Depois de dois textos de Dragon Age, vamos falar do último jogo da franquia. Caso você não tenha lido os outros ainda, dá para ler aqui o de Dragon Age: Origins e o de Dragon Age 2.

Em 2014, a Bioware lançou Dragon Age: Inquisition. Por mais que o segundo jogo da franquia tenha uma base de fãs bem apaixonada, a Bioware meio que estava vindo provar algo com o terceiro jogo. Dragon Age: Inquisition foi eleito o jogo do ano e, além de agradar vários fãs antigos, também trouxe muita gente nova para a franquia. Em muitos sentidos, Dragon Age: Inquisition buscou unir o melhor dos dois mundos até agora e eu gostei bastante do resultado que tivemos.

De qualquer forma, o foco aqui é a representatividade LGBT+, então vamos falar sobre isso. Até o momento, o terceiro jogo é o mais diverso da franquia. Como já falei com os outros dois, isso não significa que ele é perfeito, mas que houve uma melhora se comparado com o Dragon Age: Origins, que só tinha dois personagens LGBT+ e muito para melhorar ainda.

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Em Dragon Age: Inquisition, temos oito opções de romances, quatro deles eram personagens LGBT+. Aqui eu quero fazer uma pequena pausa para falar sobre uma briga que rolou no fandom na época. Algumas pessoas falaram que gostariam de ver mais representatividade, ao que alguns jogadores reclamaram dizendo “Mas são 4 héteros e 4 LGBT+, então está igual!”. Na verdade não. Sim, é bem legal que tenha bastante opções, mas há inúmeras orientações sexuais e identidades de gênero inclusas na sigla LGBT+, muita gente faz parte dessa comunidade. Não é “hétero e o resto”, por mais que a nossa sociedade enxergue assim.

Pois bem, sobre os personagens. Como já mencionei nos outros textos, esse é o primeiro jogo em que vemos varias orientações sexuais que não tinham aparecido antes. Cada um dos personagens LGBT+ é tratado de uma forma, com arcos diferente. Apesar de não ser romance, Leliana está de volta nesse jogo e, como já sabemos de Dragon Age: Origins, ela é bissexual.

Vou começar por um dos personagens que eu mais gosto, com um arco que considero um dos melhores do jogo. Dorian Pavus é um mago de Tevinter, que teve tudo do bom e do melhor na vida, mas é um homem gay numa nobreza que não aceita isso. Seu pai, que sempre foi contra magia de sangue, resolve usar esse tipo de poder para tentar mudar a sexualidade do filho. Pois é. Por mais que Dorian seja um dos personagens com o histórico mais privilegiado do jogo, a história dele é muito impactante. Quantas vezes não vemos pais que acham que podem mudar a sexualidade de seus filhos? Eu não sou um homem gay, ninguém tentou mudar minha sexualidade, mas eu fiquei emocionada durante a missão dele no jogo.

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No caso de Dorian, o fato dele ser gay é um grande ponto em sua história. Inclusive, na época antes do lançamento, surgiram várias matérias sobre a representatividade do personagem. Dorian também tem outras características, mas ser LGBT+ é importante para a história que o personagem mostra. Também ajudou o fato de que a pessoa que o escreveu, David Gaider, é um homem gay assumido e ele já falou que precisou revisitar vários fantasmas do passado para escrever o Dorian.

Sera é uma elfa arqueira, que vem de um passado bem menos privilegiado que o dos outros personagens. Ela é lésbica e uma daquelas personagens que tira sarro das coisas. Muitas pessoas no fandom acham difícil gostar dela, mas eu sou a do contra e gosto da personagem. Há alguns pontos importantes a se levantar em sua representação. Primeiro que, ao contrário de Dorian, seu arco não tem a ver com sua sexualidade, e sim com outras questões de sua vida. Eu acho importante que haja essa variação entre os personagens LGBT+. Porém, como já apontaram, é chato que a primeira e única lésbica da equipe seja a que tem personalidade difícil. É o que já comentei no primeiro texto: a questão não é ela ser do jeito que é, e sim que só haja essa representação. Eu particularmente acho que o ponto mais importante de desenvolvimento de Sera não foi bem explorado. Ela é uma personagem que não se aceita como elfa e isso é trazido depois de sua missão, mas com menos foco do que deveria. Apesar de eu achar ela uma personagem bem legal, em parte inclusive por ela não ser “amável”, concordo que ela poderia ter uma escrita melhor.

Josephine é uma das personagens mais fofas da franquia. Ela é uma diplomata de Antiva que, apesar de ser a única pessoa da equipe principal que não luta, é muito competente nas suas funções e traz um olhar mais diplomático para o grupo. Ela foi uma personagem que me pegou de surpresa, porque eu achei que ela seria mais rasa. Josephine não tem altas reviravoltas, seus conflitos são menores, até em parte por ela ser uma das conselheiras e não estar nas missões, mas mesmo com aspectos simples, há coisas bem legais em seu arco. Ela é uma personagem bissexual que está bem longe de qualquer estereótipo. Ela é romântica, bastante, que quase chega no brega e por isso é fofa. Com um personagem homem, o arco do romance dela pode parecer mais do mesmo, mas eu joguei com uma personagem mulher que fez o romance dela e vi uma história de romance clássica com duas mulheres, uma delas sendo bissexual (porque o seu personagem pode ter qualquer orientação sexual, né) que, apesar do clichê, normalmente só vemos com um casal de um homem e uma mulher cis.

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Também temos Iron Bull, um qunari guerreiro que é líder de um grupo de mercenários. Além de ser o primeiro romance qunari, que os fãs pediram desde o primeiro jogo, Iron Bull também é pansexual e um dos personagens mais engraçados da equipe. Assim como o arco de Josephine, as missões de Iron Bull não tem relação com sua sexualidade. Como ele cresceu entre os qunari, que tem uma cultura bem diferente que a das outras raças do jogo, Iron Bull adiciona muito para o grupo em geral. A decisão que o jogador faz durante a missão dele é uma das que, do meu ponto de vista, mais pode mudar a direção em que o arco do personagem vai. Enquanto muitos fãs ficaram felizes de finalmente poderem ter romance com um qunari, também houve críticas sobre logo o personagem dessa raça, que mais se afasta dos humanos, ser justo o personagem pansexual e que é o que mais flerta com as pessoas. Apesar das críticas, Iron Bull é um personagem com muitos fãs e que mostra pontos bem interessantes para a história.

Além desses quatro romances da equipe principal, também temos outras representações LGBT+ ao longo do jogo. Um deles é Krem, o primeiro personagem trans da franquia. Krem é um homem trans, um guerreiro que veio de Tevinter e foi aceito na equipe de mercenários de Iron Bull. Aqui é uma prova de que há de fato pessoas interessadas em incluir diversidade na Bioware, porém ainda precisa melhorar vários pontos. Primeiro que Krem é dublado por uma mulher, alguns fãs da franquia reclamaram que o personagem deveria ter sido dublado por um ator trans também. Além disso, há opções de diálogos transfóbicas que não precisariam estar ali. Krem é muito amado pelo fandom, ele não é ridicularizado e sua identidade é respeitada entre os mercenários que trabalham com ele, sendo o segundo em comando no grupo de Iron Bull. Uma pena que o personagem, apesar de ser legal, tenha um espaço tão pequeno no jogo. Entre os mercenários, ele é o que mais aparece, mas ainda é pouco se comparado com outros.

Há também Briala e Celene, duas mulheres lésbicas que podem ficar juntas ou não, dependendo da sua escolha. Na verdade, no universo expandido de Dragon Age, elas são um casal. No quarto livro, The Masked Empire, a Imperatriz Celene tem um caso com Briala, uma elfa de Orlais, porém a nobreza de lá não aceita que a Imperatriz tenha interesse por mulheres, muito menos uma elfa, já que elfos são uma minoria social em Thedas. Elas terminam o livro separadas e, dependendo das ações do jogador, podem ficar juntas. Apesar da relação delas não ser boa em todos os momentos, eu gostei bastante da Bioware ter colocado a Imperatriz de Orlais, uma das maiores nações de Thedas, como uma personagem lésbica.

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Quando comparamos com o primeiro jogo, Dragon Age: Inquisition melhorou sua representação, mas ainda há coisas para serem melhoradas. Como tudo indica que o próximo jogo será em Tevinter, temos uma grande chance de termos uma mulher trans como uma personagem de peso. Nos quadrinhos de Dragon Age, conhecemos Maevaris, uma mulher trans, maga de Tevinter, que tem tudo para aparecer no futuro. Além disso, nada impede a Bioware de criar mais personagens que sejam LGBT+ de alguma forma, principalmente personagens trans, que ainda aparecem muito pouco.

Sempre dá para a melhorar e os escritores parecem estar cientes que há uma parcela de fãs que querem ver mais. Por isso é importante criticar, falar sobre, pedir mais. Se ninguém tivesse se manifestado desde o Dragon Age: Origins, talvez a representação LGBT+ no terceiro jogo da franquia tivesse sido menor. Há erros e acertos, sem contar que obviamente a Bioware pensa primeiro no lucro do que em qualquer outra coisa. Lugares grandes, ainda mais esse que faz parte da EA, não incluem diversidade porque são bonzinhos, apesar de eu acreditar que há sim pessoas na equipe que busquem isso. A falta de representatividade não é o maior dos problemas, mas ter alguma representação é bom e necessário. Se eu tenho esse carinho gigante por Dragon Age hoje, é porque vi no jogo algumas das coisas que mais gosto na ficção com personagens e questões que consigo me identificar, que acabam faltando em outras histórias.

Há apenas um burburinho sobre novidades acontecendo na franquia, espero que seja um quarto jogo e, se for, gostaria muito que tivéssemos ainda mais representatividade LGBT+ nos personagens, assim como de outras minorias também. Porque dá sim, dizer que fantasia medieval não tem espaço para essas coisas é falta de criatividade, no mínimo. A comunidade gamer ainda tem pouquíssimo espaço para qualquer elemento fora do padrão. Fico aqui aguardando o futuro da franquia e esperando que eles façam um trabalho cada vez melhor.

Originalmente postado em Ideias em Roxo

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