O texto de hoje é da nossa convidada Serena Oak. Muito obrigada por topar fazer parte do Collant. <3

Admito que quando fui convidada pela Rebeca pra escrever sobre a Semana da Visibilidade Trans fiquei bastante lisonjeada mas ao mesmo tempo apreensiva uma vez que não me considero uma boa escritora. Me sinto mais confortável com desenhos, cores e formas.

Mas matutando um pouco durante esta semana, e levando em consideração a temática da página, acho seria interessante que deixar aqui uma contribuição, ou ao menos uma opinião, sobre transgeneridade e o mundo nerd/geek.

Não vim aqui pra discutir a velha perseguição infundada, desonesta e desnecessária do feminismo radical às mulheres trans. Se você leitora acredita que mulheres trans não são mulheres “de verdade” ou usa de “divergência teórica” pra destilar transfobia, sugiro fechar o browser e ir pra outra página.

cf71fddd67291c484209e724f33e8e20O Collant Sem Decote tem como proposta colocar questões do universo geek sob o ponto de vista e através da perspectiva das mulheres. Nós mulheres que desde sempre, com exceções pontuais, somos objetificadas e utilizadas como justificativas simplórias pra exaltação do heroísmo e masculinidade (frágil) da maioria dos heróis nas histórias que (apesar de tudo) tanto amamos. Somos geralmente a princesa a ser salva, ou a heroína token übersexualizada que servirá de isca pra venda de merchandising.

Mas dentro desse contexto, como ficam as mulheres trans, tanto quanto consumidoras dessa cultura geek, como personagens inseridas dentro das histórias? Nesse artigo vou procurar discutir um pouco sobre a relação entre a situação dessas duas mulheres e a cultura patriarcal cisnormativa e transfobica que existe na nossa sociedade.

Como criança e adolescente da era pré-internet, nos idos do fim dos anos 80 e início dos 90, se entender como pessoa transgênera era algo muito mais complexo e difícil do que é hoje.
Não havia informação, o preconceito era algo tão pesado que talvez muitas pessoas com menos de 18 anos não façam a menor ideia de como era difícil se assumir fora de qualquer padrão heterocisnormativo. E pra piorar  tudo isso havia uma ausência de representatividade. E mesmo quando havia alguma, era uma representatividade torta e desinformada.

É fato que a imensa maioria de pessoas trans, se descobrem trans, ou ao menos percebem que há uma incongruência com seu corpo e com a forma como são designadas pela sociedade em relação sua própria identidade muito cedo, por volta dos 6 anos, ou antes.

No meu caso, percebi essa incongruência da pior forma possível: violência física, verbal, emocional e moral vindo de colegas de escola, professores e até (lógico) da própria família. Tudo isso tornou-me uma criança quieta, calada e introspectiva, e de certa forma acredito que esse isolamento foi em parte responsável pela minha aproximacão ao universo geek, como forma de escapismo.

b23915747e91bdcba652aee9469b37e8Me lembro que a primeira personagem com o qual me identifiquei, ainda com meus 6 anos, foi a Ariel do filme A Pequena Sereia dos estúdios Disney.

A frustração dela em ser uma sereia, e a luta dela pra se tornar uma menina “de verdade” se encaixava perfeitamente com minha frustração e desejo de poder ser como minhas amigas da escola. Tinha até sonhos repetidos em que era uma sereia e me tornava uma menina. E desde então sempre tive uma fascinação por sereias que dura até hoje.

Entretanto como sendo uma criança designada “menino”, naquela época, qualquer sinal de preferência ou admiração por qualquer coisa relacionada à Ariel (ou algo relativo ao que era considerado “feminino”) era motivo para chacota, violência ou reprovação. Era a cisnormatividade compulsória, um dos braços mais pesados do patriarcado, me esmagando e destruindo qualquer variante a norma cissexista e biologizante que se manifestasse em mim.

Nunca esquecerei da expressão severa e condescendente da minha professora dizendo pra mim: “Você tem um ‘pintinho’, entenda, você não é e nunca será uma menina! Aceite isso!” enquanto me puxava pelo braço e me retirava do banheiro feminino no qual havia entrado com minhas amigas, simplesmente porque até aquele momento, não me via diferente delas. Eu tinha 7 anos, aquilo me destruiu, e eu senti como se ela tivesse retalhado minha alma de uma forma irreversível.

thelegowoman-307A partir desse dia entendi que “eu não era o que eu era”, eu percebi que era diferente, e a partir daí começou um sentimento de frustração, tristeza profunda e auto-ódio que me acompanharia por anos. Eu chorei muito e logo entendi que me abrir ou conversar com meus pais também não era uma opção.
Como única forma de cooptar com a situação, me fechei em mim mesma, no meu mundo de fantasia, onde lá eu poderia ao menos sonhar ou emular ser quem eu jamais seria. Me lembro de brincar de LEGO trocando a cabeças dos bonequinhos onde minha minifigure sempre era uma cabeça de “menina” num corpo e com um cabelo “masculino”.

Toda essa experiência, como já foi mencionado acima, me levou a ter interesse por histórias fantásticas, que me levaram por exemplo a conhecer e me apaixonar por RPG com apenas 10 anos. No RPG eu podia ser uma menina, podia ser uma mulher, uma elfa, uma guerreira, uma feiticeira, podia jogar com um personagem feminina.

Quando tive contato com vídeo games pela primeira vez, escolhia a Chun-Li no Street Fighter, escolhia a Blaze em Streets of Rage, e em qualquer jogo que houvesse a opção de escolher uma personagem feminina, essa era eu.

streets-of-rage-2-character-selectDesta forma, seja no RPG, video games, ou em brincadeiras, podia ao menos dentro daquele contexto hermético e virtual, ser quem eu era.
Mas claro, tudo tinha um preço. Ser “o menino que só joga como menina” era algo que rendeu chacotas, piadas, violência física e bullying, na escola, na família ou entre colegas durante toda minha infância e pré-adolescência.

Até aquele momento eu meio que aceitei que jamais seria na vida real quem eu era de verdade, jamais poderia exteriorizar meu eu interno e estaria fadada a morrer como “homem”, e emular minha identidade feminina em personagens virtuais era a única válvula de escape que estava ao meu alcance para não enlouquecer. Desde jovem, o suicídio já me parecia uma opção.

hqdefault-2Já mais velha, como adolescente, tive o primeiro contato com o conceito de  transexualidade. Vi pela primeira vez que pessoas designadas como “meninos” poderiam se tornar mulheres “de verdade”. Entretanto esse primeiro contato não era nem um pouco inspirador ou positivo.

Na era pré-internet, o único contato que tive com representatividade de pessoas trans, eram de mulheres transexuais e travestis hipersexualizadas, em programas de auditório, filmes ou novelas, que serviam como instrumento de piadas transfóbicas, chacota ou escracho. A “piada” da “trap” (cilada) que “engana o pobre homem cis”, a transformista de palco que recebia elogios por sua beleza, mas este sempre terminava com comentários pejorativos de como ela “infelizmente ainda era ‘na verdade’ um homem”.

Na vida real, meu dia a dia se resumia crescer ouvindo comentários transfóbicos e violentos de pais, tios e outros adultos, sempre que víamos, através do vidro do carro, travestis se prostituindo em esquinas escuras a noite ou piadas de colegas sobre a travesti filha da dona da sorveteria que havia perto da minha casa.

Eu via aquelas travestis e mulheres trans e não me identificava. Não queria aquilo pra mim. Não queria ser prostituta, não me via como “transformista” de programa de palco dominical. Não queria ser alvo de comentários pejorativos, de piadas e risadas constantes. Não me interessava as plumas e paetês.
Queria apenas ser uma menina “normal” como as outras. Queria ser como minhas primas, amigas, tias. Queria ser a Scully de Arquivo X, a Esmeralda em O Corcunda de Notre Dame…d-djali-still-impressed

Queria apenas ser uma mulher com a possibilidade de ser quem eu quisesse sem que isso implicasse em chacota, exclusão, abjeção e abandono. Mas a realidade me mostrava que à essas mulheres que “nasceram homem” só haviam três possibilidades:

O show business e exotificação pras “sortudas o suficiente” por estarem dentro dos padrões cisnormativos de beleza do que se espera de uma mulher;
O salão de beleza e a chacota diária pras menos afortunadas mas com algum apoio familiar;
Ou a prostituição e marginalização pras menos afortunadas.

dana-scully-profileComo adolescente geek, gorda e fora dos padrões, certamente jamais seria a primeira (e também não me interessava a fama), salão de beleza e todo esse universo de maquiagem e moda nunca me interessaram, e ser alvo de piadas alheias também não era motivador. E prostituição definitivamente não era uma opção.

Com isso, pela segunda vez, me fechei. E naquele momento, com pesar, achei que havia enterrado de uma vez por todas, meu eu. E a partir daí, passei a (sobre)viver por inércia, encarnando o personagem “masculino” pelo qual todos me conheciam, colocando a máscara cisnormativa que haviam incutido em mim desde muito jovem, para nunca mais tirar. E de novo o universo geek seria minha única válvula de escape.

Nuriko.full.1144328Posteriormente, em meados de 1993 conheci o universo geek japonês dos mangás e animes. E talvez pelo Japão não possuir um extrato judaico-cristão em sua cultura, foi nesse universo que tive contato pela primeira vez com personagens que fugiam da cisnorma de forma não pejorativa.

Aquilo foi algo que quebrou muitos dos meus paradigmas e a partir daí passei a perceber a importância da representatividade.

Ver como o universo geek japonês lidava de forma muito mais livre e plástica com os padrões de gênero era excitante. Perceber como nesse universo esses padrões eram questionados, invertidos ou simplesmente destruídos em várias personagens poderosos e heroicos como Nuriko (Fushigi Yuugi), Sailor Stars (Sailor Moon) ou Tsubasa (Ranma ½) era algo que me deixava com vontade de conhecer cada vez mais!
3lights04Claro que mesmo nesse universo ainda existiam personagens problemáticos e a velha piada da “trap/cilada” ainda era algo recorrente, (Yuyu Hakusho, estou falando com você!) mas muitas vezes feitas de forma leve ou sem nenhuma carga pejorativa, como em muitas situações hilárias nas histórias de Ranma 1/2 da autora Rumiko Takahashi.
Outra coisa que me chamav muita a atenção nesse universo foi a presença maciça de autorAs. CLAMP com suas histórias (RG Veda, Guerreiras Mágicas de Rayearth, X, etc) repletas de personagens de desafiavam qualquer padrão da tradicional família brasileira estava entre meus favoritos.
Ranma3Era um universo de mulheres desenhistas, de histórias feitas POR mulheres e PARA mulheres. Eram histórias cheias de diversidade, com personagens abertamente homossexuais ou que divergiam das normas cissexistas compulsórias. Haviam personagens não-binários, transexuais, assexuais, gêneros fluidos. Essa variedade presente no universo dos mangás dos anos 90 (mas que infelizmente eclipsada pela avalanche de mangas “moe” voltadas pro público masculino, no mercado japonês atual) foi de suma importância que eu me empoderadasse e começasse, agora como jovem adulta, e experimentar e questionar minha identidade de gênero e os padrões cisnormativos que a sociedade me impunha desde muito jovem. Que em última instância, levaram a minha “saída do armário” como mulher trans e a minha transição, alguns anos depois. E hoje, felizmente, e apesar de todas as dificuldades, sou (quase) a mulher que sempre sonhei ser!
159308Hoje, apesar dos momentos difíceis a toda pessoa trans, posso ser eu mesma, me sinto livre e empoderada e em última instância me sinto feliz.

(Mas ainda há muito a ser feito.)

O que quero concluir com isso? Representatividade importa! E muito! Especialmente num país com o Brasil, onde a expectativa de vida de uma pessoa trans não passa dos 30 anos, e onde 9 em 10 estão em situação de marginalização e na prostituição.

Quantas personagens transexuais representados de forma positiva, onde sua transexualidade não seja o único dínamo de sua personalidade, temos no universo geek mainstream?

Quantos heróis transexuais temos nos filmes, quadrinhos ou jogos?

É muito importante, tanto para o empoderamento das pessoas trans, como para o combate à transfobia e a maior aceitação por parte das pessoas cis, uma maior presença de personagens transexuais, e que estes não sejam estereotipados como “tropes” pro cissexismo patriarcal.

Assim como lutamos para termos mais personagens femininas com consistência, profundidade, variedade e representatividade, ter personagens trans da mesma forma é essencial pra quebrar com as normas patriarcas e machistas na sociedade e no universo geek.

E pra finalizar, lembremos que existe uma variedade enorme de mulheres. Nem toda mulher se encaixa, quer ou mesmo precisa/deve se encaixar em padrões de “feminilidade”. Nomi_Sense8_NetflixExistem mulheres mais “masculinizadas”, existem mulheres hétero, lésbicas, bi ou assexuadas, existem mulheres que curtem e sabem mais sobre Star Wars que muito marmanjo. Existem mulheres de todos os tipos!
Assim também existem as pessoas trans!

Nem toda pessoa trans curte Ru Paul, plumas, paetês, maquiagem e baladas. Nem toda pessoa trans quer modificar seu corpo com silicone. Nem toda pessoas trans está, quer ou precisa se prostituir. Existem pessoas trans geeks, existem pessoas trans que amam RPG, existem mulheres trans que se vestem fora dos padrões de feminilidade (assim como as mulheres cis). E é bom lembrar, nem toda pessoas trans é mulher. Os homens trans EXISTEM!

Quando você foi a estréia de Star Wars, quantas pessoas transexuais haviam no cinema? Com quantas pessoas trans você já se encontrou em suas partidas de vídeo game?

Quantos amigos transexuais você tem em sua mesa de RPG?
(Na minha tem mais uma além de mim mesma)

Nesse dia 29 de janeiro, dia da visibilidade trans, pense nisso.

-Sirena Oak

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