Essa crítica não tem spoilers!

Eu não sei o que me deixa mais feliz, o fato do filme realmente ser bom ou o prazer de ver que todos os nerds machistas estavam errados. Lembro que alguns dias antes de ver a pré-estreia do filme, estava falando com amigos que eu não esperava que Caça-Fantasmas fosse muito bom, que para mim ele ser divertido já era o suficiente. A sensação de um filme superar as suas expectativas é ótima.

O filme, dirigido por Paul Feig, começa mostrando Erin Gilbert (Kristen Wiig) tentando construir uma carreira acadêmica, mas as coisas dão errado quando Abby Yates (Melissa McCarthy) espalha o livro que elas escreveram sobre fantasmas. As duas voltam a trabalhar juntas quando eventos paranormais acontecem na cidade, mas agora elas também tem a ajuda da engenheira Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) e da funcionária do metrô Patty Tolan (Leslie Jones). E é assim que vemos o novo quarteto de Caça-Fantasmas surgir.

Sempre tento entender a fascinação de Hollywood por ressuscitarem franquias antigas. É óbvio que o fator nostalgia conquista as pessoas, mas parece que vivemos em tempos em que estamos mais interessados em reciclar algo velho do que criar coisas novas. Não dá pra trazer uma franquia assim de volta sem algo novo, então nesses casos acho sempre legal a gente pensar no que o reboot pode trazer que não vimos ainda, porque se é tudo igual, basta assistir ao original. No caso de Caça-Fantasmas, a primeira novidade estava na primeira imagem revelada: Agora o quarteto era composto por mulheres.

Todos acompanhamos os comentários que rolaram na internet. O ódio dos “fãs de verdade” foi tão absurdo que Caça-Fantasmas teve um número de dislikes altíssimos no youtube. Não foram poucas as pessoas que ouvi falando que o filme ia ser ruim sem nem ao menos terem visto. Essas pessoas não entendem, ou não aceitam, que esse também é um espaço para mulheres. Eles espalham ódio dizendo que as protagonistas deixarão o filme ruim, falam que não é sobre gênero. Engraçado que assim que uma mulher ganha o holofote, de repente o gênero não importa. Sem contar que eles pouco ligam se esse filme vai inspirar uma geração de meninas que terão possibilidades de heroínas que eu mesma não tive quando criança.

Por isso é maravilhoso ver o quão bem o filme se sai. É ótimo ver como as atrizes estão incríveis em seu papéis, em ver como as personagens funcionam, não só dentro da trama, mas nas relações dentro do grupo. Cada personagem do quarteto tem seu próprio estilo, características e funções. Sem contar que todas são muito engraçadas, principalmente Holtz e Patty.

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O roteiro é em geral bem feito, conectando todos os pontos. As falhas do filme são bem pontuais, uma piada aqui que não funciona e uma cena ali que poderia ser cortada, mas nada disso atrapalha. Como uma pessoa que viu poucos pedaços dos Caça-Fantasmas originais, não tive nenhuma dificuldade em entender a história. Isso é porque o reboot não usa os filmes antigos como muleta, é uma história independente e que funciona muito bem por si só. Os fãs antigos vão se divertir com as homenagens que o filme faz, mas quem chegou agora não vai se sentir de fora. O filme foi feito para agradar tanto quem já gostava da franquia como quem está chegando agora.

E é engraçado! Passei boa parte do filme rindo, particularmente sou uma pessoa que não gosta muito de filme de comédia, muito menos o humor do estilo Caça-Fantasmas. Mas as piadas eram legais, a maioria delas no tempo certo e funcionando no ambiente insano que o filme cria.

Muitos filmes hoje em dia parecem colocar 3D só porque é moda, mas não necessariamente o efeito tem utilidade para a história. No caso de Caça-Fantasmas, o 3D é usado de forma muito esperta. Os fantasmas, que agora realmente assustam, parecem pular na sua direção, assim como os raios das armas, enriquecendo a experiência. Além disso, o filme possui letterbox, o que soma na experiência do 3D. O letterbox são aquelas “faixas” pretas ao redor da imagem, colocando isso os fantasmas realmente parecem transbordar pela tela, mostrando que o filme fez questão de usar elementos técnicos do cinema para divertir o público.

Além das heroínas serem mulheres, ter Kevin (Chris Hemsworth) como o secretário burro combina muito com a quebra de estereótipos que o filme busca fazer. O papel da secretária em geral é sempre da mulher, ainda mais quando é para tirar sarro da inteligência da personagem, então é bem interessante ver um homem nessa posição. Falando nisso, a produção do filme pareceu prestar atenção nos comentários de ódio na internet, porque incluem isso em uma das conversas entre Erin e Abby.

É interessante reparar também que as únicas piadas machistas do jogo, que inclusive são bem pontuais, são feitas pelo vilão da história. Aliás aquele vilão é muito interessante, não só para o filme, como para todo o contexto nerd atual. Sem dar muito spoiler, o vilão seria basicamente uma representação do nerd machista que sofreu bullying na escola e por causa disso se sente no direito de ser preconceituoso com os outros.

Caça-Fantasmas acerta em inúmeros pontos: nos apresenta personagens incríveis e carismáticas, é engraçado, divertido, coloca temas legais na trama e é inspirador para uma nova geração de meninas. O que mais posso dizer? Recomento muito! Não perde tempo e vá assistir!

Originalmente postado em Ideias em Roxo

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