Antes de começar, queria lembrar a quem estiver lendo este texto de que, apesar de serem as mulheres as afetadas pelo comportamento machista, homens também sofrem com o sexismo.

A necessidade do menino crescer e assumir a responsabilidade da casa – ou vila, no caso do filme – é uma imposição da sociedade patriarcal. Meninos passam a vida inteira escutando que é dever deles cuidar das pessoas que estão à sua volta, das irmãs, mães e esposas. Eles aprendem que sentimentos é coisa de menina, não de menino. Que homens não choram. Que eles precisa sempre ser fortes. Isso não só acaba privando as mulheres de liberdades iguais às dos respectivos homens, como priva esses meninos de entender que fraquejar, amar e sentir emoções é algo inerente da natureza humana – independente do seu sexo. Querer proteger e cuidar é algo que deve vir de dentro, não forçado pela sociedade como um dever masculino. Estóico é a representação dessa sociedade, ele quer forçar Soluço, um garoto claramente não interessado em poder, a se tornar o líder da vila, pois esse seria o seu direito e o seu dever. E no final, mesmo contra sua vontade, Soluço é forçado por essa cultura a assumir a posição de Alfa.

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Tive muitas dúvidas de como escrever este Colant sobre Como Treinar Seu Dragão II. Eu amo o primeiro filme, ele tem uma mensagem muito bonita sobre como ser você mesmo – não interessa quem seja – é melhor do que se contorcer para encaixar nos estereótipos dos outros. Ele também quebra muito bem o machismo que normalmente circula nos filmes coming of age sobre meninos crescendo. No primeiro filme, Soluço é o oposto do resto da sua vila: ele não tem nenhum atributo físico de força e possui um coração maior que o bafo de um dragão de duas caudas. Ele é um garoto que não se encaixa numa sociedade de homens e mulheres macho. E a lição final do filme é que isso não faz dele pior do que nenhum deles, muito pelo contrário, é a sua capacidade de amar desta forma que transforma a vila para melhor.

Eu tinha expectativas muito altas para este filme. Tipo, extratosféricas. Eu dirigi 40 minutos para chegar num cinema que estivesse passando o filme na língua original, logo na sexta-feira em que ele estreou – eu realmente queria aproveitar ao máximo o filme. E assim eu o fiz, até escutar o termo alfa pela primeira vez. 

Num filme sobre um garoto virando um homem, quando você escuta o termo alfa, é difícil fazer a ligação com o alfabeto romano, é mais fácil se assustar porque a mensagem pode ser exatamente esta: esse garoto vai crescer para se tornar o macho alfa de sua tribo. E isso, colega, dói pra cacete. Dói em mim.  

Depois de assistir ao filme, corri para internet para tentar entender a confusão em que a minha cabeça estava. Ao mesmo tempo que via pessoas notarem os problemas que eu notei, via que outras acreditavam que a mensagem era diferente. Depois de pensar bastante sobre o assunto, acho que o problema não é que a mensagem não está lá, mas sim que ela não é exposta o suficiente. Na tentativa de tratar o tema do Macho Alfa com uma virada nova, o filme falha e acaba ressaltando a falsa importância dele. 

astrid and hiccup

Ponto muito positivo: um casal de iguais.

No começo do filme, Soluço conversa com Astrid sobre a posição de líder que seu pai quer que ele assuma. Soluço não está interessado, ele quer continuar explorando, voando com Banguela, conhecendo e mapeando lugares novos. Astrid, no entanto, demonstra-se interessada pela posição de líder. Nesse momento, achei que o filme estivesse nos preparando para a virada do final, em que Soluço conquista a liberdade de ser quem ele quiser, de verdade, sem se prender ao papel que a sociedade impõe para ele, e que Astrid assumiria a posição que a sociedade não espera dela. Logo na sequência de abertura, enquanto os jovens participam do torneio com dragões, Estóico se sente orgulhoso de ter uma futura-nora campeã. Para mim, era claro que isso ia acontecer – especialmente se você pensar no outro filme. Mas não. O que vemos é Soluço assumir a posição que ele nunca quis, e Astrid não ser nada além de uma sidekick/namorada de luxo.

A relação de Soluço e Astrid é bastante interessante. Eles são, claramente, namorados. E estão em pé de igualdade, em momento nenhum Soluço é apresentado como superior a Astrid, e vice-versa. Eles são cavaleiros de dragões iguais, tão competentes quanto. Astrid, por ser fisicamente forte, não é turbilhão de emoções e demonstrações de afeto, o que é um ponto muito positivo para a personagem. Mas, ao longo do filme, ela fica cada vez mais para trás. Eu entendo muito bem que essa não é a história de Astrid e seu dragão, mas ela passa a funcionar apenas como um mecanismo para afirmar as ações de Soluço e do novo personagem, Eret (o primeiro vilão, que se torna aliado dos cavaleiros de dragões). É triste ver uma personagem tão legal ser jogada de escanteio. E, pior, no final do filme se tornar o prêmio do herói Alfa. Aff.
A temática do homem forte que está no poder, que Soluço renega e Estóico defende, fica mais clara a medida que o termo Alfa começa a aparecer no filme, e culmina na luta entre Estóico e Drago, que se sobrepõe no quadro à luta entre o Dragão Alfa “Bom” e o Dragão Alfa “Mau”. Está ali, desenhado na tela, a disputa entre dois alfas – um defendendo o poder (Drago) e o outro defendendo a família (Estóico). O que me dói muito nessa luta é que ela me parece forçada. Valka passou 20 anos protegendo esses dragões, eles são a família dela, a sua vida até ali foi dedicada a afastá-los de Drago. Mas ela não tem o direito de lutar por eles, porque a luta fica a cargo do Alfa, Estóico. 

Valka sendo incrível.

Valka sendo incrível.

O legal de Valka é que ela não é a típica Strong Female Character; não é a força bruta que lhe é tão forte, é o seu controle e convívio com os dragões. Ela é um tanto louca, mas é incrivelmente poderosa pelas amizades que tem. Pode-se até argumentar que o fato dela não ter força bruta justifica Estóico tomar a luta para ele. Mas… ELA TEM DRAGÕES. FUCKING DRAGONS. Fucking Daenerys.

fuck me valka
Tirar essa luta de Valka significa empoderar a teoria de que a mulher não pode lutarpelo que quer, que é preciso que um homem de poder intervenha na sua luta para justificá-la, para torná-la mais forte. E isso é foda. São duas coisas que poderiam ter mudado completamente o meu ponto de vista do filme: mudar o termo Alfa para líder, e manter esta luta em Valka. Estóico ainda poderia se sacrificar por Soluço, é claro que este é o caminho do personagem desde o primeiro filme, já que ele foi o pai que criou o garoto, que viu ele se transformar e que se orgulhou de ver o filho como ele realmente era (o que só descredibiliza mais ainda a imposição dele sobre Soluço). É dele o direito de se sacrificar pelo filho, não de Valka, que ficou ausente por 20 anos.

Drago and his alfa

Drago e seu Dragão Alfa

Estóico morre quando Banguela, que fica sob o controle do Dragão Alfa Mau, parte para cima de Soluço. É uma morte de sacrifício e amor, profundamente triste e emocionante. O fato de Banguela estar agindo contra sua vontade, por estar sob o poder do macho Alfa, pode ser muito importante para a mensagem que o filme, acredito eu, tenta mas falha em passar. Banguela, como Valka lembra Soluço, não sabia o que estava fazendo. Ele estava sob o controle do Macho Alfa, um poder negativo, uma influência claramente ruim. Isso seria ótimo, caso o filme não tivesse terminado do jeito que terminou. Mais a frente, quando Banguela vence o controle do Macho Alfa Mau e o derrota, assumindo a posição de Alfa, a sua reação é de orgulho. Ele regojiza no fato de ser reverenciado. Isso neutraliza para pior toda a discussão que o filme poderia ter levantado, e é muito fora do personagem. Banguela é como um gato brincalhão, ele leva as coisas a sério sim, mas se diverte com elas. Vê-lo feliz por ser reverenciado não é legal, e passa a mensagem errada, de que ser Alfa é sim algo muito importante.

Durante todo o filme, o uso do termo alfa está associado ao comportamento de líder de grupo, seja de influência positiva ou negativa. Tentar argumentar que Alfa não é necessariamente algo masculino me soa um tanto ingênuo e bobo, este termo é sempre associado à representação do macho líder, seja ele um cavalo ou um homem. Caso o site e o filme não usassem o termo “he” ou “him” para identificar os dragões, seria lindo dizer que eles não têm o gênero definido. Se no primeiro filme o gênero dos dragões não importava, o uso do termo Alfa contamina essa suposta indiferença de gênero do animal, tornando-o macho. Ah, como eu quis que Valka soltasse um “Mas Banguela não é macho, Soluço. É uma fêmea.” Isso também teria mudadoa transmissão da mensagem que o filme pretendia passar, sem ter afetado o desenvolvimento da história.

Gobber

Você teria notado a “saída do armário” se já não tivesse lido sobre ela antes?

Ah! Lembra o personagem gay que a DreamWorks disse que ia ter no filme? Perdeu o momento em que ele disse que era gay? Pois é, eu também. É o Gobber (não sei o nome dele em português), braço direito de Estóico, e tudo que ele disse sobre isso foi um “É por isso que eu não me caso. Por isso e por mais uma razão.” Nossa, DreamWorks, sério? Você conseguiu fazer menos do que a Disney fez com a foto de dois segundos da família gay em Frozen. 

Banguela e Soluço em momento extrema fofura.

Banguela e Soluço em momento extrema fofura.

Como Treinar Seu Dragão 2 não falha em entreter e emocionar. É um filme incrivelmente divertido, cheio de aventura e momentos bonitos. Eu indico sim que você vá assistir e, se for o caso, com crianças também. Mas é legal conversar com elas depois do filme para talvez esclarecer a mensagem que o filme quer passar – e a que ele realmente passa. 

Filhote do dragão Terrível Terror.

Filhote do dragão Terrível Terror.

Valka diz que filhotes de dragões são livres do controle dos alfas, o que é uma coisa legal. É falar que as crianças são inocentes e que o modo como a gente mostra o mundo pra elas é que corrompe o olhar. Talvez o filme tenha tentado passar essa mensagens, mas sai tudo de maneira torta. É lindo achar que todo mundo que sentou para ver o filme enxergou a mesma coisa que o Matt Brown, que entendeu a mensagem de que o comportamento Alfa é algo maléfico. Mas a realidade é diferente. A verdade é que essas crianças vão sair do cinema com um reforço daquilo que a sociedade, infelizmente, ainda ensina para elas: que o papel do menino é cuidar das meninas e da família. Que ele é responsável por protegê-las e que isso deve estar acima de tudo, tanto dos sonhos dele, como da liberdade delas.

=)

*Este post foi atualizado em seus primeiro e segundo parágrafos, para adequar melhor o uso das palavras “machista” e “sexista”.

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