bUma das coisas que eu sempre falo aqui no Collant é sobre a necessidade de representar mulheres de todos os tipos. Infelizmente, nós mulheres, não estamos imunes de sermos assassinas, ladras ou psicopatas. Essas representações são importantes não só porque ajudam a quebrar uma visão prejudicial de que mulheres são seres mágicos de pureza, mas porque abrem espaço para personagens que transitam entre a psicopatia e o anti-heroísmo e favorecem a cartela de maneiras com que mulheres são representadas na nossa cultura.

Os 8 Odiados perde a oportunidade de colocar Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) no panteão de vilãs bem construídas, já que erra no modo como a única personagem feminina central do filme é representada. O que inicia como uma personagem meio psicopata, com uma tendência à implicar com John “The Hagman” Ruth (Kurt Russell) e até tirar alguma satisfação da porrada que recebe dele, se torna sequências de Daisy apanhando constantemente e se revelando um clichê bizarro da donzela em perigo.

Eu sei que eu estou pisando em ovos falando que o Tarantino fez um filme ruim, ainda mais porque estou discutindo machismo dentro do filme dele, mas fique aqui mais um pouquinho.

Daisy deveria ser essa super vilã, rainha da malvadeza – o filme vende ela assim. Mas no final descobrimos que ela é a irmã do verdadeiro rei da malvadeza e que está sentada esperando ser resgatada pelo grupo de assassinos do irmão. Você só não vai dizer que ela é donzela em perigo porque Daisy não é donzela no sentido tradicional da palavra, que implicaria nela ser uma dádiva da pureza juvenil. Jody Domergue (Channing Tattum) não só arma todo um esquema para salvar a irmã da forca, como é também cinco vezes mais perigoso que ela, já que a recompensa sobre sua cabeça é de cinquenta mil dólares. Não é uma questão de quanto vale a recompensa de cada um – mas ao mesmo tempo é.

Daisy tem ZERO participação na sua libertação, ela senta e toca violão enquanto assiste o resto do grupo tentar salvá-la. John Ruth soltou as algemas e sem elas a personagem permaneceu durante um tempo considerável da história, tempo o suficiente para que ela tivesse, de alguma maneira, ao menos tentado auxiliar ou se livrar do seu próprio carrasco. É decepcionante ver uma personagem com tanto potencial ser desperdiçada dessa maneira. No final, pra mim, a sensação é que ela nem era um dos oito odiados, mas sim seu irmão. A cena final, em que ela morre agonizando enquanto Cris Mannix (Walton Goggins) e Major Marquis (Samuel L. Jackson) assistem, não dá a satisfação que deveria fornecer porque a personagem sendo enforcada não é a personagem que o filme (e os trailers) prometiam. Por passar o tempo todo ou apanhando ou sentada esperando algo acontecer, Daisy foi o elo mais fraco dentro os odiados, sucumbindo ao clichê da Smurffete.

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Olhando para as outras personagens femininas, que surgem em flashback, a visão machista que o filme propaga fica ainda mais evidente. São três personagens femininas representadas de forma pitoresca. Six-Horse Judy parece uma criança de dez anos saltitante e feliz. Mini, dona da estalagem parece ter um pouco mais de personalidade, mas Tarantino não perde a oportunidade de colocar uma personagem negra perguntando se ela tem a bunda grande. Gemma, funcionária da estalagem, também tem esse ar “boba alegre” de Judy. Todas as três são mortas pela gangue que vai salvar Daisy. Six-Horse Judy leva não um, mas vários tiros. Essa representação boba e estereotipada das personagem femininas, por mais que elas sejam de fato apenas personagens secundárias, soma ao problema com Daisy e sua falta de ação.

São oito odiados, e apenas um deles é uma mulher. Uma mulher que está esperando resgate, uma mulher que é sim uma vilã, mas que nem o título de um dos oito odiados ela parece manter. Se Tarantino pretendia quebrar o estigma de que mulheres não podem ser vilãs verdadeiramente más e perturbadas, ele deu um tiro no pé ao fazer de Daisy uma vilã que fica sentada esperando ser salva. Eu sei que ele fez Kill Bill e Jackie Brown, e eu gosto muito da Shosanna de Bastardos Inglórios. Mas Tarantino não está imune à falhar e deixar o machismo transparecer.

Além do uso incansável da palavra “Bitch”, que por si só carrega uma montanha de machismo, Tarantino insiste em se colocar a cima de qualquer discussão e a continuar a usar a palavra N****r.  Não foi a primeira e nem será a última vez que o uso excessivo dessa palavra em seus roteiros é criticado e, em determinado momento do filme, a impressão que fica é que Tarantino quer deixar bem evidente que ele não se importa com as críticas que a comunidade negra faz sobre o uso da palavra. Quando John Ruth encontra Cris Mannix na neve, Cris chama Major Marquis de N****r, a que John Ruth responde algo como “Você não sabe que eles não querem mais ser chamados assim?” Não consegui escutar esse diálogo e não considerá-lo um tipo de afronta aos seus críticos. A personalidade de Tarantino, o seu ego, e sua incapacidade de perceber o seu lugar de privilégio parecem ser os principais problemas dos seus filmes.

Como filme em si, acho que Os 8 Odiados passa longe de ser essa obra-prima que tanta gente parece considerar. Com diálogos que mais parecem monólogos, altamente explicativos e cansativos, cenas em que, mesmo para Tarantino, a violência parece sair de lugar nenhum e ir para nenhum outro – talvez uma tentativa de tirar humor do “gore” mas que, para mim, falha miseravelmente. A impressão que fica é que com quarenta minutos a menos de filme talvez Os 8 Odiados de fato entrasse no panteão de melhores filmes do Tarantino, porque talvez não fosse repetitivo, talvez não tivesse aquela voz over bizarra e desnecessária do próprio diretor, talvez não transparecesse machismo, talvez de fato acertasse na discussão de seja lá o que ele queria discutir com esse filme. A impressão que fica é que os 8 Odiados pode ser o oitavo filme de Tarantino, mas única coisa que vale a pena é a fotografia.

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