Aborto é um assunto delicado. Não por qualquer outra razão senão o fato de que nós não discutimos o assunto de verdade no Brasil. Toda vez que alguém fala “aborto” os gritos mais escutados são “vida”, “assassinato”, “concepção” e “Bíblia”.

No último mês, vimos o sofrimento de Jandira e sua família crescer na mídia, no que se tornou um caso marcante de violência contra a mulher. A mãe de Jandira apoiou a filha, os comentários nas notícias a demonizaram. No Brasil, quando uma de nós decide fazer um aborto, a violência se instaura em diversos momentos. Ela vem antes, durante e depois do ato consumado. Somos agredidas física e moralmente, somos julgadas e demonizadas.

Tem um lugar dentro do meu corpo que não me pertence. Meu útero não é meu, é do Estado, da religião, dos pais, dos irmãos, dos homens. Mas não é meu. Ninguém tenta controlar a ejaculação masculina, mas a minha ovulação precisa ser guardada a sete chaves.

Eu sou sexualmente ativa há um bom tempo já, e uso pílula desde muito nova, por conta dos meus ovários policísticos. Tomar esse remedinho todos os dias se tornou parte da minha rotina e um dos momentos mais importantes do meu dia.

Tenho 28 anos, uma carreira em construção, um companheiro fixo e não quero engravidar. Camisinhas estouram e eu não quero receber um bebê surpresa quando a menstruação atrasar. Entre minhas amigas, brincamos que toda menstruação é a garantia de mais um mês baby-free.

Mas e se acontecer? Quais são as minhas opções?

Eu faço parte do seleto grupo de mulheres brasileiras que possuem opções. Eu posso escolher entre levar a gravidez em frente ou terminá-la numa clínica cara, segura e sigilosa. Se você me perguntar, eu não tenho a menor ideia do que eu faria – e a verdade é que isso não vem ao caso. Eu preciso ter esse direito garantido pelo Estado, mas o problema real são as mulheres que não têm nem as minhas opções.

Hoje, o governo fornece duas opções às mulheres de baixa renda que precisam fazer um aborto: cadeia e morte.

O aborto é criminalizado no país, a não ser em casos de estupro, risco para a mulher ou no caso do feto sem cérebro. Ainda assim, existem casos em que meninas de onze anos de idade, depois de sofrerem com o estupro, são obrigadas a continuarem com a gravidez – ou seja, são violentadas uma outra vez pelo Estado e pela religião. Há diversos relatos de mulheres que foram ao SUS buscando ajuda para realizar aborto após um estupro e esse direito lhes foi negado.

Por que é tão difícil oferecer direitos básicos às mulheres?

Todos os meses, meu corpo passa por uma transformação que é linda e que faz parte de ser humana. É uma transformação que ainda traz cara de nojo ao rosto de muitos marmanjos, que ainda é mistificada, e que ainda faz de nós, aos olhos dos outros, frágeis. A minha menstruação não faz de mim frágil. Meu corpo sangra uma vez por mês e eu continuo aqui, intacta. A pílula me dá o direito de controlar ou não esse fenômeno, mas ela não é perfeita. E eu não sou perfeita. E eu tenho o direito de errar e corrigir o meu erro.

O corpo feminino é diferente do corpo masculino, mas isso não quer dizer que nós não devemos ter o direito de agir com ele da maneira que for. Se a mãe de quatro filhos, que trabalha por menos de um salário mínimo, quiser terminar uma gravidez que só vai piorar ainda mais a condição de vida dos seus filhos, que vai trazer ao mundo outra criança que ela vai sofrer para criar, ela precisa ter essa opção. Se uma jovem estudante, começando uma carreira, a quem ter filhos nem passa pela cabeça, quiser realizar um aborto porque a gravidez não é desejada, ela precisa ter essa opção. Se uma mulher estuprada quiser abortar, ela precisa ter essa opção.

Se uma mulher descobre a gravidez e considera o apunhado de células em seu ventre um bebê, ela tem todo direito de se emocionar e continuar com a gestação. Mas se a mulher descobre a gravidez e o apunhado de célula nada mais é que um apunhado de células que vai dificultar ou impossibilitar a sua vida, ela precisa ter o direito de interromper essa gestação. Chega de colocar um feto na frente da vida de uma mulher.

O corpo da mulher precisa parar de pertencer aos outros. E a religião precisa parar de comandar a liberdade das outras pessoas. E a política precisa parar de usar a religião para controlar o nosso corpo.

Eu não sou religiosa, não sou católica, espírita, evangélica, candomblé. Eu não tenho que ter a minha vida permeada pelas vontades e crenças de ninguém. A mulher religiosa não tem que ter os seus direitos vetados e suas escolhas demonizadas porque decidiu tomar controle sobre aquilo que já é seu. Eu sou um cidadão civil, cujos direitos precisam ser respeitados, cujas necessidades precisam ser fornecidas.

Aborto é um problema de saúde pública. Não só porque os hospitais do SUS não fornecem um procedimento que é garantido pela constituição, mas porque as mulheres de baixa renda não podem tomar controle sobre os seus corpos sem que precisem colocar a vida em risco.

Desde a legalização do aborto no Uruguai, o número de mortes por aborto reduziu radicalmente. Mais mulheres estão vivas porque lhes foi dado o controle sobre os seus corpos. Chega de discutir se é certo ou errado para a moral religiosa, chega de criar mundos bizarros em que filas de mulheres irão todo mês fazer um aborto porque é mais fácil que usar pílula e camisinha, chega de pintar a nós, mulheres, como criminosas. A legalização do aborto não vai obrigar ninguém a abortar, mas vai permitir que aquelas que optem por esse procedimento tenham uma opção viável e segura.

Aborto não é crime. Crime é o que o Estado e a religião cometem ao permitir que tantas de nós morram.

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