Puella Magi Madoka Magica definitivamente não é Sailor Moon. Muito menos Sakura Card Captors. E digo isso não porque o anime é ruim – é muito bom – mas porque faz uma releitura do gênero de Garotas Mágicas de um jeito que você nunca viu, ou talvez nunca tenha imaginado. Eu com certeza não estava preparada.

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Madoka Kanami é uma garota comum, com uma família bem estruturada (com um pai “dono de casa”, o que já dá dicas de que a série vai quebrar alguns paradigmas de gênero), com amigas próximas e estudando no que deve ser uma escola legal. Tudo parece tranquilo e ordinário até que ela encontra Kyubey, um bichinho fofo que a oferece a oportunidade de lutar contra bruxas que sugam a energia das pessoas, muitas vezes levando-as ao suicídio.

Parece a história padrão de shoujo com garotas mágicas… Mas não. Em Madoka Magica, garotas adolescentes ganham poderes mágicos quando aceitam um contrato, mas para firmar esse contrato elas precisam fazer um pedido, um desejo que seja tão valioso quanto a vida delas, já que elas podem morrer. Só nisso, nessa possibilidade real de morte, já é possível notar a diferença entre Madoka e os outros animes do gênero: as vidas dessas garotas estão em jogo. Não é como em Sailor Moon que, apesar de tratar também sobre morte em alguns episódios, você nunca tem a sensação de que aquilo é uma coisa definitiva. Em Madoka, uma das preocupações das outras garotas mágicas, é que as novas “recrutas” estejam cientes de que apesar de parecer divertido a aventura também é mortal. Essa, inclusive, é uma lição que vem de maneira dura e rápida.

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O anime chama atenção pela mistura de técnicas de animação. As bruxas contra as quais as garotas lutam não são pessoas, não tem a forma física humana. Quando uma delas aparece as garotas precisam entrar numa espécie de realidade paralela. Elas são representadas por uma mistura de animação tradicional com colagens de imagens reais, como um amontoado de recortes de papel, resultando num visual estético muito interessante. Vale ressaltar que cada uma das bruxas tem elementos que mais tarde revelarão um pouco sobre como elas aconteceram – e o que elas foram antes.

Madoka e sua amiga, Sayaka, tem o poder de escolher se querem firmar o contrato com Kyubey, mas nem todas as garotas possuem essa escolha. Mami, a mentora das meninas, recebeu a proposta em seu leito de morte, estando para sempre condenada a uma vida de caçada – ou a nenhuma outra. Esse peso da decisão que Madoka precisa tomar, o que ela pode deixar para trás, a dúvida se é algo que vale a pena, e o que a demora em decidir pode significar para suas companheiras são fundamentais na construção da personagem.

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Madoka tem um q de Serena, mas o arco da personagem é mais visível e mais centrado em decisões reais. Ela tem medo da morte, uma morte que se torna rapidamente palpável, e ela não consegue pensar em nenhum desejo que tenha que valha a sua vida, que já é bem boa. Esse pé na realidade, de avaliar que a sua vida está segura e boa na maneira que está, é bem balanceada com o desejo por algo a mais. Madoka se encanta com a possibilidade de se tornar uma garota mágica, mas não ignora o terror que pode vir com aceitar esse universo fantástico. Um universo que não é só fantasia e poderes, é cruel.

A partir daqui, Spoilers Alert! 😉

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Kyubey, o mascote da série, tem um design tão fofo quanto Kero ou Mokona, mas diferente dos companheiros de Sakura e das Guerreiras Mágicas, Kyubey é um alienígena que considera as emoções humanas uma doença mental. Ele vê nas garotas o meio para um fim, sem se importar de verdade se elas se sentem traídas pelo contrato que firmam sem saber de todas as letras miúdas que vem com ele.

Depois de terminar o anime (que assisti em uma noite e meus olhos quase rasgaram de dor e lágrimas), pensar sobre ele por alguns dias e ler o texto da Clarice sobre como meninas sempre são consideradas histéricas, fica muito difícil não ver em Madoka uma analogia sobre como uma geração jovem de mulheres vem tomando controle e poder sobre a sua própria narrativa. A raça alienígena da qual Kyubey faz parte, os Incubadores, colhem energia dessas bruxas para manter o universo em equilíbrio, e essa energia é mais forte entre as jovens adolescentes humanas.

Rachel Verret, autora do site The Mary Sue, fez uma análise muito interessante do anime, discutindo psicopatia e feminismo dentro do simbolismo da história. Rachel diz que Kyubey é uma metáfora do ato perverso de tirar da mão das mulheres, no caso jovem mulheres, a direção do seu próprio destino, destituindo-as do seu próprio poder (tanto físico quanto mental) e usando-o para o seu próprio proveito. As personagens tem a opção de fugir e não assinar o contrato, mas essa é uma opção que não existe de verdade. Um paralelo com o modo como nós, mulheres, podemos simplesmente nos recusar a funcionar dentro da lógica patriarcal… Mas não temos essa opção de verdade, já que tudo a nossa volta é controlado por essa lógica.

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As meninas também não conseguem escapar desse universo fantástico que Kyubey abre para elas. Madoka demora a série inteira para decidir se tornar uma garota mágica, mas você sabe desde o começo que ela vai acabar tomando essa decisão. Quando você olha o fantástico é difícil resistir a atração, e dada a oportunidade de ter uma vida fantástica é difícil não ver a sua própria vida, por mais estável que seja, como ordinária.

As garotas matam a elas mesmas. Se não morrem em batalha, sua jóia de alma se corrompe a tal ponto que elas acabam se auto-destruíndo, em desespero, e se tornam as bruxas contra quais antes lutavam. Essa é uma infomação que Kyubey não conta – assim como não revela que as jóias de alma que elas recebem quando assinam o contrato são, na verdade, a sua própria alma, tornando o corpo feito de carne só um recipiente. Sayaka vê essa revelação como a própria morte. Depois de desejar que o garoto por quem está apaixonada se recupere de uma lesão séria, ela não vê como pode pedir para ele beijá-la se ele estaria beijando uma morta viva. É tanto simbolismo em Madoka que a sua cabeça dá duas voltas e precisa de uma terceira para conseguir pegar tudo que o desenho quer te falar.

Kyubey passa o tempo todo ceifando energia dessas meninas, seja ao transformá-la em garotas mágicas, seja ao fazer elas mesmas destruírem-se umas as outras. Madoka está destinada a ser a garota mais forte e, por isso, a bruxa mais poderosa. Quando Madoka finalmente decide firmar o contrato, seu desejo tem que ser o mais altruísta possível, culminando na sua própria destruição, para livrar as outras garotas do trágico fim que toda garota mágica tem: tornar-se bruxa através do desespero.

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Eu não consigo olhar para o arco de Madoka, e em todo altruísmo que as garotas mostram ao longo da história, e não sentir que há uma relação com o modo como nós, mulheres, somos enganadas a achar que precisamos competir umas com as outras, como passamos as nossas vidas presas dentro de um sistema opressor que nos trai a todo instante e, apenas quando nos damos conta dessas amarras, e só quando conseguimos ver que somos irmãs, e não inimigas, conseguimos de fato lutar contra a opressão e verdadeiramente enxergar o inimigo e quebrar um ciclo doente do qual o próprio sistema força a nossa participação. Uma das garotas, inclusive, passa por esse processo de desconstrução, inicialmente centrada apenas nos seus problemas e conquistas, ela acaba vendo as outras garotas como aliadas, como irmãs na luta.

Tem muita coisa que eu deixei de falar, mas o texto já ficou imenso e apesar de ter vendido boa parte dos segredos da série, espero ter te deixado com vontade de assistir a série. Todas as garotas mágicas têm histórias tocantes e eu deixei algumas delas de fora propositalmente. São doze episódios (todos disponíveis no Netflix Brasil), além das adaptações para mangá e longa (que eu não assisti/li), são só seis horinhas que você vai gastar, horas que valem muito à pena. 😉

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