A semana passada foi tão corrida na vida-fora-do-blog que rolou uma polêmica imensa envolvendo as atrizes de Suffragette e eu nem fiquei sabendo.

Para quem não sabe, Suffragette é um filme que narra o nascimento do movimento sufragaste pela igualdade dos direitos das mulheres na Inglaterra. Esse movimento foi muito importante pois foi a primeira vez que mulheres de fato foram às ruas e protestaram em favor dos direitos da mulher.

Da mulher branca.

Essa é uma problematização que precisa ser feita. As sufragistas foram MUITO importantes, e toda vez que eu assisto ao trailer eu sinto o pelo do meu braço arrepiar. Foram 100 anos até que Hollywood tivesse a coragem/vontade de contar essa história. Mas a história das sufragistas inglesas é uma história branca. É uma história de mulheres trabalhadoras, mas de mulheres brancas.

Mulheres negras ou de outras etnias não estão nos registros históricos do movimento, e a verdade é que devido ao momento em que o movimento aconteceu é bem possível que elas nem fossem permitidas de participar não só “pelos maridos”, mas porque a sociedade daquela época era ainda mais racista do que é hoje. Sabe quando a gente fala que o feminismo ajudou porque mulheres antes só podiam trabalhar com a autorização do marido? Pois é.

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Na semana passada saiu um ensaio na revista Time Out com as atrizes do filme, todas usando uma camisa escrito “Prefiro ser rebelde do que ser escrava”. Todas, evidentemente, brancas.

Eu sei que você vai dizer que é “historicamente verdadeiro”, e eu nem acho que colocar uma mulher negra no meio do elenco ia ajudar, já que ia contar uma versão fantasiosa de uma realidade: que o movimento feminista tende a ser extremamente branco, e podia acabar escondendo a realidade racista da época. O movimento sufragista inglês tem suas raízes no movimento abolicionista, mas parece não ter deixado as raízes irem longe o suficiente, já que ele era também um movimento branco.

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Eu sei que a frase é uma citação da Emmeline Pankhurst, uma das mais evidentes sufragistas, que no filme é interpretada por Meryl Streep. A citação inteira diz:

“Eu sei que mulheres, uma vez convencidas de que o que estão fazendo é certo, que a rebelião é justa, vão continuar. Não importa as dificuldades, não importa os perigos, enquanto uma mulher estiver viva para segurar a bandeira da rebelião. Eu prefiro ser uma rebelde do que uma escrava.”

Sim, é uma citação muito forte e eu entendo o apelo. Mas falar sobre escravidão sendo uma pessoa branca já é se apropriar de uma realidade da qual você não tem experiência nenhuma, mesmo que seja o começo do século XX. E em 2015, numa sessão de foto com mulheres brancas que envolve feminismo, é ignorar a opressão que a mulher negra sofria naquela época – que sofre até hoje. É de muito mal gosto.

A Time Out soltou um comentário em que nem se dá ao trabalho de pedir desculpas, diz que quem leu a matéria entendeu o contexto. Desculpa padrão de quem não consegue admitir o erro, e que se recusa a crescer com ele.

Não sejamos como os homens que se recusam a ver o privilégio. Não apaguemos o sofrimento das irmãs negras porque nós não o vivenciamos. Feminismo precisa ser sobre todas nós. E a auto-crítica dentro do movimento é uma das coisas que vai nos fortalecer. O filme podia ter utilizado contar esse momento histórico e também questionar os valores racistas da época, mas parece que nem se deu conta de que ele existia.

Eu ainda quero assistir Suffragette. Quero muito. Mas como tudo aquilo que a gente assiste, é preciso problematizar.

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