A quem pertence o corpo da mulher?

Machistinha não é nem de longe o termo pejorativo e absurdo que feminazi é. Ele também não é nem de longe suficiente para descrever aquele cara que virou piada internacional ao dizer que o 2014 do símbolo da copa era vermelho por causa do comunismo. Aqui tem um naofo.de do texto, caso você queira ler.

Eu ia escrever um texto sobre o vazamento de imagens íntimas das atrizes de hollywood, ia falar sobre como essa curiosidade com o íntimo feminino é uma construção machista da nossa sociedade. Faz parte do sentimento de propriedade que o homem tem com o corpo da mulher. De como além de não te direito a privacidade, a mulher não tem o direito a sua sexualidade, já que ela pertence ao homem, e não a ela mesma. Esse episódio das fotos nuas das celebridades revela também que não interessa se a mulher é a vítima, ela sempre vai ser julgada.

Aí me apareceu um texto de 14 de julho em que o já comentado blogueiro resolveu atacar o movimento que se espalhou pela internet em que mulheres param de depilar e, por isso, ficam com pernas e axilas muito similares a dos homens. De acordo com o rapaz não há a necessidade de lutar pelo direito de não se depilar, já que não está escrito em nenhum lugar que mulheres, por lei, precisam se depilar.

É lindo esse mundo em que ele vive não?

No mundo do homem a mulher tem vários direitos, entre eles: se depilar, dormir com quantos caras quiser, tirar fotos nuas para si mesma ou para os companheiros/companheiras, ser lésbica, ser trans, ser gordinha ou magricela, assumir seu cabelo crespo, cortar/pintar/raspar o cabelo como bem quiser, beber o quanto quiser, se divertir o quanto quiser, sorrir o quanto quiser, se vestir como quiser. Ela pode fazer tudo isso, mas precisa saber que vai ser julgada. Afinal, nenhum tipo de direito feminino pode oprimir o direito masculino de julgar.

Vamos lá, moças. Vamos ser tolerantes. Tudo o que o cara quer é julgar as nossas pernas, axilas e virilhas cabeludas! Todo mundo tem direito a ter opinião sobre o que a mulher faz com o seu corpo! Que feminazi da nossa parte pensar que podemos lutar pelo direito de sermos tratadas como pessoas, de não ter os nossos pelos considerados anti-higiênicos. Lutar pelo nosso direito de não nos encaixarmos num padrão de beleza que além de limitador é opressor e machista.

Eu me depilo? Sim. Tenho amigas que não se depilam? Sim. Alguma de nós está errada? Não. Já falei sobre isso em outro texto, mas vale lembrar que a depilação feminina é uma construção publicitária do começo do século passado. Até então, mulher era tão peluda quanto homem porque pouca gente parece lembrar, mas nós também somos seres humanos. Durante todo esse tempo criou-se um sentimento de que se a mulher não se depilar, ela é suja, lhe falta higiene, é feio e coisa de homem. Mas é como eu disse lá em cima, somos feminazi porque tentamos reverter a opressão que a sociedade machista impõe sobre os nossos próprios corpos.

É incrível o tipo de reação que acontece quando uma mulher, ou um grupo de mulheres, resolve bater de frente com esses conceitos. Parece fútil se preocupar com o que as outras pessoas acham de você, mas a verdade é que a futilidade está em quem se preocupa em fortalecer esses símbolos de beleza opressora. Eu não estou dizendo que gostar de moda e maquiagem é futilidade, muito pelo contrário, estou dizendo que querer exigir que uma sociedade plural como a nossa se encaixe dentro de um único padrão é não conseguir enxergar além do próprio umbigo. A grande maioria das pessoas não é manequim 36-38-40, a grande maioria das pessoas não tem o cabelo Gisele.

Toda mulher deve ter a liberdade de ser quem ela quiser, peluda ou não, sem que o outro tenha o direito de julgá-la. O corpo é dela e de mais ninguém. Quer se depilar? Manda ver. Não quer se depilar? Manda ver. Eu posso não achar que ter a perna peluda é algo que considere atrativo para mim, mas eu não tenho o direito de julgar ninguém por não querer se depilar. Eu não consigo ficar dois dias sem raspar as axilas. É um conceito de estética que me foi imposto desde nova e que apesar de saber conscientemente que essa necessidade é algo que foi culturalmente construído, eu opto por depilá-la.

A quem pertence o corpo da mulher? A ela, e apenas a ela. A mulher deve ser livre para fazer com ele o que bem entender, seja depilar, seja fotografar, sem que um homem tenha qualquer tipo de opinião ou que tome qualquer tipo de ação para expô-la e humilha-la. Jennifer Lawerance pode estar levando tudo isso numa boa, já que ela parece ser tão bem resolvida, mas isso não dá o direito de roubar e compartilhar essas imagens íntimas. Assim como o blogueiro não tem o direito de julgar as pernas peludas de ninguém. O corpo feminino só pertence a uma pessoa, a própria mulher. São dois extremos diferentes de uma única realidade machista.

Honestamente, eu escreveria uma longa dissertação sobre o porque do alistamento militar obrigatório não ser uma luta feminista, algo que o rapaz blogueiro comentou. Mas a verdade é que este texto é muito além do que uma resposta, e o rapaz deve acreditar também que o vermelho do logo do Google Chrome é, obviamente, uma demonstração do viés comunista da empresa. Então deixa aqui o link para um FAQ Feminista. Lá só não tem a explicação do porque as pessoas ainda levam esse cara a sério.

Aqui tem um texto bem legal sobre as fotos e sobre nós mesmas: Sobre fotos nuas, Jennifer Lawrence, eu e você.

Aqui a Laci Green fala cum pouco sobre o tipo de foto da Jennifer L. que pode ser compartilhada.

(Fica aqui o pedido, provavelmente desnecessário, para que você não compartilhe as imagens dessas atrizes. Perpetuar essa merda toda só ajuda a propagar os sentimento de propriedade maculina do corpo feminino.)

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