A 10ª temporada de Doctor Who terminou na semana retrasada e, com ela, praticamente dissemos adeus a Peter Capaldi como Doctor e ao showrunner Steven Moffat – que agora dá lugar a Chris Chibnall (Broadchurch). Ambos só estarão na série por mais um episódio, o especial de Natal, e depois abandonam a TARDIS.

Por isso, a série vai passar por um reboot, assim como aconteceu da 4ª para a 5ª temporada (quando David Tennant deu lugar a Matt Smith como o personagem principal e Russell T. Davies deixou o comando da série para Moffat).

No entanto, apesar de toda a tristeza, os fãs têm bastante o que comemorar com essa despedida, já que a mais recente temporada foi, em muitos pontos, de grande importância para a série.

Vamos começar do início: Pearl Mackie foi escalada para se tornar a companion Bill Potts. Bill é negra. Bill é lésbica e deixa isso claro desde o primeiro episódio. Essa foi a primeira vez que um personagem de Doctor Who, em quase 54 anos de série, é abertamente LGBT (o Capitão Jack era claramente bissexual, mas isso nunca foi dito com todas as letras e, muitas vezes, a série usava de sua orientação sexual como alívio cômico – o que é péssimo).

Maravilhosas!

Bill, por motivos óbvios, não se apaixona pelo Doctor e leva muito bem a sua vida sem ele por perto. Ela tem amigos, tem encontros, trabalha… ao contrário de muitas outras companions, a vida dela segue sem ele – apesar de ela amar viajar na TARDIS e fazer perguntas muito pertinentes, como por exemplo, por que a cadeira fica tão longe do console da nave.

O Doctor para Bill é um amigo e um tutor. No início da série ela assiste a algumas aulas dele na universidade em que ele leciona e se encanta pelo seu jeito maluco de ser e de pensar, e é assim que ela acaba se tornando uma companion – por admiração e curiosidade.

A 10ª temporada inteira toca em pontos importantes, mas talvez o episódio que mais me deixou feliz (além do episódio duplo da season finale) foi “Thin Ice”, o terceiro da temporada. Escrito por uma mulher, Sarah Dollard, nele Bill viaja para o passado pela primeira vez. Assim que desembarca da TARDIS, ela já fala sobre como a Regência Britânica é mais negra do que os filmes mostram – ao que o Doctor emenda: “Assim como com Jesus. A história foi ‘embranquecida’”.

“Regência Britânica, um pouco mais negra do que os filmes mostram”

 

“A história foi embranquecida.”

 

É um diálogo curto, mas tem tanto poder! Falar abertamente que a história sofreu whitewash e ainda citando Jesus, é um dos acertos sociais da 10ª temporada.

Esse episódio ainda tem uma das cenas mais icônicas do 12th Doctor: quem assiste a série sabe que o Doctor é um pacifista, apesar de andar sobre a guerra. Mas um racista conseguiu acabar com a paciência do Time Lord. Ao visitar um dos nomes mais importantes da cidade para obter algumas informações e saber se ele era um alienígena, o homem é extremamente racista e grosseiro com o a Bill, que fica meio sem reação aos comentários nojentos dele. E isso acontece:

Tradução:

“Lord Sutcliffe: Doctor Disco, do Fairford Clube! Obviamente alguém que aspira ser indicado e com certeza considerado para… quem deixou essa criatura entrar aqui? De pé, garota, na presença de um superior! 

[soco]

Doctor: Ele é humano. 31 anos de idade, com baixo ferro no sangue.

Bill: Sim, isso foi muito racismo para um extraterrestre!

Doctor: Foi exatamente o que eu pensei.”

Vale a pena ver de novo!

A continuação dessa cena ainda tem um dos muitos discursos lindos do 12th, em que ele fala sobre privilégios ao Lord Sutcliffe:

“Doctor: Eu preferia quando pensava que você era um alien. Bem, isso explicaria a falta de humanidade. O que faz você ter certeza de que sua vida vale mais do que as pessoas lá no gelo? É o dinheiro? O acidente de nascimento que o colocou dentro de uma grande e elegante casa.

Sutcliffe: Eu ajudo este país a avançar. Movo este Império para a frente.

Doctor: O progresso humano não é medido pela indústria. É medido pelo valor que você coloca em uma vida. Uma vida sem importância. Uma vida sem privilégios. O menino que morreu no rio, o valor desse menino é o seu valor. É isso que define uma era, é isso… o que define uma espécie”.

Enquanto o Doctor mandava esse discurso eu também olhava assim pra ele, Bill!

Praticamente todos os episódios da temporada têm ao menos uma fala importante de cunho social, mas a season finale, além de todos os motivos que a fizeram ser incrível, traz algumas cenas muito interessantes, principalmente pela questão de gênero. Se você chegou até aqui, sabe que o frenemy do Doctor, Master, se tornou Missy lá na 8ª temporada, em uma regeneração que fez o personagem mudar de gênero. Em uma conversa maravilhosa com a Bill, o Doctor fala mais sobre ele/ela:

Tradução:

“Doctor: Ela foi a minha primeira amiga. Sempre tão brilhante, desde o primeiro dia na Academia. Tão rápida, tão divertida! Ela era o meu “crush” homem.

Bill: O que?

Doctor: É, eu acho que ela era homem naquela época. Eu estou bastante certo de que eu era, também. Embora tenha sido há muito tempo.

Bill: Então Time Lords são meio flexíveis com essa coisa toda de ‘homem-mulher’, certo?

Doctor: Nós somos a civilização mais civilizada do universo! Estamos bilhões de anos além da obsessão mesquinha dos humanos com gênero e todos os estereótipos associados.

Que diálogo! A Bill ainda faz uma piada dizendo que, ainda assim, eles continuam se chamando de “Senhores do Tempo”. Pois é…

São tantos momentos legais para relembrar que esse post ficaria ainda mais enorme do que já está. Mas com certeza um dos momentos mais marcantes foi no último episódio, “The Doctor Falls”. Como eu já disse, a Bill é lésbica, e a saída prematura da atriz Pearl Mackie da série não poderia ter sido melhor! Além de um bonito final para essa personagem encantadora, ainda teve… um beijo lésbico! Em pleno horário nobre da TV britânica! Em um programa de TV para a família, que muitas crianças assistem e amam! Em uma Europa (e mundo) cada vez mais guinado ao conservadorismo! É para comemorar ou não?

Uma cena linda dessas, bicho!

No entanto, eu gostaria de relembrar que isso não apaga algumas pisadas de bola feias do showrunner Steven Moffat. Desde que ele tomou a frente da série, a relação dos whovians tem sido de amor e ódio, e não é pra menos. Apesar de ter feito mudanças e acréscimos muito importantes para o enredo, sempre levando em consideração a fase clássica da série, Moffat já pecou em alguns pontos sociais em Doctor Who.

Além disso, a fórmula de romance já encheu o saco: todas as companions desenvolvidas por ele se apaixonaram pelo Doctor ou tiveram alguma tensão sexual com ele (Amy Pond quis beijar o Doctor na noite anterior ao seu casamento com Rory, River Song é casada com o Doctor, Clara se apaixonou pelo 11th, mas tomou um “chega pra lá” do 12th). Não que fosse muito diferente na Era Russell T. Davies, já que Rose Tyler e o Doctor se apaixonaram e Martha Jones sofreu pelo amor não correspondido do protagonista. Ao menos Donna Noble passou ilesa aos encantos do 10th…

Mas não é só isso: algumas declarações de Moffat foram bastante infelizes, para dizer o mínimo. Quando soube que a atriz Helen Mirren disse em 2013 que o Doctor deveria ser mulher, ele respondeu:

“Gosto que Helen Mirren tenha dito que o próximo Doctor deveria ser uma mulher. Gostaria de gravar e dizer que a Rainha deve ser interpretada por um homem.”

Desnecessauro.

Não vou entrar aqui em mais detalhes sobre a escrotidão do Moffat, porque aparentemente, seja por pressão dos fãs, da BBC ou porque ele realmente está tomando jeito, ao que tudo indica ele mudou de ideia.

Muitos fãs têm pedido que o 13º Doctor seja na verdade uma Doctor. Algumas mulheres estão sendo cotadas para assumir o papel, como Miranda Hart, Phoebe Waller-Bridge, Olivia Colman e até Tilda Swinton. Se isso vai acontecer ou não, saberemos em algumas semanas. Mas mesmo que essa bomba não vá explodir no colo do Moffat, talvez ele tenha deixado uma pista no último episódio?

O futuro vai ser todo das garotas?

Nós só podemos esperar.

Esperar e torcer para que o Doctor se torne A Doctor e seja bem encaminhada nas mãos do novo showrunner, Chris Chibnall, sem piadas machistas, misóginas ou de cunho sexual.

Enquanto o anúncio não é oficialmente feito, nos resta esperar por um bom episódio especial de Natal, com muitas lágrimas de despedida de Peter Capaldi, esse ator incrível que deu vida a uma das regenerações mais lindas do Doctor e mais empenhadas socialmente por um mundo mais igual para todos e todas.

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Karina Rodrigues

Futura companion do Doctor que foi selecionada para Hufflepuff (e morre de orgulho disso). Melancólica-sanguínea, lawful good e INFP.

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