que-horas-ela-volta

ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS, PELOAMORDEDEUS SE VOCÊ NÃO VIU O FILME CORRA AGORA PROS CINEMAS.

 

TEJEM AVISADOS.

 

No novo e incrível filme de Anna Muylaert, parece que foi consenso nacional detestar a personagem Bárbara, a patroa de Val. Não é pra menos, afinal, mandar limpar a piscina, pra mim, é coisa de gente psicologicamente descompensada.

Mas enquanto Bárbara era por assim dizer, mais proativa em suas ações de desprezo a Val e Jéssica, quem mais me causou nojo foi Carlos, o marido inerte.

Artista (?aposentado?) vivendo de herança, se movendo pelas sombras da casa, Carlos se comporta pior que qualquer adolescente babão, ao fetichizar Jéssica no momento em que coloca os olhos na jovem mulher.

Incapacitado de analisar o próprio comportamento – justamente por ter sido incentivado a vida inteira a não se avaliar, mais um privilégio de ser homem – Carlos se esgueira entre os interesses de Jéssica para se aproximar dela, alimentando sua fantasia doente de tocá-la, “seduzi-la”. Um opressor cego, parecendo não perceber a própria fraqueza e justificando-se por trás de um “estou apaixonado”.

Tenho uma perguntinha muito simples em relação a esse ser desprezível. Teria ele se ajoelhado na cozinha em um “pedido de casamento”, beijado o pescoço de Jéssica no Copan, se Jéssica fosse a filha da vizinha da mansão ao lado no Morumbi? Se fosse a coleguinha da escola do filho?

Pois é, claro que não. Carlos se aproveitou, e muito, de sua posição de classe para assediar Jéssica, contando inclusive com o fato de que Jéssica não contaria nada para Val. Mas se contasse também? Que diferença faria? Ele ainda seria o patrão, intocável no alto de seu berço de ouro.

Ainda não aconteceu, mas é bem possível que eu ouça no futuro um “mas ele se apaixonou por ela” assim como já escutei de gente que não entendeu o filme, dizendo que Jéssica foi “folgada”.

Apaixonou coisa nenhuma gente, ele só se aproveitou de uma diferença enorme de posições de poder para alimentar fantasia e fetiche. E mesmo que tivesse se ~apaixonado~, ainda assim, era obrigação dele ficar pianinho, deixando a menina viver a vida dela.

Se existisse o prêmio de pior vilão, pelo menos esse Oscar já tava garantido.

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