Steven Universe é se não a única, uma das poucas séries infantis que fala abertamente sobre relacionamentos LGBTQs. Eu arriscaria dizer que é uma das poucas séries de maneira geral a falar tão bem e com tanto cuidado. O programa possui uma base de fãs devota e com temas tão importante e tratados de maneira tão carinhosa, nada disso é surpreendente.

“The Answer”, quadrinho que foi lançado essa semana nos EUA, conta a história de como as Gems Rubi e Safira se conheceram, se apaixonaram e vieram a se fundir. Em uma entrevista à PBS Newshour, a criadora da série, Rebecca Sugar, falou tanto coisa linda que eu precisei traduzir pelo menos umas partes para vocês. Para a entrevista completa, em inglês, é só seguir o link para a PBS Newshour.

Como tem sido criar um dos programas infantis mais famosos com temas LGBTQ?

Abriu os meus olhos para o fato de que essas histórias essas histórias [LGBTQ] não são consideradas apropriadas para todos os públicos e, por isso, elas são mantidas fora da mídia para crianças. E eu acho isso profundamente triste e feio. É algo que eu quero muito mudar, e eu estou feliz por ter encontrado um novo meio de falar sobre relacionamentos, um meio que está nos permitindo falar sobre esses relacionamentos.

Eu acho que a parte disso que é muito invisível é o quanto nós falamos com crianças sobre amor. Todo mundo sabe que histórias sobre amor são apropriadas para crianças. Todo mundo conta histórias sobre atração para crianças, todo mundo conta conto de fadas para crianças. É como o ar que respiramos, tão normal que é completamente invisível. Nós estamos constantemente reafirmando a ideia de que há um certo tipo de amor que é inocente e um tipo de amor que é simples e faz sentido. E nós não estamos discutindo outros tipos de amor que são tão simples e tão incríveis e fazem tanto sentido quanto.

O que você aprende enquanto criança, quando você não vê nenhuma dessas histórias, não se vê  nelas, é que você não pode sonhar com amor. Te negam a ideia que os seus próprios sentimentos são puros, inocentes, delicados, românticos. Para mim, é tudo sobre isso. Não é sobre quem você vai acabar namorando. É sobre relacionamentos per se, é sobre os seus próprios sentimentos. Você deve apreciar e amar e confiar nos seus próprios sentimentos. E se você não pode fazer isso, se torna impossível apreciar, amar e confiar em si mesma.

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Enquanto você crescia, você sentia que podia se relacionar com as histórias para crianças que você via?

Eu amava essas histórias. Eu tinha dificuldade em me ver nelas, mas eu as amava. Eu amava romance de conto de fadas! Eu queria ser alguém por quem alguém pudesse se apaixonar. A medida que eu crescia isso se tornava cada vez mais e mais difícil. Eu sentia como se eu estivesse adivinhando o sentimento correto sobre as coisas, como se eu estivesse próxima mas algo estava errado comigo, e quanto mais relacionáveis as histórias de amor deveriam ser para alguém da minha idade, elas faziam menos sentido ainda. Ter sentimentos por garotos parecia algo sobre o que todo mundo queria conversar, em tudo que eu lia e via. Tudo dizia “Amor é algo que vai acontecer e mudar a sua vida e você deve se preparar para isso, vai ser maravilhoso”.

Mas para uma garota tendo sentimentos por outras garotas, havia um silêncio ensurdecedor. Não havia nada que dissesse “Esse sentimento que você está sentido por outra garota, isso é amor”. E se você perguntasse a alguém, “Isso significa alguma coisa?, então a resposta está nas mãos de outra pessoa. E se isso vier em conjunto com algum tipo de carinho “não se preocupe com isso” ou “Isso não necessariamente quer dizer alguma coisa”, ou se a pessoa só está confusa com a pergunta, você aprende rápido que você é confusa e os seus sentimentos também. Ou talvez você nem pense em perguntar, porque você não foi encorajada durante toda a sua infância a pensar sobre seus próprios sentimentos e gostar deles, quando você consegue entender, você já aprendeu que esses sentimentos que você está tendo são inapropriados.

Eu acho que ao excluir conteúdo LGBT da mídia voltada para crianças, está se fazendo uma declaração muito clara de que isso é algo a ser ignorado, e que as pessoas que se sentem daquele jeito, os seus sentimentos devem ser ignorados, elas devem ser ignoradas. E eu acho que isso é errado.

O que a fusão pode ensinar às pessoas sobre relacionamentos?

Eu acho que parte do objetivo de ter essas fusões como personagens é que você se importa com elas como pessoas, e parte do modo como eu quero transmitir essas partes de consentimento é que esse relacionamento, esse relacionamento vivo, se você não o tem, então ele vai machucar uma pessoa. Você precisa desse vai e vem constante, de uma preocupação constante sobre o que a outra pessoa está sentindo para manter um relacionamento. E isso é um conceito bastante abstrato, mas não é abstrato quando você pensa “Oh, isso é uma pessoa, e eu posso estar machucando uma pessoa”. Nossas ligações podem ser mais fortes ou fracas, depende se eu me importo ou não sobre o que está acontecendo, e se eu respeito o que está acontecendo com o meu parceiro.

Eu tô apaixonada por essa moça. Histórias de amor são histórias de amor, e quanto mais diversas e mais representativas da real pluralidade da nossa sociedade, mais reais e mais legais elas serão. Todo mundo tem o direito de ler uma história de amor com a qual se identifica, e todo mundo precisa saber que o amor que ela/ele sente é amor.

“The Answer” é escrito por Rebecca Sugar e tem ilustrações de Tiffany Ford e Elle Michalka. O quadrinho saiu nos Estados Unidos nessa semana.

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