O texto possui spoilers de Star Wars: O Despertar da Força.

Desde que o episódio VII de Star Wars foi anunciado, muito tem se falado da diversidade que está sendo inserida em uma das histórias mais amadas entre os nerds. Então não é nada surpreendente que a parte preconceituosa dos fãs, que nós já sabemos que não é pequena, ainda está reclamando de inúmeras coisas.

A repercussão sobre a diversidade do filme não foi pequena, tivemos inúmeros textos sobre a Rey e o Finn, sobre a representação de mulheres e negros, que inclusive cresceu para discussões sobre por que não encontramos tantos brinquedos da Rey ou sobre por que os bonecos do Finn estão sobrando nas lojas enquanto os outros sempre esgotam.

Uma coisa em especial veio chamando minha atenção. Desde que escrevi meu texto sobre a Rey e o quanto é importante ter uma mulher como protagonista de Star Wars, vi vários comentários, tanto no meu texto quanto em outros lugares, sobre Rey ser uma Mary Sue. Confesso que não sabia muito sobre o termo, então fui pesquisar. (Nota rápida: Ao contrário do que algumas pessoas me acusaram, sim, a tal da “justiceira” aqui viu sim todos os filmes de Star Wars, mais de uma vez cada por sinal. Eu conheço e pesquiso algo antes de falar sobre o assunto, diferente dos caras que nunca leram um parágrafo sobre feminismo e cobram minha carteirinha nerd. Quem que não faz a lição de casa?).

Vamos começar explicando o termo Mary Sue

O termo nasceu no mundo das fanfiction, que, para quem não sabe, é quando alguém escreve uma história de um universo ficcional que já existe. Caso você entre em um site de fanfics famoso, como o Archive of our own, vai encontrar histórias de inúmeros fandoms. Talvez o caso mais conhecido (infelizmente) é 50 Tons de Cinza, que começo como uma fanfic AU (alternative universe = universo alternativo) de Crepúsculo.

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Na década de 70, foi lançada uma fanfic de Star Trek e foi de lá que a tal Mary Sue surgiu. A personagem que deu origem ao nome usado no termo era uma mulher perfeita, bonita, inteligente, forte, que conquistava todos com seu charme e não tinha nenhum defeito. O que estava acontecendo nessa fanfic é que a Mary Sue na verdade era uma paródia para todas as meninas que escreviam fanfics e se inseriam nas histórias como personagens perfeitas.

Eu não vou entrar no mérito de fanfics ou de pessoas se inserirem em suas histórias, acho que isso é um assunto legal pra um outro texto, então vamos nos focar aqui na questão da Mary Sue. Com o tempo, o termo “Gary Stu” foi criado, que seria o equivalente homem, mas há tanto machismo na história de como o termo Mary Sue é usado que existir um termo para os homens dificilmente faz as coisas melhores ou mais justas.

Com o tempo, Mary Sue virou um adjetivo usado para várias personagens mulheres, o problema é que o termo era e é usado independente da personagem de fato ser mal escrita ou não na sua “perfeição”, o que logo se tornou uma maneira de diminuir as mulheres na ficção. Vale lembrar que infelizmente a representação das mulheres ainda está longe de ser tão grande quanto a dos homens, então diminuir as poucas que temos acaba se tornando algo ainda maior.

Antes que me acusem, eu não quero dizer que, já que não temos muitas mulheres, não podemos criticar uma que foi mal escrita. Podemos e devemos, pô, é basicamente o assunto mais discutido entre as nerds feministas, não? O problema é que as pessoas, principalmente os homens, são muito rápidos em qualificar uma mulher como Mary Sue porque elas são “personagens ruins” enquanto veneram homens que se encaixam facilmente como Gary Stu.

É quase engraçado, se não fosse irritante, que os caras amem inúmeros personagens homens Gary Stu, mas assim que encontram uma personagem mulher que pareça um pouco Mary Sue, eles a desmerecem. A explicação pra isso é fácil: O homem não precisa ser bem escrito para ser amado, não precisa ser complexo, afinal ele é homem, e eles são aceitos de qualquer forma. Agora uma mulher? Ah não, se ela não se encaixar num padrão de personagem específico, ela é diminuída e ignorada.

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Superman, Batman, Homem de Ferro, Capitão América, Nathan Drake, James Bond, Kirito, Goku… Todos eles possuem inúmeros fãs, tantos que inclusive imagino várias pessoas lendo isso e me xingando por colocar seu preferido aqui. Não tem problema você gostar deles, gosto de Uncharted, assisto Dragon Ball até hoje e gosto muito de vários filmes do Batman, afinal de contas são histórias divertidas, assim como outras pessoas adoram 007 e dos Vingadores. O que estou tentando provar é que ser um Gary Stu nunca foi motivo para personagem homem nenhum ser jogado pra baixo do tapete, independente do seu gosto pessoal.

Como qualquer julgamento, a mulher sempre se torna mais alvo do que o homem.

Então vamos voltar para o caso em questão, que é a Rey. Ela está sendo acusada por várias pessoas, em sua maioria homens, de ser Mary Sue e portanto não ser uma boa personagem, e já que ela é a protagonista eles alegam que isso torna o Episódio VII não só ruim, mas também uma “fanfic” (que muitas vezes usamos como adjetivo para obras que achamos mal feitas). Portanto vou contestar essas acusações, tanto por achar a história do Episódio VII muito boa, como por não acreditar que Rey seja Mary Sue, ou pelo menos que não deveria ser diminuída por isso.

Rey foi “acusada” de ser boa escavadora, lutadora, saber de mecânica, boa atiradora, pilota, fala mais de uma língua, usar a Força bem e aprender rápido como fazer isso… Tudo isso é verdade, mas nada disso surgiu do nada. Rey deve estar por volta dos 20 anos (talvez um pouco menos?) e, até onde sabemos, desde pequena viveu sozinha em Jakku, trabalhando como escavadora, que resultou nos seus conhecimentos sobre pilotagem e mecânica. É completamente natural que dominemos o assunto com o qual trabalhamos, ainda mais se estamos em contato com a coisa em questão desde crianças, então isso cobre algumas características. Viver em um planeta com mais de uma raça de alienígenas também pode justificar como ela sabe mais de uma língua.

Quanto a atirar, podemos sim discutir que ela aprendeu rápido, mas como o filme mostra, ela não sabia de primeira como usar uma arma. E aí tem a questão de saber lutar e da Força. Isso sempre me lembra a cena que o Finn fala “Vamos usar a Força” e o Han Solo responde “Não é assim que a Força funciona!”, eu sempre quero perguntar pra ele: “Então como a Força funciona?”, porque depois de sete filmes eu sinceramente acho que o padrão da Força é funcionar quando o roteiro precisa, mas isso é uma crítica pra outra hora.

Existem algumas teorias sobre como a Rey sabe usar a Força, desde ela ser uma Skywalker até ela já ter sido treinada no seu passado misterioso, então realmente não há explicação por enquanto, mas não muda o fato de que pode ter no futuro, já que boa parte do passado da Rey é um mistério.

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Aí entramos na questão dela saber lutar e chegar ao ponto de derrotar Kylo Ren, um sith treinado. Aqui eu preciso admitir: Eu acho que a vitória de Rey tem mais a ver com Kylo do que com ela. Calma, eu não estou desmerecendo a protagonista mulher em prol do vilão homem, mas há alguns poréns do lado de Kylo que afetaram seu desempenho na luta. Primeiro, ele tinha levado um tiro do Chewbaca e aquela arma não é pouca coisa, inclusive vemos ele batendo no ferimento algumas vezes. Juntando isso com o instinto de sobrevivência de uma moça que viveu sozinha boa parte da vida e a Força, não me parece tão absurdo assim que Rey vença Kylo. Caso você queira entrar no campo de teorias, na minha interpretação também tinha um outro motivo para o vilão ter sido derrotado: Nós vemos ao longo do filme Kylo hesitando sobre ser um sith, se sentindo atraído pelo lado da luz, eu acho que essa “dúvida” na Força dele pode muito bem sim ter afetado seus poderes.

Rey hesita, tem medo, foge, teima… Ela não é perfeita, mas eu entendo que o número de acertos dela no filme podem passar uma impressão assim. Mas aí é que vemos como uma mulher é apedrejada ao lembrar uma Mary Sue e um homem não é julgado por ser Gary Stu. Então vamos lembrar de Luke e Anakin.

Luke também viveu num planeta distante como Rey e tinha um número grande de habilidades impressionantes, além de ter conseguido explodir a Estrela da Morte no episódio IV. São feitos impressionantes pra alguém que nunca tinha ouvido falar da Força, nem lutado, nem tido contato com soldados imperiais… Vê onde eu quero chegar?

No caso do Anakin é ainda pior. Ele é um excelente piloto e construiu um robô quando era uma criança! As habilidades do Anakin quando criança me parecem muito mais absurdas que as da Rey com o dobro da idade. Mas ninguém fala disso, sim, muitos falam de como a segunda trilogia falhou em vários momentos e isso aparece também no desenvolvimento de Anakin, mas nunca vi ninguém acusando ele de ser Gary Stu como acusam Rey de ser Mary Sue. Além disso, o único momento que ele erra é no final, quando vira Darth Vader. Sabe, depois de um desenvolvimento de três filmes! A Rey só teve tempo de um filme pra desenvolver por enquanto, mas ninguém lembra desse detalhe.

Mas nós sabemos o motivo, é porque ela é mulher e mesmo sendo ficcional, se não se encaixam no padrão desejado, não servem.

Então sim, você está sendo machista quando quer desmerecer uma personagem mulher, depois do primeiro filme de uma trilogia, quando a chama de Mary Sue, mas não dá a mínima para os personagens homens que são Gary Stu. Ainda mais num fandom que ficou tão incomodado com a diversidade da nova trilogia, o que mostra que seu problema não é o desenvolvimento dos personagens, porque você ama Luke e Anakin mesmo que depois de três filmes eles podem sim ser considerados, de certa forma, Gary Stu. Seu problema é ver alguém diferente do padrão como protagonista.

EDIT: Algumas pessoas apontaram que o Kylo não é um sith, erro meu, mas o argumento dele não estar alinhado com o seu lado da Força continua (porque mesmo não sendo sith, ele ainda é do lado sombrio).

Originalmente publicado em Ideias em Roxo.

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