Erroneamente, é possível encontrar em festivais literários ou até mesmo em artigos de jornais a colocação de literatura africana como literatura marginal ou periférica. Isso ocorreu esse ano, na 12ª Feira Nacional do Livros de Poços de Caldas, que teve uma mesa-redonda nomeada por “Mulheres na Literatura Marginal/Periférica”, tendo como debatedoras Luz Ribeiro, Mel Duarte, Roberta Estrela D’alva – escritoras brasileiras que fazem parte da chamada literatura marginal ou periférica –, e Paulina Chiziane, escritora moçambicana que é considerada cânone tanto nos países de literaturas africanas em língua portuguesa quanto na tradição de escrita de autoria feminina africana.

O que leva um evento de tão grande porte colocar uma escritora como Paulina em uma mesa que pouco – ou nada – tem a ver com sua história literária? Talvez o motivo, de modo bastante preconceituoso, deva ser o fato de todas essas escritoras serem negras e, dessa forma, serem vistas e lidas com uma trajetória parecida.

É assim que retornamos à afirmação feita no começo do texto: é errôneo colocar literaturas africanas na mesma caixa da literatura marginal. Se isso é feito é porque, infelizmente, apesar de ser fácil encontrar livros de escritores africanos nas livrarias, ainda é difícil, mesmo com a lei 10.639/03, que fala sobre a obrigatoriedade do ensino de cultura e história africana e indígena nas escolas e universidades brasileiras, ver pessoas que se interessam por literaturas africanas. E literaturas africanas está no plural porque, afinal de contas, há 54 países no continente africano, cada um com inúmeras peculiaridades que os fazem diferentes entre e em si.

Além disso, não podemos nos esquecer de que o Nobel de Literatura já foi entregue para quatro escritores africanos, tanto da chamada África setentrional, a parte norte do continente, quanto da África subsaariana, que é toda a parte que se encontra abaixo do Deserto do Saara.

 

Os países com um livrinho foram os que receberam o Prêmio Nobel de Literatura: o nigeriano Wole Soyinka foi o primeiro, em 1986; o egípcio Naguib Mahfouz o segundo, em 1988; e os sul-africanos Nadine Gordimer e J. M. Coetzee foram, respectivamente, o terceiro, em 1991, e quarto, em 2003, a ganharem o Prêmio.

Sendo assim, para sair dessa nomenclatura um tanto preguiçosa que andam dando às literaturas africanas é que essa lista foi feita. Todos os livros aqui sugeridos podem ser encontrados em sebos ou livrarias:

 

1. Niketche, uma história de poligamia – Paulina Chiziane

Paulina foi a primeira mulher a escrever um romance em Moçambique. Enfrentou o preconceito da sociedade que não aceitava que uma mulher pudesse escrever. Ainda mais escrever sobre amor, sexo e desejo, algumas premissas que são encontradas em seus livros.

Infelizmente, só temos um livro publicado dela no Brasil, Niketche, uma história de poligamia, que mostra a protagonista Rami tentando reconquistar seu marido, o comandante de polícia Tony. Cansada de ser humilhada pelo marido, Rami decide ir atrás do que ela pensa ser o problema de seu casamento: Julieta, amante de Tony. Todavia, ao chegar na casa de Ju, Rami descobre que Tony possui outra amante e, indo de casa em casa, o que antes era uma monogamia, torna-se uma poligamia representada por um pentágono.

 

2. Americanah – Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda é nigeriana e tem inúmeros livros publicados no Brasil, então não vai ser difícil encontrá-la! Aqui indicarei o primeiro que eu li e que me conquistou.

Americanah conta a história da nigeriana Ifemelu que se muda para os Estados Unidos para terminar os estudos. E é nesse país estrangeiro que Ifemelu se descobre como mulher negra e o que isso implica na sua vivência.

 

3. Amargos como os frutos: poesia reunida – Ana Paula Tavares

Como o próprio nome diz, Amargos como os frutos é uma antologia de toda produção poética da escritora angolana Paula Tavares, que também escreve crônicas. Sua poesia é marcada por um forte apelo erótico e por tratar da mulher mumuíla, da comunidade Mumuíla, na província de Huíla.

 

4. Mayombe – Pepetela

Assim como Paula Tavares, Pepetela é angolano. Mayombe foi escrito em 1971, ainda durante a guerra de independência de Angola contra a ocupação portuguesa. Apesar do momento eufórico de celebração para um futuro possivelmente melhor, o livro é marcado por uma espécie de disforia, o que dá o tom um pouco adivinhatório da desesperança que assolaria o país alguns anos após a independência. Além disso, ele foi publicado apenas em 1980.

A história narra o cotidiano de um grupo de guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), mostrando os conflitos internos de cada personagem.

 

5. Aya de Yopougon – Marguerite Abouet

HQ que ganhou o Prêmio de Melhor álbum de estreia no Festival Internacional de HQ de Angoulemê, em 2006, Aya de Yopougon conta a história de três amigas que vivem em Yop City, subúrbio de Abidjan, capital da Costa do Marfim. Assim, saindo do clichê do continente africano marcado pela fome e guerra, vemos que a vida dessas três amigas, assim como de qualquer adolescente, é marcada por dilemas como amor e dúvidas sobre o futuro.

Infelizmente só duas edições foram publicadas no Brasil, mas mesmo assim vale muito a pena ler!

 

Aguardem a segunda parte da lista!

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