabe, apenas o décimo nome do cast não é branco, e eles estão todos em papéis secundários e terciários. A única mulher negra tem apenas uma fala durante todo o filme, que é também a única vez que ela aparece em tela. O personagem cujo erro chama a atenção do MUTO para Ford sobre a ponte, enquanto eles tentavam levar as bombas para São Francisco, é latino e se encaixa no estereótipo do latino engraçado/incompetente. Fosse o filme mais preocupado com a representação, ele seria apenas mais um personagem -mas como ele é um dos poucos latinos com falas, esse clichê chama atenção.

A foto com a melhor definição que achei de um personagem secundário.

Matt Brown, do site Twitch, tem uma coluna semanal chamada Destroy All Monsters, em que ele fala bastante sobre as falhas relacionadas à diversidade e a representaação feminina nos filmes. A coluna dele sobre Godzilla trata de algo diferente, ele vê o filme como sendo unicamente do Godzila, em que os humanos são representados como formigas, com Ford ou sem Ford Godzila ainda teria ganharia a luta – os humanos são irrelevantes. Olhando deste ponto de vista a missão de Godzila como filme vai muito além do que eu tinha inicialmente interpretado. No entanto, por mais que este filme não seja de Ford, e os humanos sejam apenas as formigas perante a presença de um Deus, se o roteirista decide incluir uma história do ponto de vista desses personagens é importante que ela seja bem construída, interessante e preocupada com a representatividade.

godzilla roar

De maneira geral, Godzilla é um filme divertido. Se você gosta de sci-fi bem desenvolvido e com pelo menos um quê de discussão social (neste caso, a relação do homem com a natureza), Godzila com certeza vai lhe valer o dinheiro do ingresso IMAX. Os atores são todos muito bons, e por isso me entristece ver Julliett Binoche, Bryan Cranson e Elizabeth Olsen tão sub-utilizados.

juro. Ford Brody tinha um trabalho. Desde o começo do filme, estava bem claro que ele tinha que desarmar uma bomba no final do filme. Mas aí ele vai lá e dorme. You had one job, Ford. One Job.

=)

%d blogueiros gostam disto: