Dirigido por Dan Trachtenberg, o segundo episódio dessa temporada, como o nome indica, inclui videogames no enredo. Cooper (Wyatt Russell) é um viajante dos Estados Unidos que está passeando pela Europa. Quando ele começa a ter problemas com dinheiro, Cooper acaba encontrando um emprego em uma companhia grande de jogos. O trabalho é aparentemente simples: Testar a nova tecnologia de realidade virtual.

Esse episódio tem um ambiente muito mais pesado que o anterior. Playtest (Versão de Teste) parece praticamente se passar nos dias atuais. A história vai abordar a questão da realidade virtual, só que em um nível de imersão muito maior do que o que conhecemos hoje em dia. Como um todo, Playtest vai mostrar sobre como às vezes a linha entre o virtual e a realidade fica borrada.

Devo assistir? Playtest tem uma pegada de terror, não é nada muito pesado, mas tem sim alguns sustos, sem contar todo o ar tenso característico desse gênero. Além disso, há alguns momentos em que aparecem aranhas, então é bom saber caso você tenha fobia.

O texto contém spoilers.

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Eu amo videogames, eles sempre foram uma parte importante da minha vida. Quando fiquei sabendo que Black Mirror teria um episódio sobre videogames, fiquei empolgada e com medo ao mesmo tempo. Talvez por causa dessa expectativa tão alta que Playtest não tenha me agradado tanto quando eu achei que fosse. O episódio não é ruim, em geral o roteiro é bem amarrado e as cenas funcionam, fazendo o público querer saber o que vai acontecer. Mas eu não consegui ficar completamente satisfeita quando o episódio acabou.

Cooper é um cara que, quando avaliamos bem como ele vive, percebemos que ele age mesmo como se a vida real fosse uma espécie de jogo. Quando ele conhece Sonja (Hannah John-Kamen), descobrimos que esse jeito dele é por causa da morte recente do pai que tinha Alzheimer. Por isso Cooper parece ter tirado um tempo da sua vida para se divertir, inclusive ignora as ligações da mãe. Com todo o ar do episódio, me parece até uma coisa de “vou jogar aqui um pouco para distrair a cabeça dos meus problemas, mãe não me chama”.

Apesar da relação de Cooper e Sonja parecer um pouco rápida demais, ela é importante para a história continuar. Detalhe: Dos dois, ela é a gamer e ele que não entende muito do assunto, isso fez o episódio ganhar pontos comigo. Não só muitas das referências de videogame são da casa dela, com vários jogos de PlayStation na estante, como é Sonja que mostra para Cooper o anúncio do trabalho na empresa de jogos. Sem dinheiro e sem ter nada a perder, Cooper decide que vai aceitar o trabalho.

Katie (Wunmi Mosaku), a funcionária que vai coordenar o teste, pede para Cooper desligar o celular e assinar o termo para realizar o teste. Quando ela sai da sala, Cooper faz um favor para Sonja: Tira foto da tecnologia nova da empresa e manda para ela, o que é proibido. Quando Katie volta, o teste começa e vemos Cooper tendo que vencer um jogo simples que tem uma marmota.

Depois disso, ele é apresentado para o dono da empresa (praticamente um Kojima), que explica como vai ser o próximo experimento: Um jogo de realidade virtual de terror. Cooper é levado para essa casa abandonada e fica ouvindo a voz de Katie enquanto joga, o que dá espaço para uma referência de Bioshock, inclusive.

Foi muito interessante a escolha de Black Mirror em usar um jogo de terror. Esse é um dos gêneros que mais causa curiosidade nos gamers quando o assunto é realidade virtual. Todo o trabalho de ficção de terror tem como objetivo criar um ambiente seguro para que a pessoa vivencie a experiência. Sabemos que aquilo não é real, por isso no final damos risada das nossas reações. Playtest pega o gênero com esse aspecto e coloca dentro de uma realidade virtual que é bem mais “realidade” do que o que estamos acostumados. Mesmo com o Oculus Rift hoje em dia, quando queremos sair desse espaço, podemos tirar o aparelho. Agora o que fazemos quando o aparelho é um metal preso na sua nuca e o jogo é instalado no seu cérebro?

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Em uma casa que lembra muito o estilo Silent Hill, Cooper vê um valentão da escola e aranhas. Até aí, protagonista e público conseguem diferenciar o real do virtual. As coisas começam a ficar esquisitas quando uma Sonja virtual aparece e tenta matá-lo. Depois disso, Katie guia Cooper pela casa, para algum lugar em que ela possa tirá-lo de lá, mas logo descobrimos que a voz de Katie também é parte do jogo. Cooper chega no ponto de não saber mais o que é real ou não e o público vai junto. O episódio consegue passar bem a experiência de confusão do jogo para quem assiste, que está com medo, tenso e sem entender assim como Cooper.

Depois disso, passamos por uma série de momentos “isso parece real, mas não é. Cooper volta para o último ponto em que teve o jogo atualizado no cérebro”. Isso acontece algumas vezes até que percebemos que nada daquilo foi real, o que aconteceu mesmo foi até a primeira vez que Katie coloca o jogo no cérebro de Cooper. O problema é que naquele segundo a mãe de Cooper liga, o sinal do celular causa uma interferência no jogo e o protagonista morre. Tudo depois disso acontece em um espaço de 0.04 segundos. Aparentemente, ele não foi o primeiro a morrer naquele teste.

A resolução estilo “foi tudo um sonho” deixou uma sensação de “é só isso?”. Essa saída faz com que todo o resto pareça ter sido por nada. Terminando assim, parece que a série está passando a principal mensagem como “Realidade Virtual pode ser perigoso” ou até básico “Desliguem seu celulares quando pedirem” (que inclusive acontece no avião no começo do episódio, o que foi um toque legal), mas isso não é bem Black Mirror. O que faz a série ser tão incrível é ela fazer exatamente o contrário “Olha essa tecnologia, que legal, mas se você der nas mãos erradas…”.

Podemos sim interpretar essas mãos erradas como empresas irresponsáveis, o que é uma crítica muito válida. Nos jogos, os personagens são descartáveis e podemos pensar em como algumas empresas podem encarar as pessoas da mesma forma. O irresponsável ou “mão erradas” pode ser o próprio Cooper, que não prestou atenção nas instruções e sofreu as consequências. Também dá para falar sobre como, tentando fugir da sua realidade, da sua família e da sua mãe, Cooper se enfiou tanto no virtual que acabou nunca mais voltando. Para mim, o episódio acertou em boa parte de sua construção, tanto no gênero terror e até usando bem clichês, como no envolvimento do público com o que está acontecendo. Apesar das inúmeras mensagens que podemos ver, do ritmo bom do episódio e da tensão bem feita, Playtest falha em aprofundar essas discussões e termina tão repentinamente quanto puxar o videogame da tomada (o que pode até ter sido intencional). Dito isso, não foram poucas pessoas que amaram o episódio e o viram como o melhor da temporada.

Para mim, Playtest falha em pontos importantes, o que não faz dele um episódio ruim. Ele funciona bem na maioria das cenas, diverte, tem um ritmo bom e sabe usar o gênero de terror ao seu favor, mas faltou uma preocupação maior em construir a conclusão do episódio e aprofundar certos temas, coisas que fazem Black Mirror ser tão interessante.

Originalmente postado em Ideias em Roxo.

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