Há algumas semanas, anunciamos que a Darkside lançaria A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers. A editora nos mandou uma cópia do livro e agora podemos contar um pouco do que achamos! Pode ler tranquilo, porque não vai ter spoilers.

Rosemary é uma guarda-livros humana que mora em Marte. Ela é enviada para trabalhar na Andarilha, uma nave especializada em abrir “túneis” de um ponto a outro no espaço. Lá, ela conhece o Capitão Ashby e sua tripulação, composta de várias pessoas diferentes, tanto por serem de várias raças alienígenas como também por terem costumes e opiniões variadas. Enquanto ela está se adaptando ao novo emprego, Ashby recebe uma proposta de trabalho para a Andarilha. Essa jornada os levará até Hedra Ka, o tal pequeno planeta hostil. É uma viagem perigosa, já que a raça que vive lá está em guerra, porém é um trabalho tão bem remunerado que Ashby não vê porque eles não devem tentar. Afinal, a Andarilha não é uma nave de guerra – essa conexão, inclusive, poderia fazer a paz entre as raças da Gallatic Commons (GC) e as que vivem nessa região.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil tem tudo o que os fãs de ficção científica mais amam: Longas viagens intergalácticas, alienígenas, alta tecnologia e até interação com IAs (inteligência artificial). Becky Chambers nos apresenta esse universo gigantesco, cheio de coisas novas e interessantes para o leitor mergulhar nelas. Uma das minhas maiores críticas à literatura de ficção científica é como as diferentes raças são apresentadas e explicadas. Quando estamos em um meio audiovisual, ou até num quadrinho ou videogame, o fator visual nos ajuda a entender essas novas raças, mas na literatura ficamos apenas com a descrição. Não é muito difícil que um autor apenas jogue informações no livro, deixando confuso para quem não conhece o universo criado e que vai ficar sem entender quem são esses alienígenas. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, a autora consegue nos apresentar sem problemas às raças que cruzam o caminho de Rosemary, falando sobre sua aparência, cultura e diferenças em relação aos humanos. Obviamente, no começo você fica um pouco perdido, mas Becky Chambers consegue encaixar esses momentos de exposição de forma divertida e interessante.

Talvez exatamente pela autora tomar esse tempo para explicar, os momentos “senta que lá vem história” acontecem com alguma frequência. Momentos de exposição muito longos podem ser um problema, mas em pouquíssimos deles me peguei ficando distraída da leitura, porque o conteúdo é tão interessante que queremos realmente sentar para ouvir a história. Por mais que os nomes sejam complicados, cada raça alienígena é tão distinta e com características tão marcantes que podemos até não saber direito pronunciá-los, mas lembramos os fatores importantes. Isso também vale para os momentos em que novas tecnologias são explicadas. Alguns deles são um pouco longos, mas a autora consegue explicar bem como esses aspectos funcionam nesse universo.

Os personagens são fantásticos. A Andarilha é composta por nove tripulantes, incluindo sua IA. Em um grupo grande de personagens, é esperado que alguns deles acabem ficando de lado. Becky Chambers de fato dá mais foco para uns do que para outros, mas ela consegue balancear tão bem o momento de cada um deles que acabamos conhecendo nove personagens densos, complexos e com arcos bem interessantes. Até personagens que eu considerava chatos se tornaram muito mais legais quando tiveram seu momento no holofote. Nenhum deles é uma cópia do outro, por mais que compartilhem o objetivo de terminar seu trabalho – cada um tem um conflito interno que aparece e recebe uma conclusão ao longo do livro.

 

Isso acaba resultando em um dos poucos pontos negativos do livro. Becky Chambers escolhe dar foco para os personagens, mas a história principal em si, a jornada até o planeta hostil, acaba ficando em segundo plano. Eventualmente, esse conflito “principal” tem sua conclusão, mas acaba sendo algo muito menor do que a história de cada um dos personagens. Por mais que eu encare isso como um defeito, essa escolha não afeta em nada a qualidade do livro, porque os personagens são tão ricos e seus conflitos tão interessantes, que o que importa de fato é ver como eles vão se virar e reagir diante das inúmeras coisas que vão acontecendo emseu redor, mesmo que as mais banais.

Muitas vezes vemos a ficção científica ser um lugar com muito mais espaço para personagens homens padrão do que qualquer outro tipo de personagem mais diverso. Em A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, vemos todos os tipos de personagens. Boa parte da tripulação é composta por mulheres, todas elas bem diferentes e fugindo de qualquer estereótipo. Mesmo os homens da tripulação possuem representações interessantes, longe da masculinidade tóxica que conhecemos. Há também personagens negros, variedade de sexualidades, um personagem não binário e até a representação de relações poliamorosas.

Além de personagens incríveis, outro ponto muito bom do livro é a mensagem geral que ele passa. Por existirem inúmeras raças vivendo juntas, há toda uma discussão sobre aceitar o outro, buscar entender o que é diferente, respeitar a pessoa que está a seu lado e sobre como preconceito é algo que não deve ter espaço na sociedade. Quando algum personagem é preconceituoso, os outros em seu redor não perdem tempo em repreendê-lo. Em tempos como os atuais, em que uma onda conservadora ganha força em vários pontos do mundo, em que discursos perigosos e preconceituosos ganham cada vez mais espaço, é importante que a cultura pop esteja disposta a mostrar que a intolerância não é o caminho. A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil mostra que, para vivermos em sociedade com pessoas diferentes, devemos ser tolerantes, respeitar e ter empatia.

A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil é um livro muito bom. Recomendo bastante que todos leiam, e mesmo quem não é muito fã de ficção científica deveria dar uma chance. Além de ter um universo muito rico e interessante, é muito divertido acompanhar o desenvolvimento dos personagens. Sem contar que, nesses tempos atuais, precisamos de mais obras que falem sobre pessoas tendo empatia e conseguindo criar sociedades melhores.

O livro já está a venda pela Darkside.

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