Não tem nada mais brega do que uma mulher que acredita no amor. Nós aprendemos desde cedo que somos frágeis e bobas por acreditarmos no amor. Nós somos ensinadas a reprimir esses sentimentos, afinal, esta é uma das poucas maneiras para sermos levadas à sério, para demonstrarmos que somos fortes como os homens. “Mulheres são sentimentais demais”, eles dizem, como se sentir fosse algo negativo. Nesse caminho, quando nos adequamos ao que é considerado forte o suficiente,  muitas vezes somos consideradas frias.

Quando Interestelar (2014), de Cristopher Nolan, estreou nós estávamos no auge da fase “todo mundo odeia Anne Hathaway”. Amelia, sua personagem no filme, tem um monólogo que pra mim é um dos pontos altos do filme. Nele ela fala sobre o amor, sobre como quis a missão porque tinha esperanças de chegar até o seu amante (um dos cientistas que se aventurou pelos planetas possíveis e que, possivelmente, acabaria morrendo sozinho). Muitas pessoas criticaram a personagem pela motivação dela ser o amor romântico, afinal não há nada de mais clichê do que uma mulher apaixonada, não há nada mais prejudicial para a figura feminina do que ser associada ao amor romântico, porque isso faz dela frágil.

Por este pensamento eu sou a mulher mais frágil e brega que você vai conhecer na sua vida. Quando converso sobre filmes, séries, livros e quadrinhos que gosto é muito fácil traçar o ponto em comum neles: empatia e amor. Eu não poderia estar mais longe do niilismo nem se eu morasse na Lua. A Mulher-Maravilha também não.

E sou absolutamente a favor de personagens femininas que não sejam definidas pelo amor romântico, que tenham arcos de história e desenvolvimento completamente abstraídos desse conceito. Eu quero muito que Rey, de Star Wars, seja uma dessas personagens. Acho que se perde muito quando elas são diminuídas ao seu interesse romântico e acredito que precisamos de mais personagens femininas que fujam desse padrão. Mas essa simplesmente não é a Diana.

Não há nada de errado em falar de amor em um filme de super-herói, mesmo se ele for de super-heroína. Tentar definir todos os sentimentos que levaram à transformação de Diana como personagem no filme ao “boy da noite passada” é diminuir a personagem em si. Ao meu ver é fazer aquilo que a gente tanto tem medo que façam: classificá-la pelo interesse romântico, sendo que o amor que Diana demonstra ao longo do filme é muito maior do que Steve Trevor. Ela transborda empatia desde o começo da história.

Ainda em Temisciria, quando Diana descobre o caos pelo qual o mundo dos homens está passando, quando ela escuta Steve falar sobre os milhares de mortos, ela imediatamente quer ajudar. Não é a curiosidade de Diana que a leva a querer sair da ilha e ir à guerra, é a empatia. É um senso de justiça e dever, destruir Ares e cumprir o destino das Amazonas e ajudar as milhares de pessoas que estão sofrendo. Amigos, isso é amor.

Quando ela chega ao mundo dos homens ela empatiza até com o homem que segundos atrás havia tentado matar a ela e a Steve no beco. Ela não exige ou o agride, ela se abaixa até ele e tenta fazê-lo se livrar do que ela acredita ser o domínio de Ares. Quando ela confronta os superiores de Steve, e se revolta com o que eles falam, é mais uma demonstração de empatia, e isso é amor.

Quando Diana chega à Belgica e vê os homens machucados vindo na direção contrária a sua ela sente pena deles. Quando eles chegam ao front e ela vê um homem machucado, os cavalos sofrendo com o peso o castigo físico, quando ela para pra escutar o apelo da mãe escondida com a criança no colo. Isso é amor. Ela se recusar a passar reto pelo vilarejo sitiado e sofrendo com fome e escravidão – isso tudo é amor. E essa é parte importante que diferencia Diana dos outros soldados, ela ama essas porras tudo. Ela também é superforte e tem um escudo animal, mas ela não sobe a escadinha do front por causa do escudo, ela sobe a escadinha do front porque ela ama a humanidade, porque Diana acredita nela. E é por isso que a transformação dela lá na frente é tão importante, e tão maior do que Steve Trevor.

Diana inspira seus companheiros de viagem a lutarem, esse é o papel da Mulher-Maravilha, e ela é capaz de fazer isso não só porque tem força física, mas porque ela é o símbolo de algo melhor. E os parceiros dela lutam ao seu lado não porque acreditam que Ares é o verdadeiro culpado por tudo isso, mas porque acreditam em Diana. E essa porrada toda é o que? É amor, minha gente.

Eu sei que é muito mais popular falar de amor como subtexto, de maneira mais sutil. “Mais é menos” é uma das frases que eu mais falo quando dou aula ou palestras sobre roteiro. Mas regras existem para serem quebradas.

Dentro do MCU a maior parte dos temas são abordados de maneira sutil, através do subtexto – o amor é um desses temas. Seja o amor romântico de Peggy e Capitão América, ou o amor de amizade entre Capitão e Bucky (sorry Stucky shippers). “Eu te amo” não é uma frase que você escuta com muita frequência, muito menos “Eu acredito no amor”.

No DCU tudo é muito mais dramático e literal, e esses nunca foram os problemas dos últimos filmes. Então faz sentido que dentro do universo cinematográfico da DC nós tenhamos uma visão menos sutil dos temas, por isso faz sentido que MM fale essas palavras de maneira tão direta. Mas ainda assim MM nunca disse “eu te amo”.

Quem falou “Eu te amo” foi Steve. Um homem que é a representação de testosterona heróica no filme, o herói masculino de ação, o mártir do filme revela seus sentimentos de maneira direta, sem rodeios. Ele olha para Diana, a mulher que o inspirou e que mudou a sua vida, e diz que a ama. Se isso não é uma representação positiva para meninos e meninas, eu não sei o que é.

Eu sei que essa falta de sutileza não é para todo mundo, e tá tudo bem, mas não acredito que dê para reduzir tudo que Diana passa e sua transformação ao “amor pelo boy da noite passada”. Pra mim há algo de muito empoderador em escutar a Mulher-Maravilha dizer que acredita no amor. E mesmo se eu acreditasse que esse amor é apenas por Steve, ainda assim eu acharia válido. Porque amor é sinônimo de fraqueza na nossa sociedade, mas eu vejo como força. Nos tempos sombrios pelos quais passamos é importante lembrar que o amor pode ser uma das nossas fontes de energia para continuarmos lutando por algo melhor. Ver isso vindo de uma super-heroína só torna tudo ainda mais simbólico.

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