Autora convidada: Joana Fraga.

Texto originalmente publicado no Dere Project

Infelizmente, nossa sociedade ainda é pautada em uma estrutura misógina baseada na perspectiva binária das identidades de gênero e seus papéis. Impor diferentes lugares e comportamentos para cada gênero e oprimindo o que não se encaixa. O Japão não é um exceção, de fato, é um estudo em contrastes.

Durante uma certa tarde de outubro, chegou a minha atenção que o mais novo trabalho de Akiko Higashimura foi suspendido devido a críticas online. A autora, que já tem um trabalho de relativo sucesso no mercado (Kuragehime), criou uma história sobre homens financeiramente dependentes das mulheres.

“Sem dinheiro, impopular, desempregado. Já que eu sou um inútil, vou me tornar um ‘himo’! A cortina se abre para o dojo de treinamento de himos de Akiko Higashimura! Um himo é um homem que não trabalha e é financeiramente dependente da mulher com quem ele se relaciona. O site do Jornal Asahi ainda acrescentou que ela criou o mangá junto a seu assistente masculino e outros homens em volta dela como modelos. O jornal ainda acrescentou que críticos acusaram Higashimura de “diminuir o seu assistente e os outros homens”. 

(Traduzido do Inglês de:http://www.animenewsnetwork.com/news/2015-10-26/himo-zairu-manga-goes-on-hiatus-due-to-online-criticism/.94631)

Agora, é interessante analisar esse tipo se reação. Por que os homens se sentiram tão incomodados com essa história em especial, ao ponto de suspenderem sua publicação? A resposta é simples: Himo Zairu é um mangá shoujo (com uma roupagem de mangá seinen, pela revista que publica) que não seguiu as regras. 

Vamos por partes: O Japão é um estudo em contrastes. Enquanto possui uma forma de arte tão libertadora quanto o mangá, a sociedade parece não conseguir acompanhar: enquanto o mercado de mangás é um ambiente extremamente vasto e variado, cheio de trabalhos de vários tipos, a sociedade japonesa ainda é muito conservadora quando o assunto é papéis de gênero (Conjunto de normas sociais que definem comportamentos socialmente aceitáveis para uma pessoa baseado na sua identidade de gênero.)

Atrevo-me a dizer que é ainda mais conservadora que a sociedade ocidental de uma maneira geral. Então como pode um mercado que publica trabalhos com teores que a sociedade ocidental ainda tem dificuldade de aceitar (personagens LGBTTQ protagonizando suas próprias histórias, mulheres como protagonistas das suas próprias aventuras, vários tipos de fantasias sexuais não-convencionais, etc) pode ser tão conservadora ao mesmo tempo?!

A resposta é simples: o mercado de mangás vende uma falsa ideia de diversidade enquanto continua reproduzindo os mesmos valores conservadores e sexistas.

Nem é preciso ser um leitor ávido de mangás para notar isso. Vamos dar uma olhada em algumas das “categorias de mangá” utilizadas atualmente e o que elas significam:

SHOUNEN MANGA (少年漫画 shōnen manga?) mangás que tem meninos como público-alvo.

SHOUJO MANGA (少女漫画 shōjo manga?) mangás que tem meninas como público-alvo.

YAOI/BL (/ˈjaʊi/, Japanese: [ja.o.i]), também conhecido como BL, são mangás que focam no relacionamento romântico ou sexual entre dois homens, mas tem mulheres como seu público-alvo principal.

Estritamente falando, esses não são exatamente gêneros literários. O mercado de mangás separa os títulos pelo público-alvo. Enquanto a sociedade ocidental sofre com a falta de representatividade de minotias utilizando gêneros literários como método de separação de títulos (Romance, Ação, Aventura, Thriller, etc) e considera o Protagonista Homem, Branco e Hétero como o personagem básico Universal que todos consomem, o mercado de mangás tem dificuldades em sair dos estereótipos que são forçados em cima de seus públicos-alvo, reforçando papéis de gênero e preconceitos que já deveriam ter sido superados.

O foco desse artigo será os papéis de gênero assumidos dentro dos mangás shoujo.

Yurikuma Arashi

Yurikuma Arashi

O mangá shoujo atinge especialmente jovens meninas entre 13 e 18 anos. É um mercado predominantemente de mulheres, desde suas autoras até os leitores. Essa separação tão óbvia leva a perguntas comuns: o que meninas gostariam de ler? O resultado disso é uma vasta maioria de mangás shoujo açucarados, com romances de ensino médio e personagens estereotipados.

Se você, caro leitor, consome mangás shoujo com certa frequência, já deve ter se deparado com uma dessas frases pelo menos uma vez:

Você não pode [insira qualquer razão/ação aqui], você é uma garota!

Eu tenho que/vou te proteger.

Garotas tem que ser fofas/bonitinhas!

Temos aqui uma comprovação textual de três problemas que nossa sociedade sexista encontra todos os dias e que os mangás shoujo insistem em reproduzir de maneira bastante, BASTANTE sutil:

1. A ideia de que as mulheres são de qualquer maneira físico ou emocionalmente incapazes de realizar algo porque elas são mulheres ou deviam ou fazer algo ou agir de certa maneira porque elas são mulheres. Isso é tão sutil e enraizado dentro dos mangás shoujo que se você não quiser notar, você não vai.

Yurikuma Arashi:

Yurikuma Arashi:

2. A ideia de que a mulher precisa ser protegida. O relacionamento homem-mulher é o carro-chefe dos plots de mangás shoujo. É muito raro um mangá dessa categoria que não representa essa relação. A visão da garota que quer ser protegida e o personagem masculino “forte” que a defende é um dos estereótipos mais comuns do mangá moderno. Esse arranjo comumente resulta em um personagem masculino excessivamente dominador.

A visão do personagem masculino dentro dos mangás shoujos tem desenvolvimentos interessantes para dizer o mínimo. É possível resumir 90% dos personagens em dois espectros de personalidade: O Príncipe e O Demônio. O Príncipe é perfeito, bonito, a figura desejável “que toda mulher quer.” Eles podem ou não ter uma personalidade secreta meio torta ou maliciosa. O Demônio é geralmente um underdog, violento e frio, que normalmente tem um comportamento que beira ao abusivo para com a personagem feminina. Ambos os estereótipos são um problema.

O Príncipe é problemático porque – Reforça a ideia de que o personagem masculino vai proteger a protagonista de qualquer mal. É baseado em conceitos datados de cavalheirismo ou romanticismo. Quando o Príncipe tem alguma personalidade oculta, a coisa pode piorar.

O Demônio é problemático porque – Talvez seja o espectro de personalidade mais comum dentro dos mangás shoujo, e é igualmente um dos mais perigosos: o conceito de dominância masculina entra em foco. Os personagens são usualmente rudes, possessivos, ciumentos ou frios e normalmente abusam emocionalmente e assediam o seu “objeto de afeição”, a protagonista. Nesse caso, é comum vender o abuso emocional e físico como sexy, romântico e desejável. Enquanto o mundo ocidental se estapeita por causa de 50 Tons de Cinza, os japoneses já se utilizam dessa técnica por muito, mas muito mais tempo. De qualquer forma, essa noção cruel de que comportamentos obsessivos ou agressivos são de qualquer forma sinônimos de amor é muito tóxica, especialmente para meninas jovens que estão iniciando suas vidas amorosas.

Black Bird (direita) e Kurosaki-kun no Iinari ni Nante Naranai (esquerda)

Black Bird (direita) e Kurosaki-kun no Iinari ni Nante Naranai (esquerda)

Kurosaki-kun no Iinari ni Nante Naranai

Kurosaki-kun no Iinari ni Nante Naranai

Ao Haru Ride

Ao Haru Ride

The Gentlemen's Alliance Cross

The Gentlemen’s Alliance Cross

 

Kurosaki-kun no Iinari ni Nante Naranai

Kurosaki-kun no Iinari ni Nante Naranai

Também é importante notar como o conceito de “assédio” é colocado sob uma perspectiva diferente quando o assédio é feito pelo personagem masculino protagonista. O assédio é rua, feito por personagens secundários desconhecidos, é usado como ferramenta para evidenciar a vulnerabilidade da personagem feminina, então o assédio é visto como uma ação ruim e negativa (elas são normalmente salvas pelo personagem masculino). Quando o personagem masculino a assedia da mesma forma ou até de maneira pior, os atos são colocados como um alívio cômico ou com um toque de romance. É um clássico caso de dupla moral.

3. A ideia de que a mulher precisa ser vaidosa e preocupar-se excessivamente com a aparência. Mangás shoujo normalmente apelam para a ideia de que a protagonista deve ser bela, estilosa ou “cool”. É um plot comum começar com uma protagonista gorda, assustadora ou feia que acaba se tornando “fofa” ou bela por razões como: rejeição por um personagem masculino secundário popular na escola a leva a esforçar-se para se encaixar nos padrões de beleza OU ela será ajudada a se encaixar nos padrões por outro personagem masculino bonito e popular. A receita não muda muito. O fato é, o atributo físico da mulher é o seu “medidor de valor”, e a submissão a ele se torna uma qualidade a ser admirada. Claro que há excelentes exceções, mas pro bem ou pro mal, a vasta maioria dos mangás shoujo reforçam a ideia de que a aparência é uma coisa que uma garota tem que se preocupar.

Ookami Shoujo to Kuro Ouji

Ookami Shoujo to Kuro Ouji

Os mangás shoujos representam uma grande conquista quando o assunto é autoria feminina e espaço de mercado. Porém, ainda está preso e perdido em estereótipos de como uma mulher deveria ser e como ela deve se comportar, assim como em romantizações de comportamentos abusivos. Como mulheres, não podemos ser enganadas por falsas ideias de representatividade. A existência de um mercado tão grande dedicado a mulheres deveria ser uma ferramenta para aumentar a auto-estima feminina (não pela validação de um personagem masculino!), intrução e principalmente: empoderamento.

Então eu desafio você, caras leitoras e leitores, a prestar mais atenção nessas pequenas grandes coisas que fazem os mangás shoujo serem tão problemáticos hoje, e eu convido a todos a darem mais valor aos títulos de mangás que desafiam todos esses estereótipos do mangá moderno.

Tenham uma boa leitura!

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Joana Fraga, Ilustradora profissional de passa o tempo catando coisa pra ler e estudar sobre cultura japonesa, Sherlock Holmes e feminismo.

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