Acredito que a esta altura todo mundo já leu ou assistiu sobre o caso da bandeirinha Fernanda Colombo. Ela fez dois erros de marcaçao em dois jogos seguidos, foi afastada por duas rodadas do brasileirão e enviada para um período de reciclagem. Pressupondo que um bandeirinha do sexo masculino também passaria pelo afastamento e pela reciclagem, esse procedimento me pareceria válido se não fosse precedido – e sucedido – pelo machismo nosso de todo dia.

Quantas vezes você viu uma reportagem sobre uma bandeirinha que não fizesse alusão a sua forma física? A ela ser bonita ou não? A ser desejável ou não? Qualquer reportagem sobre a bandeirinha da vez traz também o título de “musa”, gostosa, bonita, linda, e tantos outros adjetivos do gênero. Mas qual o problema de considerar e comentar sobre a beleza de Fernanda? Bom, quando uma mulher exerce uma profissão que não está diretamente ligada à sua aparência, e você faz do fato dela ser bonita a chamada para a reportagem ou discussão de mesa de bar, você a objetificando. Você reduz a sua capacidade profissional ao fato dela ser apetitosa aos olhos alheios. Pode não ser a sua intenção, mas você está sendo machista.

Quando digo “a bandeirinha da vez” falo por que esse caso já aconteceu anteriormente, e anteriormente. Ela cometeu um erro, foi chamada de musa, disseram que sua aparência estava ótima, mas que ela era incompetente. Se ela fosse “feia” ela teria sido julgada apenas pelo seu trabalho? Provavelmente não. Ela seria alvo de piadas sobre a sua aparência e seria menosprezada por ser mulher em “trabalho de homem”.

Outro caso similar ao da bandeirinha foi a da piloto de testes da Williams Susie Wolff, que ficou duas posições à frente do campeão Vettel. Questionado sobre ter terminado o dia de testes atrás da piloto ele respondeu que era hora de se aposentar. Alguém perguntar “Como é terminar o treino depois de uma mulher?” já é em si absurdo, a resposta apenas colabora para o machismo e a visão de que alguns esportes são apenas para homens. Vi pela internet uma reportagem salientando o fato de que Susie é esposa de um dos chefes da Mercedes, ou seja, insinuando que talvez ela não esteja lá por mérito, e sim por que casou/dormiu com o cara certo. Não vi ninguém questionar o Vettel por ter terminado a corrida depois dos outros seis caras.

Mas não vamos nos limitar aos esportes considerados “másculos”. Vôlei é um esporte constantemente ligado ao sexo feminino e ainda sim, enquanto assistia a um jogo de vôlei feminino algumas semanas atrás na televisão, os comentaristas dedicaram uma parte da transmissão para comentar como uma das atletas era bonita, “A musa do time”. Quantas vezes você assistiu a um jogo de vôlei, ou qualquer outro esporte, em que os comentaristas aproveitam para fazer um adendo sobre como o Giba, ou o Kaká, ou o Minotauro são charmosos e estão em ótima forma? Pois é.

Seja para jogar, dançar ou para apitar, as mulheres estão em quadra para trabalhar. Algumas para competiroutras para mediar. Qualquer erro que elas cometam deve ser ligado apenas à suas capacidades profissionais. Ao comentar sobre como ela é bonita, ao chamá-la de musa, você a está objetificando. Ela não deve simplesmente exercer a sua profissão, ela deve ser atraente. E quando você diz que uma bandeirinha é bonitinha e por isso deve ir posar para a playboy, não interessa o quão irritado com o desempenho dela em campo você esteja, você está sendo machista. E babaca. Mas essas duas “qualidades” normalmente andam de mãos dadas.

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