Na semana passada o Collant recebeu uma cópia de Nimona, o quadrinho de Noelle Stevenson, que chegou ao Brasil pela editora Intrínseca.

A HQ conta a história de Nimona, uma metamorfa que quer virar comparsa do lorde Ballister Coração-Negro, o maior vilão de todos. Apesar da sua fama, Ballister não tem muito sucesso nas suas missões como vilão, mas com a ajuda de Nimona, algumas coisas começam a sair melhor do que o esperado. Juntos, eles precisam enfrentar o herói sir Ambrosius Ouropelvis, mas logo Ballister vai perceber que Nimona causa mais de estrago do que ele planejava.

Na hora que fiquei sabendo da sinopse do quadrinho já me apaixonei pela ideia. Não só parecia uma história que quebraria alguns padrões, mas também achei interessante o fato de que ela se focava em vilões e anti-heróis. Como não amar uma metamorfa que pode se transforma em tudo, inclusive um dragão?

O quadrinho é leve, dinâmico e tão divertido que em pouco tempo dá para terminar as 272 páginas. A história é dividida em capítulos, alguns mais conectados que outros, mas todos relevantes para a trama central. O traço e as cores também combinam com o clima leve que o quadrinho passa. O design dos personagens é divertido: Nimona parece uma menina fã de rock, Ballister tem uma cara típica de vilão sempre de mau humor e Ambrosius é um clichê do grande herói galante. O mais interessante é que, mesmo que não pareça, Nimona trás algumas reflexões e exposições de passado dos personagens nada leves, como o caso da história de lorde Ballister, que perdeu o braço antes de virar um grande vilão.

É interessante como vários elementos da história começam parecendo uma brincadeira, algo para o leitor apenas dar risada, mas mais tarde se revela algo importante para a trama. Os personagens vão mostrando quem sãos aos poucos, sem apressar ou forçar relações entre eles, o que faz com que o leitor se importe com o que está acontecendo.

O universo do quadrinho é muito interessante. Primeiro acreditamos que é uma história puramente fantástica medieval, mas logo encontramos lasers, televisões e outras coisas mais futuristas. O quadrinho brinca com a mistura entre magia e ciência. No começo pode parecer um pouco estranho, mas ao longo da história nos acostumamos com essa junção de elementos.

Nimona é uma personagem muito divertida. Ela quer ser malvada, acaba sendo o “diabinho” no ombro de Ballister, mas ao mesmo tempo se importa com seu novo amigo. Nimona consegue ser engraçada, criativa e muito brava quando quer. Conseguimos conhecer todos os lados da personagem, o que enriquece a história. Ballister e Ambrosius também são personagens bem desenvolvidos, a relação entre eles é muito interessante, mas Nimona normalmente rouba os momentos em que aparece.

Um dos aspectos mais incríveis da história é como ela coloca o “bem” e o “mal”, como essas posições são trabalhadas e mudam rapidamente. Em certo momento, conhecemos a academia de heróis, que tenta impedir o vilão Ballister de realizar seus planos terríveis. Mesmo que o quadrinho aponte de forma óbvia quem é vilão e quem é herói ali, os personagens desafiam e quebram esses padrões. Isso não acontece só com as ações dos personagens dentro da história, mas também na forma em que eles foram criados e se desenvolvem.

Do ponto de vista da população daquele reino, Ballister é o grande vilão, a mídia também faz seu papel para mostrar isso. Mas do ponto de vista dele, vemos que, apesar dele ter planos malvados sim, Ballister tem algumas atitudes que são mais justas que as de outros personagens. O quadrinho mostra que é uma questão de ponto de vista. Para as pessoas dentro daquele universo, Ballister e Nimona são maus, mas o leitor vai simpatizar com eles e entender suas motivações. Os personagens que conhecemos não podem ser colocados em caixinhas de “heróis” e “vilões”, mesmo que aquela sociedade faça isso. Dependendo do ponto de vista, essa posição pode mudar. É ainda mais interessante que isso aconteça em uma história com elementos fortes de fantasia, que é um gênero que muitas vezes vai deixar bem marcada a diferença entre o bem e o mal.

A história vai fluindo tão bem para o conflito final que é muito difícil largar a leitura nas últimas páginas. A conclusão deixa algumas coisas abertas para interpretações, mas é uma opção que combina com os pontos que o quadrinho vai apresentando. É uma história apaixonante, não acreditei que tinha terminado de ler tão rápido e queria mais!

Nimona é um quadrinho que vai surpreender a cada página, que faz o leitor rir e ser pego numa reflexão mais profunda ao mesmo tempo. Além de ser muito bom ver uma protagonista mulher tão divertida, Nimona é muito bem escrita. É muito bom ler um quadrinho que tenha uma história que não caminhe para o óbvio. Então se você gosta da ideia de uma metamorfa ajudando um vilão, batalhas épicas, dragões, tubarões, magia e ciência, você vai amar Nimona.

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