Parece uma afirmação óbvia, não? Acontece que muita gente anda esquecendo disso.

Terça-feira, dia 19/01, saiu o novo trailer do filme Esquadrão Suicida. Confesso que não estou muito empolgada para ver o filme, mas esse trailer rendeu todo o tipo de comentário nas redes sociais.

Bem no final tem uma cena em que a Arlequina quebra o vidro de uma loja e se curva para pegar uma bolsa que ela quer roubar, não pude deixar de bufar com aquele enquadramento conveniente na bunda dela. Já estava imaginando o que aquele frame ia virar no dia seguinte e, como sempre, “desapontada, mas não surpresa”.

O debate sobre a roupa da Arlequina (e agora da Magia também) voltou a ganhar força. A Rebeca fez uma postagem maravilhosa na página do Collant no facebook sobre o assunto, então não vou falar especificamente disso. Deixa eu listar aqui alguns argumentos que chamaram minha atenção:

“A Arlequina é dona da própria sexualidade!”

“Por que a Arlequina não pode usar short? Ela gosta e se sente confortável assim!”

“Acho que se a Arlequina quer usar short e salto ela tem que usar mesmo!”

Todos esses argumentos vieram de homens cis. Eles parecem sensatos, não? Uma mulher pode sim usar a roupa que quiser, ser dona da própria sexualidade e, por que não, usar um short e um salto quando outras pessoas prefeririam calças? Aparentemente não tem nada de errado aqui.

Exceto que a Arlequina não é uma pessoa. Ela é uma personagem de ficção. Ela não existe.

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Não, sério, olha a diferença!

Eu já ouvi esse argumento que usaram para a Arlequina com inúmeras outras personagens ao longo de anos que comecei a participar de discussões sobre cultura pop. É sempre a mesma coisa: Temos uma personagem mulher, ela é sexualizada, as mulheres reclamam desse tipo de representação e surgem homens defendendo a roupa da personagem com os argumentos acima. Engraçado que esses são normalmente os mesmos que julgam uma moça na rua de estar com pouca roupa ou não deixam a filha/irmã sair de saia curta.

Não sou grande conhecedora do mundo dos quadrinhos (e sinto que isso será usado contra mim no tribunal), mas um dos meus primeiros contatos com o mundo nerd foram os videogames, portanto é um dos fandom com o qual tenho mais contato. Sabemos que não são poucas as personagens mulheres com pouca roupa na cultura pop, então já cruzei com esse argumento.

O que as pessoas precisam entender é que a Arlequina, assim como outras personagens, não é uma mulher real que escolheu usar short e salto alto. Elas foram programadas e desenhadas com aquelas roupas por outras pessoas e, lembrando que as indústrias de entretenimento ainda são dominadas por homens, é muito plausível assumir que foram homens que escolheram como essas personagens se vestem.

Vou falar de cinema, que foi o que eu estudei. Tive uma matéria na faculdade chamada Direção de Arte, nela nós aprendíamos que desde o cenário até o figurino precisa ser muito bem pensado, a arte do filme precisa conversar com a história e os personagens, não podíamos escolher uma cor ou uma roupa sem explicar para o professor nossas motivações.

Ou seja: A roupa da Arlequina pro filme foi muito bem pensada antes de ser colocada lá.

Como já falei antes, não manjo muito de quadrinhos, mas uma pesquisa rápida no Google me mostrou que a Arlequina tinha muitos outros figurinos do quadrinho para o filme se inspirar, alguns deles até com calças, olha só! Inclusive a minha imagem da Arlequina sempre foi uma das roupas em que ela usava calça. Então por que colocaram ela de short?

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Porque vende. A indústria sabe muito bem que mulheres sexualizadas atraem o olhar de muitos homens e incentiva que eles consumam o produto, é só ver as reações negativas quando descobriram a armadura toda coberta da Capitã Phasma de Star Wars. Também podemos olhar Laura de Street Fighter e Quiet de MGSV, personagens que andam com roupas abertas em contextos que não fazem sentido (não, a fotossíntese da Quiet não é um bom motivo). Vários filmes, jogos, quadrinhos e outras mídias usam dessa sexualidade porque ela infelizmente ainda funciona para muitos.

Eu acho completamente válido termos representações de personagens que se sintam confortáveis com pouca roupa, isso não é o problema, a questão é que muitas dessas personagens estão lutando ou no meio de guerras, que exige no mínimo alguma roupa que possa protegê-las do combate, igual a que seus parceiros homens usam. A verdade é que a lógica da história, que seria a Arlequina usar pelo menos uma calça, fica em segundo plano porque os produtos estão muito mais interessados nos homens que querem ver a bunda dela no filme. Isso porque nem entrei no mérito da Laura ter muito peito e sair pulando nas lutas com uma blusinha.

Arlequina, Quiet, Laura… Nenhuma delas é uma mulher no mundo real que decidiu usar roupas curtas porque se sentem a vontade, elas são criações de um mundo ficcional, dominado por machismo e são usadas e comercializadas de formas que atrairão o público de homens cis e héteros. A indústria ainda acredita que a maioria do público alvo nerd são homens cis héteros (não sei quantas mais pesquisas precisam sair para eles entenderem que isso tá errado), como também acham que está tudo bem reduzir uma personagem ao seu corpo sexualizado e se isso não é machismo, eu não sei o que é. A ficção ainda é um terreno muito preconceituoso, portanto muitos ainda entendem que se existe espaço para personagens mulheres, é só quando elas funcionam em prol do homem.

Vamos parar de acreditar então nessa de “ela escolheu, é dona de sua sexualidade” porque essas personagens não existem, o que existe é uma indústria machista que sexualiza personagens porque sabe que existem fãs machistas que vão fazer memes e comentários desrespeitosos depois. Já tá na hora de melhorar, né?

EDIT: Minutos antes de soltar o texto, cruzei com um texto raivoso de um cara achando um absurdo as reclamações sobre a roupa da Laura, porque é “só um jogo” e “as pessoas querem discutir com profissionais que estão aí há anos”. Sim, há anos usando uma lógica machista pra diminuir minorias e vender a todo custo, mesmo que precise usar artifícios preconceituosos. Migo, se tudo isso é “só um jogo” e portanto não importaria, por que você tá tão preocupado? Tá ridículo vocês chorando com medo de perderem a punheta.

Originalmente postado em Ideias em Roxo

  • Aisha bola de fogo

    eu nunca fui uma pessoa muito boa em expressar minha opinião por textos então vou só deixar isso aqui: S A M B A

  • PRAISE IT SISTER <3

  • Aline Marques de Oliveira

    “Tá ridículo vocês chorando com medo de perderem a punheta.” *batendo palmas*
    ahuHAUhauhUAHuahuAH

  • Celso Stick

    Mas é que essa Harley é inspirada na Harley que aparece e anda com o Esquadrão Suicida, dos Novos 52. Se pesquisar no Google, ela anda sempre assim, de shorts e roupa curta!

    • Fabio Marques Santana

      E daí? O que ela disse sobre o visual da Harley nos cinemas vale para a Harley dos quadrinhos. Além do mais uma personagem pode ser sensual sem apelar e ainda ter calças. Duvida? Olha isso. E o visual dela nestas ilustrações é mil vezes melhor do que o do filme. Por isso o visual da Harley não é apenas machismo. Mas pobreza de criatividade.

      • Kaléo Mendes

        Acho que a quantidade de pano que cobre a personagem não é exatamente o ponto, pelo menos pra mim todas essas imagens são igualmente erotizadas.
        Não vejo problema numa personagem erótica, desde que ela não seja só isso. E desde que isso não seja tratado como normativo.
        Veja bem, todas as garotas do Suicide squad tem trajes provocativos, enquanto os caras andam em trajes de combate.

      • Adonias Galvão Filho

        Desenhada por uma mulher e continua com pouco roupa, porem sem um corpo exagerado.

  • MG4M3R

    Fist of the North Star é uma série criada nos anos 80 que se passa em mundo pós apocalíptico, onde comida e água são escassos.

    Ainda assim todos os homens são sarados e excessivamente bombados com barba e cabelo bem feitos, vestindo roupas coladinhas que se rasgam completamente em todas as lutas para expor melhor o corpo sexy dos personagens.

    Imagine que droga se tivesse que haver alguma explicação razoável pra isso tudo, além de ser algo feito para o público alvo consumir?

    A realidade é que tudo é válido no mundo do entretenimento, nada precisa de justificativa, não existe “forma errada”.

    Se o tipo de conteúdo não agrada, ele não será consumido, consequentemente não será rentável e deixará de existir.

    Tendo total liberdade, a tendência é a industria de entretenimento sempre refletir o gosto do público.

    • Collant Sem Decote

      Homem semi-nu nos games/quadrinhos não vende sexualidade, vende masculinidade. O público alvo é o mesmo, o masculino.

    • Collant Sem Decote

      E essa coisa de dizer que não precisa de justificativa é ignorar que nenhuma obra artística, seja HQ, filme, Tv ou game funciona dentro de um universo real. Qualquer coisa produzida gera um efeito e bater sempre na mesma tecla, no caso a sexualização de personagens femininas, as torna objeto e desumaniza as personagens.

    • Kaléo Mendes

      Concordo parcialmente com teu raciocinio. Não é preciso ter uma praticidade/verossimilhança pra uma obra de ficção funcionar. Acho que o problema é o desequilibrio nesses vícios da industria. A balança pende muito mais pra o lado dos homens, e só com muito barulho do público feminino é que as coisas estão se nivelando aos trancos e barrancos.

      “Se o tipo de conteúdo não agrada, ele não será consumido, consequentemente não será rentável e deixará de existir.” Esse argumento tem lógica somente quando engobla o público que já é contemplado. Tipo, se as mulheres fossem seguir esse teu conselho nos anos 90 elas basicamente teriam que excluir tudo que a gente curte. Tudo, não sobra nadinha. E meio que foi isso que elas fizeram já que não era comum garotas curtirem super-herois nessa época.

      Não vejo problema em existirem coisas “pra menino”. Excludentes mesmo, tipo Lobo e Deadpool. Clube do bolinha total. É missogino e incorreto? É, mas pelo menos é escancarado.
      O foda é que 99% dessa industria de ação é tão misogina e politicamente incorreta quanto o Lobo, só que de um jeito sútil e cínico. Quando uma personagem feminina é criada ela não contempla as mulheres. Ela é feita de homens para homens.

      Só que a gente não vê se ninguém nos der uma sacudida. Pois somos o grupo favorecido.

      • Collant Sem Decote

        Olha, parte do problema do “para menino” e “para menina” é que nos mantém dentro de um estereótipo de gênero que, por mais que seja pior para as mulheres, também atinge os caras. Ou seja, você me diz que Lobo é para caras, mas conheço minas que gostam. Falam que My Little Poney é coisa de menina, aí o garotinho que gosta se sente mal por gostar e, juntando com todas as outras limitações que se impõe ao longo da vida, passa a achar que o que “é de menina” é ruim e faz dele fraco. Acho que essa divisão entre Bolinha e Luluzinha na cultura pop não ajuda ninguém.
        Quando uma coisa é misógina ser escancarado não ameniza, na real só mostra o quão normalizada é a misoginia. Não consigo ver isso como um apaziguador, muito pelo contrário, já que essa normatização ajuda a sustentar uma visão negativa do feminino.
        Sobre “não era comum garotas curtirem super-heróis nessa época” esse argumento também é bem problemático. Há milhares de relatos de meninas que curtiam super-heróis loucamente na década de 90 – eu sou uma delas – mas não se sentiam seguras nem bem vindas na comunidade para discutir isso com alguém. Passei infância e adolescência gostando de super-heróis e achando que estava sozinha, foi só quando adulta que encontrei as outras minas que passaram pela mesma coisa. Se o mercado é excludente isso não quer dizer que elas não existam. Aprendi a jogar video game e ler quadrinhos com a minha mãe. 😉

        A mudança vai acontecendo de vagar, mas vai acontecendo. É importante que o número de minas por trás da produção desses quadrinhos, filmes e etc aumente, é preciso que o mercado, tanto consumidor como produtor, force um nivelamento nessa representação de gênero.

        • Collant Sem Decote

          Ah! Nã é a Clarice que comentou, mas sim a Rebeca. 😉

  • “Tá ridículo vocês chorando com medo de perderem a punheta.”
    Melhor frase <3

    E é foda porque você fala, explica, e logo aparece alguém pra dizer "ah, mas ela usa short na HQ tal". Porra, QUEM fez a HQ tal?

  • Thales Ayala

    O problema é que, infelizmente, a industria de quadrinhos sempre foi algo de garotos feito para garotos. Todas as personagens são construídas para se enquadrarem ao imaginário de um garoto de 13 anos.

    Da mesma forma que a imagem do príncipe encantado, do homem capaz de se sacrificar e passar por cima de tudo pra fazer sua mulher feliz, ou até mesmo do super macho chutador de bundas e guardião da honra feminina também são posições que nos foram impostas.

    Graças a Odin quando vocês mulheres começaram a se interessar, gostaram de quadrinhos e se mostraram participantes o suficiente é que a cultura geek pôde ser modificada, representando vocês de formas mais verídicas.
    A única parte que não concordo é a citação da personagem Laura, até porque Zanguief até hoje luta de cuequinha, Ryu vai ganhar o visual descamisado e assim por diante.

    Então joguem mais, leiam mais quadrinhos e etc, porque além de poder dividir coisas que sou apaixonado sem serem vistas como coisas de criança, personagens femininas mais interessantes e realistas vão surgindo.

    • Concordo com a maior parte do comentário, mas a indústria de quadrinhos não foi sempre assim.

      Já teve muito mais diversidade, de temas, de personagens, de artistas e de públicos.

      Foi a censura do Comic Code Authority que destruiu essa diversidade e padronizou as histórias como sendo algo “para garotos de 13 anos”.

      Esse texto (em inglês) explica melhor como isso aconteceu:
      http://www.buzzfeed.com/saladinahmed/how-the-comics-code-killed-the-golden-age-of-comics

    • Collant Sem Decote

      Cara, Zanguief e Laura vendem duas coisas diferentes mas para o mesmo público.
      Laura vende sexo, Zanguief vende masculinidade exarcebada – os dois são para o público masculino, não para o feminino.
      E ess masculinidade exarcebada é responsável pelo conceito de “macho”, um ideal impossível de alcançar a que os caras são impostos desde o Max Steel até James Bond.

      Ah! E nós lemos quadrinhos, jogamos videogames e etc há muitos anos, tanto quanto vocês na verdade. A diferença é que antes não tínhamos nos unidos, antes tínhamos medo de uma comunidade que nos excluía. Tá cheio de relatos de minas que lêem, jogam e etc desde novas. Eu mesma aprendi a jogar e ler quadrinhos com minha mãe. A diferença é que agora nós nos descobrimos e estamos forçando uma mudança. 😉

      -Rebeca

  • Pedro Fanti

    bom texto.

    sexualizem mais os homens também pfv, não quero perder a punheta. D=

  • jordalba

    Concordo com muita coisa que você disse, mas o criador de metal gear: Hideo Kojima não é machista, ele é sexualista. Em Metal Gear 2, por exemplo, nós jogamos com Raiden pelado em um momento, e sempre há um foco em bunda e uma sexualização do personagem. O problema é que aqueles fãs que defendem o direito da mulher, caíram em cima dele por causa de um personagem masculino sexualizado! Todos os outros jogos são machistas, agora Kojima dentou ser diferente.

    • jordalba

      Quando digo fãs que defendem o direito da mulher, quero dizer o direito listado acima, o de usar a roupa que preferir

  • Adonias Galvão Filho

    Primeiramente esse assunto realmente tem de ser debatido, porem tenho de defender desing da Arlequina, se não me engano atualmente ela faz parte da linha “feminina” da DC e é desenhada por uma mulher, mas mantem a mesma aparência que deveria ser somente para agradar o publico masculino, imagino que seja tanto para refletir a personalidade da personagem(ela é um tanto surreal: maluca e usa uma marreta como arma) e por ter um publico feminino que gosta dela assim.
    Se fomos analisar o filme temos uma coisa interessante, o Coringa, com certeza essa é versão mais sexualizada do personagem e ele tem toda sua relação de criação com a Arlequina, isso mostra pelo menos um sexismo menor e uma contextualização minima para o filme.

    Eu não escrevo bem, então perdões algum erro ortográfico ou termo usado incorretamente.

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  • Marcos Correia

    Justificar o injustificável. Essa parece ser a missão de vida dessa galera que não enxerga o duplo padrão utilizado na caracterização de personagens fictícios em HQs, filmes e games, e sai falando besteira em comentários internet afora quando alguém aponta o óbvio.

    Tá lá o marombado fodão, com armadura até na orelha, pronto pro combate e a menina, coitada, de biquíni e cinta-liga. Faz “muiiiiiiiiito sentido”.

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