Autora Convidada: Bárbara Prince

 Esta é a história de um verão em que eu fiquei viciada em um desenho animado. Um desenho que acabou, deixando meu coração mais feliz e cheio de vontade de espalhar fãs dele por aí: uma maravilha produzida pelo Disney Channel, chamada Gravity Falls.

O desenho conta a história dos gêmeos Mabel e Dipper Pines. Aos 12 anos, os dois californianos estão viciados em tecnologia, e por isso os pais os mandam passar o verão em uma cidadezinha no interior chamada Gravity Falls, longe de celulares e videogames. Quem os recebe é seu excêntrico tio-avô Stan, dono da Cabana do Mistério, uma armadilha de turistas que visitam a cidade em busca dos fenômenos sobrenaturais pelos quais ela é conhecida. Mas logo no primeiro episódio as crianças descobrem que nem tudo é farsa – de fato, há coisas muito estranhas acontecendo em Gravity Falls, coisas que despertam o interesse de Dipper e o incitam a investigar os mistérios da cidade.

A partir daí, só coisas loucas acontecem no desenho, que é um prato cheio pra quem gosta de histórias sobrenaturais. Os episódios são divertidos e cheios de aventura, mesmo quando as coisas dão muito errado para os protagonistas – sempre em tramas envolvendo zumbis, gnomos, unicórnios, dinossauros, fantasmas, sereias etc. Pense em qualquer monstro ou esquisitice|, e você vai encontrar em Gravity Falls!

Cada o episódio tem um arco fechado, mas uma trama maior (e muito incrível) vai surgindo à medida que alguns segredos de Gravity Falls começam a se encaixar e ajudam a desvendar um grande mistério. Gosto muito de como a série vai esquentando e despertando cada vez mais curiosidade ao longo de suas duas temporadas, até se fechar numa história envolvente e sem pontas soltas. Lá pelos últimos episódios, eu já estava tentando pensar à frente dos personagens para solucionar seus problemas, e vibrando a cada ameaça que eles conseguiam derrotar.

Mas o mais legal são os personagens. Ao longo da série, vamos conhecendo os habitantes de Gravity Falls, que têm diferentes personalidades, tipos físicos e comportamentos, e criam no espectador uma familiaridade parecida com a que sentimos ao assistir Os Simpsons. E é muito bom ver que mesmo os personagens que se encaixam em estereótipos os quebram de alguma forma. Soos, um homem gordo e muito atrapalhado que mora com a própria avó, é respeitado pelos protagonistas e se torna amigo deles. E Wendy, a adolescente com ar meio grunge por quem Dipper tem uma paixão platônica, em momento algum é acusada de tê-lo colocado na famigerada “friendzone”. O relacionamento que esses e outros personagens têm com os protagonistas evolui aos olhos do espectador de uma forma muito gostosa de ver.

A família Pines, é claro, merece destaque. Mabel, minha personagem favorita, é uma garota alegre, criativa e cheia de energia e carinho para distribuir a todos. Sempre bondosa, pensa muito nos demais e é pró-ativa e muito divertida, mas também sofre e passa por fortes crises de identidade e autoestima. Ela nos lembra que mulheres não precisam ser pilares estáveis de força para suas famílias, e principalmente que a força de uma personagem feminina não precisa estar em seu físico nem na capacidade de combate. Muitas vezes é seu irmão quem mais se envolve na ação do episódio, mas isso não diminui a importância e a participação de Mabel, que coprotagoniza o desenho com ele. Aliás, tão cativante quanto ela é o fato de que Mabel e Dipper claramente se amam – ao contrário de qualquer clichê televisivo, esta não é uma série em que o irmão esperto e a irmã brincalhona se odeiam e vivem tentando fugir um do outro.

O desenho mostra verdadeiras crises familiares, com assuntos um pouco incomuns e com sensibilidade inusitada para uma comédia animada – os personagens guardam rancores, se magoam e aprendem uns com os outros, desenvolvendo arcos bem trabalhados e crescendo ao longo das temporadas. Todos os Pines passam por esse desenvolvimento, inclusive “tivô” Stan, sobre quem não vou falar muito para não correr o risco de dar spoilers.

A exemplo de contemporâneos mais famosos, como Hora de aventura e Apenas um showGravity Falls é interessante tanto para crianças como para adultos. O roteiro é criativo e bastante atual, conseguindo encaixar temas como o fim da infância, desilusões amorosas, imposição de papel de gênero e empoderamento feminino. Tudo isso é retratado em meio a diversas referências nerds, além de a série acabar criando os próprios ícones – o meu favorito é o vilão Bill Cipher, que pode ser definido como um “Beetlejuice de Night Vale”.

A primeira temporada está disponível no Netflix! Se ainda não te convenci, vou apenas deixar este gif e torcer para que ele sirva como meu argumento final:

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Bárbara Prince é uma editora multitarefas: se exercita enquanto lê, borda enquanto assiste desenhos. E emite várias opiniões sobre livros no www.blogsemserifa.com

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