Desde o dia do anúncio de Zazie Beetz no papel de Dominó em Deadpool 2, ainda lá em Março deste ano, a internet ficou polvorosa com o fato da atriz ser negra e não ter a pele branca como uma folha de papel da versão original dos quadrinhos. Esta semana, com a chegada da primeira imagem de Beets caracterizada como Dominó, a internet novamente ficou doida: Como assim Dominó tem um Blackpower?

Mulheres e cabelos, essa é uma relação de amor e ódio que dura séculos e que é profundamente pautado pelo que o homem, principalmente branco, acredita ser sexy ou não. Para serem considerados bonitos, os cabelos precisam manter um padrão inatingível de beleza, ser liso, ou levemente ondulado. Se tiver cachos, precisam ser definidos. Qualquer coisa que saia desse padrão ainda é visto como feio e, muitas vezes, como sujo ou descuidado.

Algumas das críticas ao cabelo da Dominó foi que o Blackpower da personagem seria pouco prático para uma assassina. Algo similar aconteceu quando Riri foi anunciada e sua ilustração a mostrava com um Blackpower maravilhoso – como ela vai colocar esse monte de cabelo dentro da armadura, eles perguntavam.

É Ironheart, colega.

A questão da suposta praticidade do cabelo nunca é levantada por esses críticos quando se trata de mulheres brancas em papéis de heroínas, anti-heroínas ou vilãs. Isso também não aconteceu com os longos e esvoaçantes cabelos de Gamora, interpretada pela atriz negra e latina Zoe Saldanha, porque Saldanha se encaixa num padrão de beleza considerado branco – e sua pele estava pintada de verde.

Existem duas razões pelas quais as mesmas alegações não acontecem quando temos uma atriz branca de longos cabelos lisos: hipersexualização e racismo.

Os longos cabelos de Jean Grey, de Sif, de Jessica Jones e os cachos ruivos incrivelmente da Viúva Negra nunca foram questionados quanto à sua praticidade. Tão pouco foram os longos cabelos da Mulher-Maravilha. Isso é explicável porque nós, como sociedade, vemos mulheres brancas de longos cabelos lisos ou levemente cacheados como sexy. Elas precisam sacudir os cabelos para o lado em câmera lenta, os cachos precisam cair graciosamente sobre o colo dos seus seios para que nós possamos sentir que, além de chutar bundas, elas também são mulheres que você gostaria de levar para a cama. O mesmo acontece com Gamora, que apesar de ser interpretada por uma atriz negra, possui longos cabelos lisos em uma pele verde.

Quem tem ou já teve cabelo comprido sabe a dor de cabeça que ele é no vento forte, ou quando você está praticando um esporte e ele gruda na sua cara por causa do suor, ou como ele corre na frente dos seus olhos se você corre com muita velocidade. Mas nenhuma dessas questões, que mostram o quão pouco prático é qualquer tipo de cabelo comprido em uma situação de ação, é levantada quando analisamos o mundo sob uma ótica branca e masculina.

Cabelos longos são sinônimos de sexy, e o mesmo valor não se dá para cabelos blackpowers ou qualquer tipo de cabelo associado à etnia negra.

Quando criticam o cabelo blackpower da Dominó o que está sendo levantado é, na verdade, que ela é errada. Que ela deveria ser branca de longos cabelos pretos, porque isso seria sexy. Isso revela um racismo que, ao se basear dentro de um padrão branco de beleza, excluí qualquer coisa que saía dele. Veja bem, um problema revela o outro: a crítica ao cabelo não é porque ele é pouco prático, mas é porque o racismo de quem critica fica exposto sob a ótica de que se a mulher negra não se encaixar dentro do padrão de beleza que a nossa sociedade impõe, então ela não é digna de ser considerada sexy ou bonita. E ao limitar o valor de uma mulher, negra ou branca, ao quão atraente ela é para os olhos masculinos, esses críticos objetificam as personagens, tornando-as apenas tokens da punheta masculina.

Conversando com a Camila Cerdeira, do site Preta, Nerd & Burning Hell, ela complementou:

Uma das questões importantes sobre a Dominó ser negra é compreender que feminilidade possui cor e não é a negra. Como mulher negra estou familiarizada com a exclusão de feminilidade que nossa negritude acarreta. Por consequência dessa ausência de feminilidade, negras são vista como desmasculinizadoras. Dominó negra e ostentado um cabelo natural quebra a noção de feminilidade e demonstra não ser submissa, o reforço disso é ela deitada sobre um tapete de pele do Deadpool, a máxima da desmasculinização do protagonista.

Tudo isso dito, personagem feminina nenhum deve ser diminuída à sexo, principalmente se a sexualidade que está sendo trabalhada não é a dela, e sim a do espectador masculino. Personagens femininas não devem existir apenas para agradar ao olhar objetificante masculino, muito menos personagens femininas negras ao olhar masculino e branco – algo infelizmente tão comum e que cai num fetichização racista que é extremamente prejudicial para a imagem que a nossa sociedade contrói em torno da mulher negra.

Apesar de toda a crítica, muitas pessoas deixaram comentários positivos e, vejam só, já tem até fanart dessa lindeza:

Resumindo: quando qualquer outra personagem feminina foi anunciada, ninguém nunca reclamou porque o padrão de beleza ao qual essas personagens se encaixam é o padrão e branco e objetificante. As críticas que a caracterização da Dominó vem recebendo nada tem a ver com uma suposta fidelidade aos quadrinhos. Não, o fundo das críticas vem sim baseadas em um racismo que, por mais que os autores das críticas não se deem conta, existe e está impregnado no nosso conceito de beleza e do que é aceitável para personagens femininas. Eu ainda estou procurando uma crítica ao tamanho desnecessário do decote do uniforme, mas disso ninguém reclamou.

Personagens femininas não podem só chutar bundas, elas precisam fazer isso enquanto agradam o patriarcado machista e racista. Dominó, no entanto, parece já ter chegado pra chutar bundas inclusive antes de se quer começar a filmar suas cenas.

Deixo vocês com o último exemplo de como a crítica sobre o cabelo blackpower da Dominó é sim de fundo machista e racista:

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