O texto hoje vem de uma leitora anônima. É tanto um relato pessoal quanto uma discussão sobre a infeliz cena que envolveu Sansa Stark e o modo como a violência sexual é utilizada na série. Sobre o modo como os nossos questionamentos são sempre tão injustamente diminuídos, desconsiderando vivências inteiras como mulher. Fica o aviso de que o texto é TW para abuso psicológico e sexual. – Rebeca Puig

Eu entendo a dificuldade que algumas pessoas tem de entender o problema com o estupro da Sansa, uma personagem fictícia, em comparação à glorificação da Imperatriz Furiosa. Na minha timeline hoje eu vi a Furiosa ser chamada de bruta e egoísta em comparação à inteligência de Daenerys. Entendo mesmo.

Talvez se eu falar um pouco sobre  o meu ponto de vista fique mais claro.

Cuidado que tem linguagem imprópria abaixo, quem for sensível talvez devesse parar por aqui. Ah, e para manter qualquer nível no diálogo, essa é a minha experiência pessoal e posso falar apenas por mim.

Aos 9 anos:

Uma das coisas que eu mais gostava era andar de pé na carroceria de pick-ups. Sabe o vento, a liberdade? Coisa de criança criada no interior e antes do uso obrigatório do cinto de segurança.

Um tio-avô, que eu tinha acabado de conhecer, estava comigo atrás num dia, dia normal até ali. Até que ele começou a pegar na minha bunda, apalpar mesmo. Falando:

  • Você já está mocinha, deveria tomar cuidado com essa sainha voando e mostrando sua calcinha. Deixa eu te ajudar.

E quanto mais ele me “ajudava” me apalpando e falando baixinho no meu ouvido – Não é gostoso? – eu ia me sentindo sem ação, paralisada.

Eu queria sentar, mas ele não deixava. E quando chegamos em casa eu fui correndo pro meu quarto e nada aconteceu. Muitos anos depois eu fui obrigada a ficar hospedada no apartamento desse homem. Mas eu tinha 19 anos, acho que já não o interessava mais.

Mas a sensação de estar a mercê dele naquele momento nunca saiu de mim.

Aos 14 anos:

  • Por que você não pode ser mais feminina?
  • Se você vestisse mais saias e vestidos, seria tão mais bonita!

Todo o tempo eu era lembrada pelos meus familiares que eu não era dentro do padrão.

Aos 15 anos:

Eu tive pneumonia e emagreci muito, comecei a desenvolver depressão. Mas sempre fui uma boa aluna, o que eu ouvia na escola era:

  • Ela deve dar para o professor para ter essa nota!
  • Jura? Eu achava que ela era lésbica, sempre anda abraçada com outras meninas.

Tudo isso antes mesmo da minha vida sexual realmente começar.

Também ouvi do meu pai que eu deveria olhar para minha prima e ser mais feminina, por isso ele não tinha vontade nenhuma de me dar presentes e a presenteava com jóias. Ela era mais bonita que eu.

Aos 16 anos:

Um dos meus professores favoritos me fez pegar no pênis dele durante  um acampamento da escola.

Depois disso arrumei um namorado da minha idade, que durante uma briga esmurrou o muro, do lado do meu rosto, tudo isso para “não bater em mim”. A marca ficou no muro e em mim, era uma ameaça bem clara.

Depois eu larguei esse namorado, fiquei com outros e comecei a namorar outro cara.

Até que outro professor, que eu também admirava, me disse:

  • Você está agindo como uma vagabunda, as pessoas estão falando sobre isso.

Eu nunca esqueci de como aqueles homens moldaram meu comportamento, ainda antes de poder ter uma ideia formada sobre qualquer coisa.

Aos 19 anos:

Em uma festa de família um dos meus tios me disse:

  • Você era tão bonita quando era criança, pena que engordou, né?

Aos 22 anos:

O atual namorado tinha ciúme até do meu gibi, que proibia que lesse na cama, pois aquele era o momento onde eu deveria dar atenção a ele depois de trabalhar o dia todo. Depois de me bater na cara, ele ainda pegava a minha conta de celular para ligar para qualquer número que passasse de 7 minutos de conversação. Depois de separados ele ainda me disse que ele era o único homem que me amaria.

Aos 29 anos:

Eu estava em uma relação abusiva onde o cara me afastou de todos os meus amigos, dizendo que ele fazia tudo por mim, que não gostava de fulano ou cliclano. O dito cujo ameaçou um ex meu de morte, destruiu meus móveis, me bateu na cara quando eu não deixei ele sair para “cumprir a ameaça” e, depois que nos separamos, entrou na minha casa, me estuprou e tentou me estrangular. E depois de tudo me pediu para dormir de conchinha com ele.

Depois eu ainda ouvi:

  • Mas ele me disse que você mereceu! (de um “amigo”)
  • Se você contar para alguém eu vou dizer que você é uma vagabunda, seu pai vai ficar sabendo. (do próprio estuprador)
  • Você me ajudou todo esse tempo com grana? E daí, isso só faz de você a vagabunda mais barata da cidade. (durante o estupro)
  • Nossa, mas essas coisas sempre acabam acontecendo com você, né? (meu pai)

Aos 31 anos:

  • Vai, uma chupadinha só. Eu sei que você não quer, mas não custa nada não é?

Custava, mas a agressividade, a mão no cabelo me empurrando me forçaram. Eu tinha aprendido direitinho o que acontecia quando eu brigava ou contrariava.

Também ouvi:

  • Nossa, você estava linda logo depois da pneumonia, tão magrinha.

Agora:

Eu sofro de uma depressão severa, com crise de pânico. Fico normal apenas com 2 tipos de antidepressivos diferentes, remédio para dormir e raramente saio na rua sem tremer. Minha vida sexual com meu companheiro é complicada, para dizer o mínimo. Esse, o único homem que um dia me disse que eu não era obrigada a fazer sexo se eu não quisesse. O único.

Cada vez que eu falo disso ou me lembro disso tudo, passo dias sem conseguir pensar direito, desenvolvi uma leve dislexia. É muito difícil de ler e viver. Que dirá trabalhar.

Então, me desculpem se eu prefiro não ver uma série onde se mostram mulheres sendo estupradas e depois amando seus estupradores, como a Daenerys. Ou onde o estupro da parceira sexual e irmã leva o personagem em uma jornada de redenção, principalmente quando meus algozes estão livres. Ou onde os escritores acham que usar isso não destrói uma mulher por dentro.

E, em contraponto, se eu prefiro ver uma mulher ajudar outras a fugir do seu senhor e dono, quebrar seus cintos de castidade e lutar pelas suas vidas.

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