“Outros jeitos de usar a boca”, de Rupi Kaur, virou o livro de cabeceira de muita gente. Mais especificamente de 40 milhões de leitores ao redor do mundo. “milk and honey” (título original) de Rupi está, há semanas, como #1 da lista de mais vendidos do New York Times, e chegou no Brasil há pouco tempo, mas já virou best-seller aqui também.

Uma das razões pra esse sucesso gigantesco se deve ao fato da poesia dela ser clara, direta e curta. É simples de ler e ainda tem imagens – maravilhosas – da própria autora que facilitam a compreensão. Mas a temática em si não é fácil. Rupi abre seu coração e suas experiências de vida em “Outros jeitos de usar a boca” em quatro partes: “a dor”, “o amor”, “a ruptura” e “a cura”.

As 4 fases formam um arco narrativo subjetivo sobre as noções de abuso, relacionamento, perda, cura e feminismo. Mas por mais que sejam as experiências da Rupi, a maneira que ela escreve possibilita a abertura de uma discussão de micro pra macro, como o papel da mulher na sociedade, impunidade, amor próprio e até relações interpessoais com familiares e namorados(as). De certo modo, ela acolhe as leitoras com suas próprias experiências do que é a feminilidade, o que é ser mulher atualmente.

Os desenhos minimalistas do livro são da própria Rupi e já foram tatuadas nas peles de muitas mulheres. Assim como a linguagem escrita, a visual também é simples, delicada e forte. Desse modo, os desenhos complementam de uma forma essencial os próprios poemas. É desse jeito, por exemplo, que ela cria uma experiência completa para o leitor quando descreve a natureza feminina como algo lindo em “a cura”. Ela torna esse e vários outros tabus algo fácil de ler e compreender.

Hoje, a Rupi é uma escritora famosa e que usa diferentes formatos, não só o impresso, pra divulgar seus poemas. Ela também usa muito o Instagram como ferramenta. Inclusive foi ela que postou a foto menstruada com a calça e o lençol manchados e causou polêmica em 2015, abrindo a discussão sobre o tabu que se cria em cima de questões tão básicas da natureza feminina, como menstruação.

thank you @instagram for providing me with the exact response my work was created to critique. you deleted a photo of a woman who is fully covered and menstruating stating that it goes against community guidelines when your guidelines outline that it is nothing but acceptable. the girl is fully clothed. the photo is mine. it is not attacking a certain group. nor is it spam. and because it does not break those guidelines i will repost it again. i will not apologize for not feeding the ego and pride of misogynist society that will have my body in an underwear but not be okay with a small leak. when your pages are filled with countless photos/accounts where women (so many who are underage) are objectified. pornified. and treated less than human. thank you. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀ this image is a part of my photoseries project for my visual rhetoric course. you can view the full series at rupikaur.com the photos were shot by myself and @prabhkaur1 (and no. the blood. is not real.) ⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀ ⠀ i bleed each month to help make humankind a possibility. my womb is home to the divine. a source of life for our species. whether i choose to create or not. but very few times it is seen that way. in older civilizations this blood was considered holy. in some it still is. but a majority of people. societies. and communities shun this natural process. some are more comfortable with the pornification of women. the sexualization of women. the violence and degradation of women than this. they cannot be bothered to express their disgust about all that. but will be angered and bothered by this. we menstruate and they see it as dirty. attention seeking. sick. a burden. as if this process is less natural than breathing. as if it is not a bridge between this universe and the last. as if this process is not love. labour. life. selfless and strikingly beautiful.

A post shared by rupi kaur (@rupikaur_) on

 

No final das contas, o sangue não era real, mas faz parte do trabalho visual e militância dela, ambos aspectos muito fortes do que ela faz, inclusive em “Outros jeitos de usar a boca”.

Finalmente, o trabalho dela é incrível. Ao longo do livro se vê a alma dela aberta para o leitor, algo que requer muita coragem. E não à toa, aos 24 anos ela é autora de best-seller e a poesia dela já faz parte da literatura feminista. Inclusive, 40 milhões de exemplares vendidos de uma obra feminista vendidos no mundo só mostra o quanto o movimento está crescendo.

Se você quiser conhecer mais sobre a Rupi, assista ao TED dela sobre retomar o próprio corpo: 

Você também pode comprar “Outros jeitos de usar a boca” na Livraria Cultura por R$19,90.

%d blogueiros gostam disto: