Star Wars, Episódio IV estreou em 1979, ele foi – e continua sendo – um sucesso imenso. O filme trazia uma Princesa Leia no famoso vestido branco com as tranças na lateral da cabeça. No Episódio V, O Império Contra Ataca, Leia estava com um uniforme de batalha que, por mais que fosse branco, era incrivelmente prático e coeso com o seu status de comandante de um exército rebelde. Em 1983 a franquia ganhou seu terceiro filme, Episódio VI – O Retorno do Jedi, e com ele veio uma princesa Léia num biquíni dourado com uma corrente ao redor do pescoço, que ficou conhecida como a Princesa Leia Escrava.

Princesa Leia

Antes desse filme, a imagem que mais se guardava da Princesa Leia era o seu longo vestido branco com as tranças na lateral da cabeça. Depois de 1983 o mundo foi apresentado à princesa Leia escrava e pronto, ela se tornou o default para a representação de uma personagem que é tão importante para milhões de fãs mulheres de Star Wars ou só fãs de sci-fi.

A franquia em si está aí crescendo e deixando todos os fãs cada vez mais apaixonados e interessados. Todo ano um novo grupo de mini jedi’s descobre o filme, as animações ou alguma coisa e se apaixonam pelo universo incrível criado por George Lucas e que hoje reside nas mãos da Disney. Muita coisa mudou desde 1983, e o filme que estréia no final deste ano vai trazer como protagonistas uma mulher e um homem negro, além da capitã stormtrooper. Na segunda trilogia, tivemos Amigdala como rainha e como senadora, uma mulher inteligente e poderosa – por mais que tenha tido um final ruim. MAS, ainda sim, as empresas continuam focando na Princesa Léia Escrava.

8304870_G

Recentemente um caso nos EUA chamou a atenção. Ao chegar à sessão de brinquedos de uma loja, um pai de duas meninas se deu de cara com uma boneca que, além de horrorosa, era da princesa Léia escrava. Não é a Leia diplomata no vestido branco, não é a Leia comandante – é a Leia escrava que continua sendo usada como representação de uma personagem icônica.

Ano passado, durante a Comic Con Experience, a editora Aleph fez uma grande programação para o lançamento da re-edição dos livros de Star Wars no Brasil. O escritor mais famoso da saga na literatura, Timothy Zahn, passou os quatro dias distribuindo autógrafos no stand da editora e atores e atrizes se revezavam na frente dos livros fantasiados como personagens da saga.

Ganha uma laranja quem adivinhar qual era a Princesa Leia que estava representada lá.

Se não estou enganada, coube a duas ou três atrizes diferentes usarem o famoso biquini com corrente no pescoço. O que era constante era o desconforto delas toda vez que algum nerd pedia para tirar foto e, OBVIAMENTE, seguravam a corrente que estava em torno do seu pescoço. De todas as vezes que passei na frente do stand e vi os indivíduos pedindo as fotos, apenas umas três vezes alguém teve a sensibilidade de pedir permissão para segurar a corrente – a grande maioria apenas pegava a corrente que caia próxima à pele das atrizes.

Tanto a escolha da roupa da atriz pela editora, quanto a falta de pudor dos nerds que simplesmente pegavam a corrente para a foto, tem como base um conceito muito simples e raiz de muitos dos problemas do machismo de maneira geral: eles podem, homens simplesmente podem.

Porque escolher a Princesa Léia Escrava? Porque vende, muitos stands em eventos do tipo se utilizam do mesmo artifício. Porque o nerd machistinha padrão vai adorar segurar a corrente da Léia escrava enquanto sorri para a foto – isso se não fizer uma pose esdrúxula como se realmente fosse dono dela. Porque ter uma atriz seminua no seu stand vende, chama atenção. Porque a editora pode – a personagem existe no canon da série, e ela é famosa com essa vestimenta.

Porque segurar a corrente da atriz de Princesa Leia Escrava? Porque dá ao nerd uma sensação de poder, de que aquela mulher é dele, sustenta a sensação de que mulheres são propriedade. Faz do nerd o próprio Jabba The Hut – ou você achava que era o Han Solo naquela foto? Amigo, Han pode ser condescendente pra caramba, mas ele sabe que a Leia não é algo que pertence à ele. Você pode até não se dar conta disso, mas ao precisar segurar a bendita corrente da atriz para bater a foto é esse tipo de afirmação que você está fazendo, que mulheres são propriedade, que são inferiores e que você é melhor por “ter” uma delas.

Leia Escrava e o nerd que insiste em bater foto segurando a corrente.

Leia Escrava e o nerd que insiste em bater foto segurando a corrente.

Leia Diplomata e Leia Comandante do Exército Rebelde estão completamente vestidas e, pior ainda, estão empoderadas. São representações fortes e poderosas de uma mulher que além de princesa é política e guerrerira. Leia Escrava acaricia o ego do nerd que não consegue lidar com a mulher empoderada. Quantas personagens de sitcoms e filmes você já viu dentro de uma fantasia de Leia Escrava para atrair seus parceiros? É a máquina alimentando a máquina.

São sintomas que ajudam a entender porque diabos o universo nerd ainda é tão machista. A resposta está aí dentro, entre “homens acreditam poder tudo” e “a sociedade faz o máximo para que homens acreditem poder tudo”.

Personagens femininas empoderadoras são constantemente diminuídas para melhor caberem dentro do quadradinho que o machismo considera normal. Acontece com a Leia Escrava no biquíni dourado (ESCRAVA utilizada como adjetivo – vai vendo), aconteceu com a Samus e seu infame duas peças, aconteceu com a Hera Venenosa no último jogo do Batman, com a Harley no curta de Bruce Timm. Mas não é apenas a objetos sexuais que elas são diminuídas, Viúva Negra foi usurpada de suas cenas em Vingadores 2 em pró do Homem de Ferro, Jane Foster precisou ficar doente ao se tornar Thor, Gamora foi excluída do merchandising de Guardiões da Galáxia, assim como uma centena de outras personagens que foram desempoderadas em pró do público masculino sensível à personagens femininas complexas e fortes.

Aí quando uma empresa como a Hasbro, a mente brilhante da onde saiu essa monstruosidade de boneca, resolve finalmente lançar algum produto com personagem feminina eles entregam a Leia Escrava. Com uma corrente em torno do pescoço, porque só o biquíni não é suficiente, é preciso lembrar à garotinha que vai querer comprar a boneca que mulheres são propriedade de alguém e, olha que legal, a gente fez uma boneca para celebrar isso. Não celebrar a mulher independente, inteligente e guerreira que a Leia é, mas a escrava.

Amigos nerds, eu não estou dizendo que você não pode achar Carrie Fisher num biquíni dourado sexy, eu estou dizendo que da próxima vez que você vir uma atriz vestida de Leia Escrava, se questione se é essa a mensagem que você quer mesmo mandar ao bater uma foto. Questione os brinquedos e os eventos que insistem numa imagem desempoderada da figura feminina. Se você é organizador de eventos, lembre-se que personagens femininas não existem apenas para agradar o olhar machista, lembre-se que nós somos 50% do público em potencial. Se você é nerd e adora a Leia, aprenda a olhar para ela como a mulher chutadora de bundas que ela é, não como uma escrava. Entenda que, se a indústria só te oferece mulheres seminuas como representações femininas, é porque ela só te enxerga como uma coisa: um adolescente burro que só quer saber de punheta – ela também não te vê como um ser pensante. Aprende a olhar para uma mulher empoderada e vê-la como igual, não como uma ameaça.

Fica aqui um apelo para que, neste ano de “renascimento” da franquia nos cinemas a gente comece a ver mais Leia chutadora de bunda do que Leia escrava. o/

%d blogueiros gostam disto: