Desde que o trailer d’ O mínimo para viver começou a ser divulgado pela Netflix, as redes sociais, principalmente o Facebook, ficaram polvorosas por um certo receio de que o filme abordasse de maneira superficial e problemática uma doença tão grave, no caso a anorexia, de forma leviana, como a depressão e o suicídio foram tratados em 13 reasons why. Todavia, o filme nada tem a ver com o seriado, pois não se trata de uma produção original de um dos maiores serviços de streaming de vídeos. O mínimo para viver, escrito e dirigido por Marti Noxon, foi lançado em janeiro de 2017 no Festival de Sundance, concorrendo a categoria de “filmes dramáticos americanos”, e só depois teve seus direitos comprados pela Netflix.

O roteiro foi baseado na própria luta contra transtornos alimentares que Noxon sofreu durante uma fase de sua vida. Além disso, a protagonista da obra é interpretada pela atriz Lily Collins, que também enfrentou a anorexia. Logo, de forma bastante pré-concebida, pode-se pensar que todos os erros que são apontados em 13 reasons não irão aparecer no filme, já que, aparentemente, o assunto está sendo tratado e interpretado por pessoas que conviveram com a doença. De fato, é isso que ocorre, pois já ao iniciar o filme, você se depara com um aviso explicitando que as imagens ali representadas podem ser nocivas dado a exatidão de como elas são apresentadas. Desse modo, se você não possui uma boa convivência com sua imagem corporal, o melhor a se fazer é não assisti-lo, ou não vê-lo desacompanhado.

Apesar de ser intenso e cruel, o enredo não peca ao exagerar na representação da doença e nem em torna-la algo agradável. A trama gira em torno de Ellen, uma garota de 20 anos que sofre de anorexia. Ela tenta, por meio de vários tratamentos, buscar uma cura, mas sem sucesso, o que desencadeia a ação do filme, pois a personagem irá se deparar com um problema: voltando para casa, Ellen terá de engordar ou ir embora viver com a mãe. Só que a vida com a família de seu pai, que não aparece no filme e nem nome tem, não é fácil. A madrasta, Susan, interpretada por Carrie Preston, busca a melhora da enteada apenas para se livrar de um estorvo – como Ellen chega a dizer em um dado momento, ela não é mais uma pessoa, mas sim um problema. É possível notar que Susan tem um certo desprezo pela figura de Ellen, chegando até a fazer analogias estapafúrdias sobre o porquê da garota não se alimentar. Até uma parte do enredo, temos a sensação de que a única pessoa que realmente espera a melhora da protagonista, de forma não egoísta, é sua meia-irmã, Kelly, encenada por Liana Liberato.

Como última tentativa de (sobre)viver, Ellen aceita um tratamento, digamos, um pouco excêntrico, com o médico William Beckman, papel de Keanu Reeves. Na clínica de reabilitação, a protagonista encontra outros pacientes, cada qual com uma história distinta: Luke, Megan, Anna, Tracy e Pearl, interpretados, respectivamente, por Alex Sharp, Leslie Bibb, Kathryn Prescott, Ciara Quinn Bravo e Maya Eshet.

O filme peca ao colocar um envolvimento amoroso entre Ellen e Luke, chegando a ser bastante problemática a forma como Luke vê a protagonista: para ele, ela é o único motivo para melhorar, deixando-a desconfortável com esse novo “peso” em suas costas, afinal, não há mais só a preocupação em não desapontar os familiares e tentar se curar, mas também em ser responsável pela melhora de outro. Tirando esse detalhe, a história é muito boa e muito bem trabalhada.

Por último, vale aqui uma ressalva para o título brasileiro do filme: o mínimo para viver. Em muitos casos, transtornos alimentares podem durar anos por causa de um ciclo que se constitui em restrição alimentar e processos compulsivos, gerando o mínimo considerado para sobreviver, o que dificulta ainda mais o tratamento do paciente, por esse acreditar que está no controle da situação.

E OS GATILHOS?

Falando agora de forma mais pessoal, desde que eu vi o trailer, soube que seria difícil ter coragem para assisti-lo, pois sofro com transtornos alimentares. Confesso que assim como algumas pessoas, cheguei a pensar que fosse errada a ideia de um filme que mostrasse com tamanha realidade o que uma pessoa com algum distúrbio envolvendo imagem corporal e alimentação passa. Todavia, esse é um assunto que precisa ser discutido urgentemente.

Em uma entrevista recente, Lily Collins chegou a comentar a preocupação de sua mãe com o novo processo de emagrecimento pelo qual a atriz estava passando, mas, dessa vez, para interpretar a personagem. Ela ainda disse que, um dia, saindo de casa, foi parada por uma pessoa que a elogiou por ter emagrecido. A atriz ainda tentou explicar que havia feito aquilo por causa do filme, mas recebeu como resposta “não, eu quero saber o que você está fazendo, pois está ótima!”, o que só confirmou a necessidade de uma discussão mais profunda acerca do assunto.

Por fim, procurando uma visão de um psicólogo sobre a forma como a doença é trabalhada no enredo, encontrei uma crítica da psicóloga Cecília Dassi, que explicita de modo bastante lúcido o que ela pensa sobre o assunto:

 

“[…] de modo geral, ele [o filme] retrata de uma forma legal, produtiva e correta a imagem dos transtornos alimentares, mas eu acho ele muito forte, acho que é um filme intenso que é muito bom para quem não entende nada sobre transtornos alimentares para poderem compreender que não é uma palhaçada […]”.

 

 

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