Quando discutimos sobre representatividade sempre pensamos na representação negra. E é um pensamento absolutamente justo já que essa parcela da nossa sociedade ainda é tão mal representada. Mas existem outras minorias etnográficas que passam por problemas de representação muito similares, e é aí que entra Punho de Ferro.

Como nós consumimos muitos produtos vindos do Japão, da China e da Coréia, é difícil pararmos para pensar que essa é uma representação que aqui no ocidente é bem falha. Assim como há casos de blackfaces, há também casos de yellowfaces que me fazem dá um nózinho no estômago. Mas essa não e a única maneira em que a cultura pop falha com essa representação, no caso de Punho de Ferro e Elektra, nós temos o que é chamado de orientalização, quando apropria-se de uma história tipicamente oriental, mas utiliza-se um protagonista branco.

Infelizmente, ao anunciar Finn Jones como protagonista da série que adapta Punho de Ferro, a Marvel correu para esse mesmo caminho de sempre e decepcionou um monte de gente, principalmente tendo em vista o hashtag #AAIronFist, que gerou buzz no ano passado (e que voltou à ativa desde o anúncio).

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Nos quadrinhos, Punho de Ferro é Danny Raid, um garoto branco cujo pai descobre uma cidade mística oriental e ele cresce para se tornar um mestre das artes marciais. Depois de lutar contra um dragão, Danny ganha os poderes do Punho de Ferro.

Como Andrew Weller explicou muito bem no seu texto no Comics Aliance:

É o tropo padrão do branco salvador (white savior), comumente associado à filmes como Dança com Lobos, O Último Samurai e The Help, em que um personagem branco visitante se torna o único que pode salvar uma cultura que é vista como menos civilizada, enquanto ele ou ela aprendem lições importantes a partir da incorruptível espiritualidade dessa cultura. Essas histórias tratam pessoas não-brancas e culturas não ocidentais como playgrounds exóticos para o desenvolvimento de pessoas brancas, aliviam a culpa colonialista transformando culturas indígenas em beneficiários da “descoberta ocidental”, enquanto reduzem as pessoas dessas culturas à props (objetos de cena).

Dar o papel de Punho de Ferro para um ator asiático teria resolvido esse problema, já que haveriam múltiplos aspectos que poderiam ser discutidos dentro dessa mesma história de origem. Danny poderia estar ligado à cidade sagrada por sua ancestralidade, ele seria sim um estrangeiro dentro de uma cultura que não o aceita (vide os relatos descentes japoneses que não são bem recebidos no país), teríamos talvez o primeiro personagem mestre em artes marciais que é, de fato, oriental (olá, Ras-Al Guhl)… Isso tudo enquanto daria destaque à um personagem asiático contando uma história asiática. Com filmes de sucesso no ocidente como Herói e O Tigre e o Dragão, faz pouco sentido que a Marvel tenha decidido ir para o caminho tradicional e tão desconectado com a realidade atual.

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“Oportunidade pedida de fazer Punho de Ferro como a 5ª ou 6ª geração de descendentes de asiáticos, lutando com a identidade cultural na America.”

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“Punho de Ferro é a narrativa febre-amarela-da-orientalização. Um ator asiático teria ajudado a subverter um tropo ofensivo e retomar esse espaço.”

Nos quadrinhos Punho de Ferro pode ser branco, Elektra é grega, mas não é só porque nos quadrinhos é feito de um jeito que isso quer dizer que é a melhor opção, muitos desses personagens foram criados em épocas em que preconceitos e clichês se misturavam no processo de criação. Punho de Ferro nasceu na década de 70, em que os filmes de Kung-Fu explodiram nos Estados Unidos, Elektra é um resquício disso também. A década de 80 nos deu Karate Kid que, apesar de ser um filme muito legal, mostra um garoto branco que aprende Karate em uma semana vencer um garoto que vem treinando a vida inteira. A decisão de não escalar uma atriz com o perfil esperado para Elektra é muito acertada, trás diversidade para uma série que apesar de muito boa é majoritariamente branca. É uma pena que a Marvel não tenha tomado essa mesma decisão com o Punho de Ferro.

É importante que se crie novos personagens, tanto negros, quanto asiáticos e nativo americanos, mas enquanto trabalhamos personagens clássicos como Punho de Ferro, Electra e Homem-Aranha, é também muito importante que se considere essa troca de etnia. Peter Parker branco como um rapaz pobre de NY fazia muito sentido na década de 50, mas hoje em dia esse mesmo perfil poderia ter dado espaço para um Peter latino ou negro, ou mesmo para o já existente Miles Morales. O mesmo poderia ter acontecido com Punho de Ferro.

Numa imagem compartilhada pelo usuário @pizzarobs, no Twitter, nós já vemos como mesmo na década de 70 a imagem de Danny como um garoto branco já era alienante.

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Querida Marvel, Punho de Ferro poderia ter sido um pioneiro, um golpe publicitário. No entanto, é só outro novo super-herói. A Marvel agora tem dois títulos regulares com especialistas em artes marciais como protagonistas. A totalidade de ancestralidade asiática nesses títulos é um-oitavo e pertence, claro, para o símbolo do “perigo amarelo”, Fu Manchu. Marvel continua a se esquivar de protagonistas asiáticos, mesmo quando o coração da história é com base asiática.

A Omissão da Marvel de um personagem herói asiático é reminiscente da falta de protagonistas negros no começo dos anos sessenta. Por muitos anos a consciência racial vem crescendo, e com o sucesso dos filmes de Kung Fu, o problema com a identificação com um personagem como Bruce Lee não existe mais.

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“… nós deveríamos simplesmente refutar a crença de que a branquitude é o padrão básico para o super-herói de quadrinhos.”

Vale destacar que as críticas a escalação de Finn Jones como Punho de Ferro nada tem a ver com a qualidade de seu trabalho como ator. Muito menos ao fato dele ter interpretado um personagem homossexual em Game of Thrones, como eu sei que alguns nerds machistinhas estava reclamando por aí. Ele é um bom ator, ele só não é o melhor ator para o papel.

Abrir espaço para representação é parte importante para manter um universo tão grande quanto o MCU interessante. Enquanto muitos se cansam dos intermináveis filmes da Marvel, outros tantos contam os dias para as séries de televisão da empresa. Daredevil, Jessica Jones e mesmo Agents of Shield (que tem o ~impressionante~número de DUAS mulheres asiáticas) e Agent Carter são séries com representações muito mais interessantes do que a que o cinema nos entrega. Enquanto isso ficamos esperando Capitão América: Guerra Civil, onde os números de três personagens negros e duas personagens femininas para cinco homens brancos e um ciborgue parecem extravagantes.

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“Eu não entendo como você consegue fazer um Punho de Ferro branco em 2016. Já seria complicado mesmo se fosse um personagem asiático” – Nós também não entendemos, Shilary tintin.

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