Há algum tempo atrás escrevi esse texto que fala sobre machismo na fantasia medieval. O que acontece é que, como desculpa para não pensar fora da caixa, muitos roteiristas/produtores/diretores/escritores desse gênero acabam reproduzindo machismo em suas histórias. Quando questionados, insistem em falar que “naquela época era assim”, e como falo no outro texto, isso não faz o menor sentido.

Veja bem, a reclamação não é que nenhuma obra de ficção de fantasia medieval não possa falar sobre machismo, a crítica é que as pessoas repensem nas mensagens que querem passar. De qualquer forma, já falei sobre isso, então mais sobre esse assunto no outro texto.

No ano passado ouvi falar de um quadrinho chamado Rat Queens. A história acompanha um grupo mercenário chamado Rat Queens, composto por quatro mulheres que passam por inúmeras aventuras. O quadrinho é de fantasia medieval e até tem uma pegada que lembra RPG: Uma party em que cada uma das quatro personagens tem uma classe específica, juntas elas se completam e compõe um grupo poderoso.

Apesar de ter o quadrinho há alguns meses, só nos últimos dias que realmente sentei para ler tudo e descobri que agora está em hiato. A história é incrível, todas as personagens são complexas, a trama em geral do quadrinho também vai avançando de forma interessante e todos os núcleos são divertidos. Apesar do hiato, é uma história que eu recomendo e já tem em português pela Jambô, inclusive a Rebeca já escreveu sobre isso aqui.

Mas o que é mais surpreendente e legal de Rat Queens é que essa é uma história de fantasia medieval que não usa nenhuma das “desculpas” clássicas do “naquela época”. Rat Queens mostra que é perfeitamente possível fazer uma história desse gênero sem colocar estereótipos machistas por causa da “fidelidade histórica”.

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Não é incomum histórias de fantasias medievais que não tem nenhuma mulher no grupo de aventureiros, mas quando tem elas acabam ficando nos papéis de magas, principalmente as de cura. É a velha história, não há nenhum problema em mulheres magas, mas nós podemos ocupar qualquer um dos papéis do grupo, como guerreiras e ladinas.

Como o Rat Queens é um grupo só de mulheres, elas ocupam todos esses espaços. Hannah é uma necromancer, Dee é a clériga, Violet é uma guerreira e Betty é a ladina do grupo. Além disso, o quadrinho é muito bom em criar personalidades bem diferentes para todas elas, fugindo da “dama” da fantasia medieval. Hannah é uma elfa brava que xinga todo mundo e é bem impaciente. Dee é uma humana um pouco mais séria e não gosta muito de festas. Violet é uma anã irritada, não liga para tradições e não foge de uma briga. Betty é a mais engraçada e “da zuera”, mas também pode ser muito sensível quando suas amigas estão com problemas.

Outro erro muito comum da fantasia medieval é que, quando a mulher não é a “dama”, ela é uma mulher muito sensual, no caso essa característica é usada para objetificar a personagem e atrair o olhar masculino. Das quatro, Hannah é a mais próxima de uma personagem sensual, se vestindo de acordo, mas dá para perceber que isso está bem atrelado com sua personalidade.

O problema não é ter uma maga ou qualquer outra personagem sensual, essas personagens também são válidas, a grande questão desse estereótipo é que é isso ou uma “dama correta”. Muitas vezes só existem essas opções, mas em Rat Queens esse é só mais um tipo de personalidade, junto com várias outras que funcionam muito bem ao longo da história. Dar opções e colocar mais de uma mulher na história permite que você explore vários tipos de personagens.

A partir daqui vou falar de alguns spoilers do quadrinho.

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Por enquanto, Violet parece ser a única personagem que enfrentou preconceito no passado por ser mulher (não vimos a fundo o passado de todas ainda). Não só o irmão dela acreditava que ele era o melhor para lutar, mas também Violet tinha que ouvir comentários irritantes que tinham a ver com o fato dela ser mulher. Por isso ela deixa as tradições para trás e virou mercenária.

Essa é outra questão importante que acontece na fantasia medieval. A mulher é vítima de machismo e supera aquilo, o que causa uma mudança na personagem. Não há nada de errado nesses arcos, inclusive eles podem ser os melhores da história, mas não é a única forma de inserir uma mulher interessante nesse meio. Um bom exemplo é Betty que, até onde vimos, não sofreu preconceito nenhum em sua vida por ser mulher, mas passou por outras questões que formaram sua personagem.

Arcos de mulheres enfrentando ambientes machistas são legais, mas acredito que às vezes falta arcos de mulheres que não tem isso no seu passado. É válido colocar Violet superando os preconceitos, mas personagens mulheres podem fazer parte de outros tipos de arcos também. É óbvio que toda a mulher na nossa sociedade enfrenta machismo, mas fantasia medieval não precisa ter nenhuma fidelidade com a realidade, por mais que algumas pessoas ainda insistam nisso.

Também há o clichê da “dama que precisa ser salva”, que não fica só na fantasia medieval. Alguma princesa é sequestrada, ou até mesmo uma guerreira, mas que é enfraquecida pelos criadores para ocupar esse papel. Em dado momento de Rat Queens, quando Palisade é invadida por monstros, Sawyer, o interesse romântico de Hannah, é sequestrado e colocado numa posição que normalmente seria de uma mulher. Outra história poderia ter feito Hannah ou outra das Rat Queens ser sequestrada. Não faria sentido, afinal elas são as heroínas principais, mas muitas histórias reduzem suas mulheres principais para fazer um homem salvá-la no final das contas.

Isso não quer dizer que o quadrinho é perfeito. Há sim momentos em que o quadro sensualiza um pouco demais certas personagens e a história não é impecável. Mesmo assim, Rat Queens é uma das grandes provas de que uma história de fantasia medieval pode funcionar perfeitamente com mulheres protagonistas. Não só elas são o centro da história, mas não ficam sendo reduzidas a estereótipos machistas. Há quem diga que mulheres sendo representadas dessa forma não atrai público e não resulta em histórias interessantes, mas as Rat Queens te mostram que isso não é verdade.

Fantasia medieval é um espaço para mulheres também, e não só para ocupar espaços que homens acham que devemos ter, mas para sermos as heroínas, protagonistas e também vilãs.

EDIT: Algum tempo depois que o texto foi para o site, vieram me falar sobre esse caso http://www.themarysue.com/conflicting-accounts-plague-rat-queens/ (infelizmente o link está apenas em inglês). Como a Rebeca já tinha falado no texto dela (linkei no começo da postagem), o desenhista do quadrinho, Roc Upchurch, foi preso por agredir a esposa, por isso foi afastado do projeto. Essa tinha sido minha última notícia sobre o caso, mas como diz no link do The Mary Sue, parece que Kurtis Wiebe pretende trazer Upchurch de volta depois do hiato. Ainda não sabemos se Rat Queens vai voltar mesmo, mas seria muito ruim se Wiebe tomasse essa decisão. Seria uma pena um quadrinho tão bom, com uma proposta tão interessante, ter na equipe uma pessoa como Upchurch. Espero que, se o quadrinho de fato voltar, Wiebe reconsidere essa decisão.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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