Durante o fim de semana rolaram muitas discussões na internet sobre a polêmica escolha da Fox em 5lançar o filme X-Men Apocalipse com um cartaz onde uma super-heroína (porque nessa versão dos X-Men a Mística é uma super-heroína) está sendo enforcada por um vilão. Eu não vou entrar no mérito da Mística ser uma super-heroína nua porque isso só vai complicar ainda mais a discussão, mas estejam certos de que isso é um tópico à ser discutido.

 

Foram três lados de uma polêmica: as pessoas que se incomodaram com o cartaz, as pessoas que não se incomodaram e acharam que as críticas eram exageradas (ou que existiam apenas porque a mídia alimentou, uma tentativa clara de silenciar os críticos) e os geradores de memes machistas e desinformados. Logo depois da primeira crítica, feita pela atriz Rose McGowan, a Fox soltou um pedido de desculpas. É muito bom ver um estúdio respondendo com tamanha rapidez e perspicácia às críticas feitas pelo seu público.

A heroína desempoderada.

Um dos primeiros questionamentos às críticas feitas ao cartaz foi de que nós, mulheres e feministas, queremos representação no mundo dos quadrinhos/cinema, então precisamos aceitar que nem sempre as super-heroínas vão estar em posições de vitória e que elas sempre irão apanhar. Até aí, tudo muito justo, mas nós não estamos no ponto de igualdade entre a representação feminina e masculina nem nos quadrinhos e nem no cinema.

Escolher vender violência num cartaz, e violência nesse nível, em que a Mística está claramente em situação de perigo frente ao poderoso apocalipse, fala muito sobre o modo como personagens femininas são tratadas desde às HQ’s até o cinema. Além disso um cartaz está completamente desprovido do contexto na qual tal imagem seria utilizada no filme.

Um dos fenômenos que acontece nas HQ’s, e que já se repetiu diversas no cinema inclusive em X-Men Apocalipse, é o desempoderamento de uma personagem feminina para que ela possa ser ou salva, ou protegida ou para que ela dê maior espaço para o personagem masculino. Aconteceu na primeira trilogia inteira de X-Men com a Vampira, aconteceu com a Viúva Negra em Vingadores 2, com Vanessa em Deadpool e acontece com a Mística em X-Men Apocalipse.

Nós nunca vimos um super-herói ser representado dessa maneira num pôster. Nós tivemos todos os Vingadores abatidos e machucados, tivemos Homem-Aranha encarando o Elétron, tivemos Batman contra Superman, Capitão América contra Tony Stark – mas nenhum deles está em situação de desempoderamento, eles não estão sendo representados como em perigo real e eminente, a fragilidade deles não é o foco do cartaz. É preciso levar em consideração a diferença de significado que existe ao representar uma mulher nessa posição e, por exemplo, um herói de joelhos perante seu algoz.

“Apenas os fortes sobreviverão”

Essa frase, aliada à mística sendo sufocada pelo Apocalipse, deixa muito evidente que o que se vende nesse cartaz é uma fragilidade e, nesse caso, a feminina. Em um outro cartaz do filme nós temos Ciclope soltando seu raio de poder enquanto Jean está escondida atrás dele. Eu suponho que ela esteja direcionando o raio que sai dos olhos de Scott. Ou seja, quando a personagem feminina é a principal do cartaz ela é mostrada em posição de fragilidade, quando ela não é a principal do cartaz ela está atrás do herói, protegida. Existe uma discrepância de representação muito grande aqui principalmente se levarmos em consideração que Jean é uma mutante muito mais poderosa que Scott. Ou seja, a decisão de colocá-la atrás de Scott vem carregada de um machismo que classifica uma personagem feminina como alguém à ser protegido.

Todo mundo sabe que o Ciclope é um bundão e a Jean é a bad-ass. Esse pôster nem faz sentido.

Todo mundo sabe que o Ciclope é um bundão e a Jean é a bad-ass.

Se pensarmos que a Mística é, desde o primeiro filme, vendida como uma das pernas de uma tríade que é formada também por Magneto e Xavier, fica ainda mais evidente que esse tipo de tratamento jamais seria dado à um dos outros dois principais heróis do filme. Nós não veríamos nem Xavier e muito menos Magneto de joelhos ou sendo sufocados. Eles não estariam desempoderados – eles não estão. Nas diversas imagens de divulgação do filme os dois personagens são apresentados em posição de poder e afirmação, não existe Xavier caído no chão e nem Magneto sendo sufocado.

Aos personagens masculinos é dado o espaço de heroísmo, de força e segurança. É reservada às mulheres a posição de vítima, é reservada às heroínas a posição de desempoderamento e fragilidade.

Mas existem muitos pôsteres de X-Men Apocalipse, porque focar-se neste?

Porque é neste pôster, que foi colocado em destaque em diversas cidades americanas, que está o problema. Nos últimos dias nós temos falado muito sobre a violência contra a mulher e o modo como ela é normalizada pelos nossos comportamentos e ações. Esse tipo de publicidade, que fragiliza e violenta a figura feminina não é novidade e ajuda a manter essa normalização. Durante muito tempo ela foi, na verdade, o padrão da publicidade que queria ser mais “revolucionária”.

Mística é uma personagem feminina, Apocalipse é um personagem masculino. Ela pode ser azul e ele pode ser um cinza arroxeado, mas o gênero de cada um deles não é posto em discussão dentro do filme, ou seja, há também nessa escolha de cartaz uma dinâmica de poder em que a mulher é vitimada pelo homem. É uma imagem de violência contra a mulher que está exposta para todas as pessoas verem, não apenas os fãs dos X-Men que supostamente entenderiam o contexto da imagem. São crianças que vão passar ao lado desse cartaz e lê-lo como algo normal, são mesmo os fãs de X-Men que não se atentam (ou se recusam a considerar que existe violência contra a mulher) que vão vê-lo como “normal”, são vítimas de violência que vão olhar para o cartaz e sentir o estômago embrulhar.

Mas e se fosse um homem no lugar da mística?

O terror no rosto da Mística, a sua fragilidade frente ao Apocalipse é usada para causar uma reposta emocional no público e, no pôster, está completamente fora de contexto. É a fragilidade dela que é usada para vender o perigo no filme mas, como já disse antes, existe uma diferença entre um homem em perigo e uma mulher em perigo.

Tomar um vinho, comer um sanduíche enquanto olhamos Jeniffer Lawrence ser estrangulada. Tranquilo.

Tomar um vinho, comer um sanduíche enquanto olhamos Jeniffer Lawrence ser estrangulada. Tranquilo.

Fora de contexto o pôster é só uma imagem de violência contra a mulher, do desempoderamento de uma super-heroína funcionando como “arma” para causar um impacto no espectador. O sentimento ao olhar esse pôster é de violência de gênero, de um perigo eminente e grande, essa sensação existe por causa de todo o histórico de violência contra a mulher, de representação da figura feminina como frágil e necessitando proteção. Fosse um homem em seu lugar a sensação seria de emasculação, não de perigo eminente, não há por trás da imagem masculina um histórico de violência de gênero, de fragilidade e nem a tradição de violência contra a personagem feminina dentro desse universo dos quadrinhos.

Eu vi muitas pessoas questionarem as problematizações que se levantaram a cerca desse pôster, inclusive pessoas que lutam à favor da representatividade dentro desse nosso meio nerd/geek. Se nós vamos evoluir como mídia e como comunidade então precisamos estar abertos para qualquer tipo de problematização, é discutindo que vamos chegar à um lugar mais positivo. Ninguém é obrigado à concordar com os questionamentos levantados, mas dizer que “não há nada demais nisso” é silenciar as pessoas que se incomodaram e que querem levantar uma discussão sobre como o filme usou a imagem feminina na divulgação. Vale pensar também que quando nós discutimos a importância da representação e da diversidade estamos levando em consideração que a presença e o modo como esses temas são abordados são parte fundamental para alcançarmos um ambiente mais iqualitário. Por isso questionar o modo como a violência contra a mulher é utilizada dentro do cartaz funciona dentro da nossa própria discussão.

Particularmente eu acho que a escolha da imagem para o cartaz foi bastante problemática, só mais um momento em que X-Men Apocalipse falha com uma personagem que poderia ser tão legal (mas isso fica para outro texto), e acho que quanto mais nós conversarmos e discutimos o modo como a figura feminina é utilizada dentro do nosso meio estaremos cada vez mais trabalhando para criarmos um ambiente saudável e bem equilibrado. 😉

PS: Eu aconselho que se acompanhe o feed da @fangirljeanne sobre o tema. Aliás, eu aconselho que se siga essa moça porque ela é muito foda.

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