Recentemente, eu decidi ler Perdido em marte de Andy Weir, obra que baseou o filme de mesmo nome, dirigido por Ridley Scott e estrelado pelo querido-mas-andou-cagando-no-maiô-com-declarações-esquisitas Matt-Damon.

As mudanças de uma narrativa para outra são consideravelmente pequenas e sutis e a mensagem do livro foi bem expressa, não tem como negar que foi uma boa adaptação. Foi tão boa inclusive, que em alguns pontos, superou o livro, quando se trata de representatividade feminina.

A equipe de astronautas é comandada por Melissa Lewis, uma mulher pragmática, confiante e aficionada pelos anos 70. Também temos a engenheira de software, Beth Johanssen, cujos papéis, tanto no livro quanto no filme, são bem secundários, mas precisos e úteis.

Também temos Annie Montrose, a assessora de imprensa e chefe de comunicação da Nasa e e Mindy Park, a engenheira que descobre por meio das fotos de marte que Mark Watney está vivo. No livro, essas duas mulheres tem atuações bem mais ativas, afinal a história do livro é bem mais detalhada, mas elas estão lá. Como Andy Weir as criou.

Eu digo isso pelo seguinte: nenhuma mulher que esteve no livro faltou no filme. Mas alguns homens estão faltando, dando espaço para mais mulheres.

Em uma cena crucial > SPOILERS < uma cientista chinesa, com uma aura impecavelmente profissional, aconselha seu chefe a oferecerem a sonda chinesa que estava sendo preparada para outro projeto como ajuda para resgatar Watney. No livro, essa cena se passa entre dois homens.

Chen Su, atriz chinesa

Chen Su, atriz chinesa

Ela possui apenas algumas falas, mas depois de ler o livro, fiquei surpresa e levemente impressionada. Porque era tão fácil fazer a cena entre dois homens mas alguém preferiu que uma mulher chinesa tivesse uma boa ideia para salvar um astronauta americano. Por alguns segundos, foi proporcionado à plateia uma nova face da China, com mulheres ascendendo a cargos importantes dentro dos órgãos governamentais. Pudermos ver uma chinesa ser uma tomadora de decisão, pudermos ver uma profissional com todos suas propriedades, convencendo seu chefe a mudar a parte da história entre EUA e China. Dentro da ficção, realmente, mas ainda é extremamente positivo.

E o clímax do filme é totalmente protagonizado por uma mulher. Pasmem vocês, no livro é Beck, aquele astronauta que não é o latino nem o alemão, quem resgata Watney no espaço. No filme, a cena toma proporções emocionais fortes, pois resgatar Watney era algo essencial, crucial para Lewis. Ela se sentia inteiramente responsável pelo abandono de Watney, mais do que certo que ela o segurasse pelos braços, e dissesse “I got you” – “te peguei”.  Vejam vocês, eu não nego que Beck teve que ser totalmente colocado de escanteio, tanto na sua participação como seu desenvolvimento como personagem, mas que bom que ele foi. Homens brancos héteros e cis não é o que faltam nesse filme – o protagonista, com quem interagimos 70% do filme – é assim. É realmente satisfatório que uma mulher tenha salvo o dia (de diversas formas, pois ela ainda comandou toda a missão de resgate).

Essas pequenas boas decisões tornaram o filme mais inclusivo e diversificado do que o livro. Não que o livro seja ruim, ao contrário, o livro é muito dinâmico, bem escrito e viciante (apesar de algumas piadas a custas de mulheres que poderiam não existir).

São essas pequenas boas decisões, que dão início à tão necessária transformação da diversidade. E qualquer filme pode fazer isso, é só pensar “é realmente necessário que um homem branco execute esse papel?”.

Eu sempre gosto do exemplo do filme das Tartarugas Ninjas, de 2014. Esse filme passa no Teste Bechdel, de um jeito simples: a chefe-editora do jornal onde April trabalha é uma mulher mais velha e negra, interpretada por Whoopi Goldberg. Era tão fácil April ter um chefe homem e branco, facílimo. Mas aí eles tomaram essa pequena boa decisão, April tem uma discussão sobre publicar uma matéria sobre tartaguras que lutam artes marciais em um jornal de respeito e ta-dá, duas mulheres, com nomes, falando por mais de 5 minutos sobre algo que não seja homens.

não vou publicar sobre répteis ninjas adolescentes, tá loka

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Então é, se Tartarugas Ninja consegue diversificar nos papéis, não estamos pedindo aos estúdios para que escalem o Everest.

Que as pequenas boas decisões se tornem grandes!

Enormes!

Colossais!

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