Por Carolina Silvestrini.

Pouco depois de ter começado a ler sobre feminismo, coisa que me levou a querer discuti-lo com outras pessoas, comecei a fazer parte de alguns grupos de discussão feministas online.

Foi maravilhoso encontrar outras pessoas que, como eu, haviam desenvolvido um olhar crítico sobre as dinâmicas de poder ligadas ao gênero na nossa sociedade e descoberto que o feminismo é uma alternativa viável e uma luta que vale a pena. Minha timeline era o paraíso da justiça social: eram vozes que se elevavam para afirmar a igualdade entre os gêneros, para lutar contra a homofobia, a transfobia, o racismo e o machismo, para educar, confortar, desabafar. Eu me sentia bem fazendo parte desses grupos, estando entre iguais, podendo falar abertamentamente sobre o meu lugar de mulher numa sociedade que, muitas vezes por má fé, acaba nos deixando sem voz.

Porém, depois de um tempo, eu comecei a identificar certos problemas que, apesar de não me afastarem nem um pouco das minhas convicções como feminista, me deixaram bastante desanimada com algumas facetas do movimento.

Em um dos mil livros que estou lendo para o meu TCC, que tem como tema os problemas de representação das mulheres negras no cinema, encontrei a seguinte dedicatória (traduzida do inglês por mim mesma):

« Eu dedico este livro a todos nós que amamos a negritude,

que ousamos criar em nossas vidas cotidianas

espaços de reconciliação e perdão

onde abrimos mão da dor, do medo e da vergonha do passado

e nos abraçamos.

É somente no ato e prática

de amar a negritude

que somos capazes de nos libertar

e abraçar o mundo

sem a amargura destruidora

e o contínuo ódio coletivo. »

É assim que bell hooks, feminista negra e uma das vozes mais importantes do movimento, abre seu livro Black Looks: Race and Representation, escrito em 1975 (que aliás, você poder ler aqui, se interessar)*.

O problema recorrente que encontrei nesses grupos de discussão dos quais fazia parte, é exatamente aquilo que hooks denuncia com extrema elegância em sua dedicatória. Ao invés de nos focarmos na construção de uma sociedade igualitária, acabamos perdendo um tempo precioso apenas na denúncia das consequências do machismo.

Eu entendo a raiva que muitas mulheres sentem, eu mesma a sinto e a senti por muito tempo, e acredito que essa raiva, essa revolta, são elementos importantíssimos porque eles denotam nossa insatisfação com a ordem atual da sociedade. Nossa raiva é bela e justa, e temos todo direito (e mesmo o dever) de colocá-la para fora depois de séculos de repressão. Mas precisamos ter o cuidado de não cair naquilo que hooks chama de « amargura destruidora e contínuo ódio coletivo ».

A raiva é o primeiro passo, o estopim para a mudança, mas quando ela se torna amargura e rancor, ela perde seu potencial criativo e se torna reclamação infértil. Ela acaba virando um elemento de destruição, e não de transformação.

Eu acredito que o objetivo do movimento feminista seja a edificação de uma sociedade igualitária, onde o gênero, o sexo, a orientação sexual (e também a raça) não sejam pretextos para discriminação, exclusão e violência. Mas isso só vai acontecer se nos propormos a construir essa sociedade, através da educação das novas gerações, de ações que busquem amenizar os efeitos do machismo, e da conscientização das pessoas. Não dá para esperar resultados significativos quando nos contentamos em compartilhar nos grupos de discussão as piadas machistas que aparecem em nossas timelines. Todas nós sabemos que essas imagens machistas existem, e o fato delas aparecerem tantas vezes em espaços supostamente destinados às discussões construtivas apenas fazem com que muitas de nós se sintam impotentes e desanimadas.

O feminismo tem um potencial transformador imenso, como podemos verificar ao estudar a história, mas para que esse potencial se realize ele precisa se firmar em ações positivas.

Não deixemos que a dor, o medo e a vergonha do passado nos aprisionem no rancor — ao invés disso, é preciso que nos utilizemos do feminismo como forma de libertação, sustentação e motivação para criarmos o mundo de igualdade que tanto merecemos.

Você pode encontrar a Carol no blog dela, O Peixe Solúvel.

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